Artes Visuais

A viagem de Caravaggio

Obras do gênio do barroco italiano deixam seus museus de origem e integram a maior exposição do pintor e seus discípulos já montada no Brasil

A viagem de Caravaggio

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VIOLÊNCIA
"Medusa Mortula", um dos destaques da mostra de Caravaggio

A violência impressa na face da Medusa, personagem mitológica grega, retratada pelo pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), exprime bem o estado de espírito que nunca abandonou o artista nos 39 anos de uma vida cheia de sobressaltos. Conhecido como Caravaggio por causa do local de origem de sua família, o grande mestre do barroco italiano se dedicou à pintura ainda criança, aos 12 anos, e, até os 29, viveu em duras condições de pobreza, “extremamente necessitado e desprovido”, segundo historiadores setecentistas – que se debruçaram sobre sua obra, tirando-a das sombras em que ficaram imersas durante quase dois séculos. No entanto, mesmo depois de alcançar a fama e a celebridade em vida com pinturas religiosas, ele não deixou seu pendor à marginalidade e aos maus costumes: Caravaggio seria sempre conhecido pelo temperamento intempestivo e pela intolerância às regras. Resultado disso é uma obra de intensidade ímpar, repleta de religiosidade, violência, sensualidade, inconformismo e inconstância.

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ORAÇÃO
"San Francesco d’Assisi in Meditazione" foi pintado para uma igreja.
Hoje pertence ao acervo da Galeria Nacional de Arte Antiga, de Roma

Caravaggio viajou muito em sua vida. Buscando conhecimento ou fugindo da polícia, passou por Milão, pela Lombardia, pelo Vêneto, chegou a Roma e foi parar em Nápoles, Malta e na Sicília. Mas, no Brasil e na América do Sul, suas obras apenas desembarcam agora, na exposição “Caravaggio e seus Seguidores”, que se inicia na Casa Fiat, em Belo Horizonte; e chega ao Masp, em São Paulo, em julho; seguindo para Buenos Aires, em outubro. “Medusa Mortula”, finalizada em cerca de 1596, é um dos grandes destaques da exposição, que terá sete pinturas do mestre e outras 14 de seus discípulos, denominados “caravaggescos”. Embora conhecida como “a nova Medusa”, é provável que tenha sido pintada antes da versão que está exposta em caráter permanente na Galeria Uffizi, em Florença. É “nova” porque, apenas em 2011, sua autenticidade foi comprovada.

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PENITÊNCIA
A tela "San Girolamo Che Scrive" retrata o santo monástico.
Pertence à Galeria Borghese, de Roma

Dúvidas como essa não são raras na obra de Caravaggio, a considerar que o jovem pintor teve um verdadeiro séquito de seguidores – tamanho o impacto causado pelo seu estilo na época. Catorze deles estão reunidos na exposição. “Caravaggio surgiu como um raio no estagnado ambiente tardo-maneirista romano durante a última década do século XVI”, afirma a curadora Rossella Vodret no texto do catálogo da exposição. Ainda jovem, o pintor chegou a Roma no momento em que a Itália vivia o esgotamento de uma arte de características palacianas, que exaltavam uma elegância artificial e uma virtuosidade excessiva, e a Igreja Católica procurava uma nova expressão artística com força de comunicação suficiente para fazer frente ao protestantismo que crescia na Europa. Caravaggio se encontrava em condições miseráveis, mas trazia o talento arrebatador de quem já havia pintado obras-primas como “Medusa Mortula” ou “Narciso”. Sua aliança com a Igreja foi, portanto, a união da fome com a vontade de comer. E sua amizade com o cardeal Francesco Maria Del Monte lhe daria acesso ao círculo intelectual italiano e às condições necessárias para desenvolver as características fundamentais do estilo revolucionário que o consagrou para sempre: o tema destacado da realidade, o fundo escurecido de forma a concentrar a atenção no primeiro plano, o feixe de luz dramático sobre a figura principal, e a dialética claro-escuro – que, afinal, refletia seu próprio estilo de vida de contrastes.

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NOBREZA
Retrato do Cardeal Cesare Baronio.
Veio da Galeria Uffizi, de Florença

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