Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

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A valorização do real, o aumento da renda das famílias e o surgimento de uma vigorosa classe média estimularam, nos últimos anos, uma invasão de turistas do Brasil nos principais destinos internacionais. Nos Estados Unidos, nenhum grupo de visitantes gasta, em média, mais dinheiro do que os brasileiros. O mesmo se dá na Espanha e Argentina. Segundo dados da Organização Mundial de Turismo, o ritmo de crescimento das despesas dos brasileiros em solo estrangeiro é seis vezes superior ao aumento dos gastos de americanos e europeus. Agora, esse processo corre o risco de ser interrompido. A recente valorização do dólar, que na semana passada ultrapassou a casa dos R$ 2 pela primeira vez em quase três anos, fez com que os turistas com planos de viagem para o Exterior recalculassem as despesas e, em alguns casos, adiassem o passeio. As férias de julho, esperadas com ansiedade por milhões de pessoas, estão ameaçadas se o destino for além-mar. De acordo com a Associação Brasileira de Agências de Viagem, a disparada do dólar provocou, em maio, uma alta de 10% no preço dos pacotes. Na Nascimento Turismo, a procura por pacotes internacionais, principalmente para Estados Unidos, Europa e Caribe, despencou. “O impacto é imediato”, afirma o diretor-comercial da empresa, Cleiton Feijó. “Não adianta esperar cair, porque o câmbio a R$ 1,70 não volta mais”, afirma Fabiano Rufato, diretor do Grupo Fitta, rede proprietária de diversas casas de câmbio. Desde o início do ano, o dólar subiu 6,9% e a expectativa dos economistas é de que a cotação da moeda avance mais.

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SONHO ADIADO
Declev Reynier e Ana Catarina Portugal
não vão mais para a Europa

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FICOU PARA DEPOIS
A família Papp trocou a Disney pelo Beto Carrero World:
“Não queremos surpresas no cartão”

Para quem pretende viajar ao Exterior, não se trata de uma boa notícia. A publicitária Patrícia Papp trocou os parques da Disney, em Orlando, pelo Beto Carrero World, na cidade de Penha, a 114 quilômetros de Florianópolis (SC). “Quando fomos pela primeira vez, meu filho tinha 5 anos e minha filha, só 6 meses”, diz Patrícia. “É uma pena. Se fossem agora, eles iriam aproveitar muito mais.” A ida aos Estados Unidos ainda está nos planos da família, que mora em Curitiba (PR), mas ficou 15% mais cara do que no início do planejamento. Patrícia e o marido, Nuno, optaram por viajar pelo Brasil em julho com os filhos Pedro, 8 anos, e Luiza, 3, para poupar mais dinheiro para a próxima viagem internacional. “Não queremos ter surpresas na hora de pagar o cartão.” A mesma solução foi encontrada pela professora de artes Ana Catarina Portugal, de Niterói. Por meio do seu blog, Turista Profissional, Ana conheceu um grupo de 17 pessoas, que todo ano viaja para o Exterior nas férias de julho. Em 2011, o destino escolhido foi o Chile. Desta vez, o plano era ficar dez dias em Portugal. “À medida que os custos subiam, meus amigos iam desistindo”, diz Ana. Após a quebra da tradição, o grupo estuda, em cima da hora, ir para a Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, ou para algum ponto do Nordeste.

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EM CIMA DA HORA
Janaína Medeiros, analista- financeira, estava de malas
prontas para embarcar para Nova York, mas desistiu:
“Pretendia gastar US$ 4 mil em compras”

Nem todos os turistas estão dispostos a adiar os seus sonhos. Os empresários Rudolf Jakobi Neto e Marcos Roberto Quinta decidiram manter os planos de conhecer Los Angeles, nos Estados Unidos. “Não vou deixar a alta do dólar me atrapalhar”, diz Neto. Quando a dupla comprou as passagens, a cotação do dólar era de R$ 1,98. Ao fechar a reserva dos hotéis e o aluguel de um carro, o câmbio já estava em R$ 2,10. O pacote de nove dias custou, no total, cerca de US$ 13 mil para os dois. “Agora, vou ser mais cauteloso nos gastos”, afirma Neto. Uma maneira de evitar pagar mais é não esperar muito tempo para fechar negócio. “Se for viajar, compre logo”, diz Fabiano Rufato, do Grupo Fitta. Como o cenário externo ainda pode se deteriorar, há chances de o dólar subir ainda mais. As compras no cartão de crédito devem ser evitadas. Além do estresse provocado pelo sobe e desce cambial, a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras que recai sobre elas é de 6,38%. No cartão pré-pago, que pode ser recarregado pela internet e por telefone, é de apenas 0,38%.

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Queridinhos dos empresários do setor, os brasileiros construíram uma justa fama de gastadores. No começo do ano, quando o dólar ficou abaixo de R$ 1,70, não era raro ver pessoas que viajavam ao Exterior com o objetivo principal de fazer compras – e não de conhecer um lugar diferente. É o caso da analista-financeira Janaína Medeiros, que estava de malas prontas para Nova York com a firme disposição de gastar US$ 4 mil em eletrônicos, roupas e bolsas. “O impacto nas minhas contas ia ser muito grande”, diz. “Preferi desmarcar.” Segundo Júlio Gomes de Almeida, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, quando o câmbio estava valorizado, a concorrência com a mercadoria importada era desleal, independentemente da produtividade da indústria nacional. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, segue o mesmo raciocínio: “O dólar alto beneficia nossa economia, porque dá mais competitividade para os produtos brasileiros.” O governo vinha travando uma batalha contra a valorização do real há pelo menos um ano e meio. A movimentação da semana passada é resultado principalmente da deterioração das contas na Europa e da instabilidade política na Grécia. “Quando o risco aumenta, é natural que as pessoas corram para o dólar, valorizando a moeda”, afirma o professor Carlos Eduardo Soares Gonçalves, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. 

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PLANEJAMENTO
Rudolf Jakobi (à esq.) e Marcos Roberto mantiveram a
viagem para os EUA, mas vão controlar os gastos

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*Último dado disponível
Fontes: Banco Central e Ministério do Turismo