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O Brasil na rota do massacre de tubarões

Apreensão recorde de barbatanas no Pará escancara mercado negro e traz à tona a prática cruel que mutila os animais

O Brasil na rota do massacre de tubarões

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FLAGRANTE
Funcionários do Ibama e parte das 7,7 toneladas
de barbatanas apreendidas em Belém

Na sexta-feira 4, o Ibama apreendeu 7,7 toneladas de barbatanas de tubarão armazenadas em uma empresa de exportação de pescado em Belém, no Pará. A firma, que estava pronta para mandar o material para a China, foi embargada e multada em R$ 2,7 milhões por não comprovar a legalidade do produto.

O caso é emblemático de um massacre que vem dizimando os tubarões em todo o planeta. Nas últimas duas décadas, vêm crescendo muito a demanda e o preço da barbatana do animal (o quilo chega a custar US$ 700). O produto é usado para fazer uma sopa que é considerada uma iguaria na Ásia, e também está presente em restaurantes de países que contam com uma população oriental significativa, como EUA e Canadá. A barbatana é geralmente obtida por meio de uma prática cruel chamada “finning” (leia quadro), que consiste em capturar o tubarão, cortar suas nadadeiras e jogar o corpo mutilado no mar, submetendo o animal a uma morte agonizante.

Essa prática tem levado algumas espécies ao risco de extinção, já que muitos animais precisam ser mutilados para que se obtenha uma quantidade razoável de barbatanas. Segundo o Ibama, desde 2009 já foram apreendidas 15,7 toneladas do material somente no Estado do Pará. De acordo com as estimativas do órgão, cerca de sete mil tubarões foram mortos para que essa quantidade de barbatanas fosse alcançada.

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IGUARIA
Restaurante de Bangcoc, na Tailândia, oferece a
famosa sopa de barbatana de tubarão

A pesca do tubarão é permitida no Brasil, exceto para espécies em risco de extinção, como o cação-anjo ou o tubarão-baleia. Mas há uma portaria do Ibama que inibe o finning. O texto determina que o peso das barbatanas não ultrapasse 5% do total de um lote de carcaças. O problema é que é praticamente impossível fiscalizar todas as embarcações.

O massacre causa danos severos à vida marinha. “Esse predador tem a função de regular a quantidade de suas presas”, diz o biólogo Fábio Motta, pesquisador associado à Unesp. Ele explica que, quando o animal é retirado de cena, ocorre um boom na quantidade de indivíduos de outras espécies, o que por sua vez ameaça a existência de outros seres abaixo deles na cadeia alimentar. É o que ocorreu na Tasmânia. O declínio na população de tubarões fez com que a população de polvos explodisse. Como esses moluscos alimentam-se de lagostas, o desequilíbrio massacrou o comércio dos crustáceos no país da Oceania.

Para combater o problema, há três linhas de ação. A primeira é criar leis mais duras. A segunda é apertar a fiscalização. “No Brasil, é obrigatório ter observadores de agências governamentais em barcos de outros países. O ideal seria ampliar isso para toda a frota”, diz Motta. Por fim, é importante conscientizar o público em geral sobre as consequências da produção da sopa de barbatana. Afinal, quem controla a demanda é sempre o consumidor.

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