Medicina & Bem-estar

Vítimas da vaidade

Morte de ex-miss Argentina alerta para os perigos à saúde causados pela bioplastia, técnica que promete remodelar a silhueta sem bisturi - mas com o uso de uma substância pouco conhecida pela medicina

Vítimas da vaidade

Um método que se propõe a dar uma nova silhueta rapidamente – e sem bisturi – ganhou espaço no mercado da cirurgia plástica: a aplicação de uma substância com nome complicado, o polimetilmetacrilato (PMMA), em camadas profundas da pele. Empinar o bumbum e arrebitar o nariz sem cortes são algumas das promessas do procedimento, batizado de bioplastia. A facilidade da aplicação e os bons resultados estéticos atraíram centenas de pacientes para clínicas de dermatologistas, cirurgiões plásticos e profissionais sem formação médica também. Hoje, o efeito do uso indiscriminado do procedimento deixa suas marcas. Casos de reação inflamatória crônica por conta do material, necroses de tecidos de locais como nariz, lábios e queixo, e deformações causadas pelo enrijecimento da substância preocupam os médicos.

Na última semana, a modelo Solange Magnano, miss Argentina 1994, morreu de embolia pulmonar após se submeter a uma injeção de polimetilmetacrilato nos glúteos. O caso deu o alerta mundial para os riscos da técnica. A família de Solange aceitou a causa da morte como uma fatalidade. Mas, até que a autópsia do corpo seja divulgada, a hipótese de a embolia ter sido causada pela entrada da substância na corrente sanguínea continua a ser considerada pelos especialistas.

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EFEITO Valdete queria melhorar a face. Mas até hoje tem de controlar uma inflamação crônica no rosto

No Brasil, o que se vê é que os casos de complicações por uso de PMMA têm se mostrado graves e muitas vezes irreversíveis. “Isso porque o material, usado para unir estruturas ósseas em cirurgias ortopédicas, não é absorvido pelo organismo”, explica Sérgio Levy, presidente da seção do Rio de Janeiro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Além disso, a substância tem como propriedade misturar-se aos tecidos. Por isso, retirá-lo, se for necessário, é praticamente impossível. “Um paciente com reação imunológica ao material pode apresentar inflamações crônicas e ter de tomar medicamentos como corticoides até o fim da vida”, explica a médica Natale Gontijo, cirurgiã plástica da equipe da Clínica Ivo Pitanguy.

O caráter duradouro, atraente à primeira vista, é, na verdade, mais um risco. O cirurgião plástico Carlos Alberto Jaimovich, membro da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho Federal de Medicina, alerta que não se deve procurar um profissional capaz de fazer um procedimento, mas não de corrigi-lo: “O mote da propaganda é a plástica sem cortes, mas não se explica que, em caso de problemas, a correção, quando possível, vem com o bisturi.”

O receio dos especialistas quanto à técnica tem o respaldo do Conselho Federal de Medicina. Em 2006, a entidade emitiu uma nota alertando os médicos para os riscos do material, devido à ausência de estudos, sobretudo para preenchimentos em grandes volumes e intramusculares. “Já a sociedade de dermatologia não proíbe, mas desestimula o uso do produto”, alerta a médica Andréia Mateus, coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia do Rio de Janeiro. O cirurgião plástico Almir Nácul, criador do método da bioplastia e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, garante que o uso correto do método diminui as chances de complicações. “Trata-se de uma plástica interativa, em que o paciente pode acompanhar consciente o que está sendo feito”, defende o cirurgião. “O uso indevido por profissionais que não sabem aplicar a técnica é o que a denigre”, reclama ele, que se orgulha do fato de que seis en­tre as últimas dez misses Brasil terem feito o procedimento.

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DRAMA A ex-miss Argentina Solange teve uma embolia pulmonar após se submeter ao método

A dona de casa carioca Valdete Calixto, 61 anos, recorreu à bioplastia para corrigir imperfeições. Seu desejo era encontrar uma alternativa de preenchimento para o rosto que combatesse a flacidez e aumentasse queixo e lábios. Mas a intervenção feita em 2002 começou a causar inchaço e vermelhidão cinco anos depois. Antes de descobrir que o material era a causa de sua lesão de pele, ela procurou diversas especialidades médicas e encontrou diagnósticos errados para o seu problema. “Eu, que era vaidosa e admirada, me vi monstruosa”, conta. Hoje Valdete controla a inflamação graças a tratamentos dermatológicos que incluem medicação e laser.

No Brasil, apenas três produtos à base de polimetilmetacrilato têm o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para circular. Em 2007, a agência proibiu que a matéria-prima fosse usada em farmácias de manipulação. “Ainda não recebemos notificações oficiais de reações a esses produtos. Mas é importante que os profissionais que as tenham nos comuniquem”, destaca Luiz Roberto Klassmann, diretor-adjunto da agência.

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