Cultura

Deu giovanni na cabeça

José Wilker vive grande momento na pele do espirituoso personagem que mudou os rumos da novela Senhora do destino

Na (então) pequena Juazeiro do Norte, no Ceará, um garoto que gostava de recitar os anúncios do sabonete Eucalol tal e qual ouvia na rádio ficou extremamente aperreado por ter sido reprovado no teste para locutor de uma tevê local. “Ao me ver desesperado, o cara falou: ‘Tem vaga para ator, quer fazer?’ Era para me consolar, e eu fui.” Assim, por acaso e como lenitivo da mágoa, nasceu o ator que hoje é considerado um dos maiores do Brasil. Mais: ele é felomenal! José Wilker de Almeida, que aboliu o último sobrenome, faz tanto sucesso como Giovanni Improtta na novela Senhora do destino, da Rede Globo, que pode até alterar os rumos do folhetim. “Inicialmente, a Maria do Carmo (Suzana Vieira) terminaria com Dirceu de Castro (José Mayer), mas eu não esperava que a obsessão dele (Giovanni) por ela fosse tão longe. Ficou difícil para mim. Vamos gravar duas cenas de casamento e escolher com quem ela vai terminar no último capítulo”, garante o autor Aguinaldo Silva. E pode ser que Giovanni sobreviva ao término da trama, com um programa só para ele. “Surgiram consultas extraoficiais. O seriado teria o núcleo dele, a família e as pessoas que o rodeiam, como o Madruga. Mas só vou pensar nisso depois”, diz Silva. “Acho legal, engraçado. Mas seria para o ano que vem, segundo me disseram”, completa Wilker.

A maior prova de que seus bordões estão na boca do povo, veio no Carnaval: “Fui desfilar no sambódromo e fiquei 15 minutos ouvindo as pessoas gritarem ‘É fe-lo-me-nal!’”, conta. Em sua bela casa no Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, ao lado do cachorro maltês chamado Cão, e de Belmira, a gata siamesa, o ator dá uma doce descrição de Giovanni. “A primeira marca dele é ser romântico. A segunda é ter um extraordinário senso de humor”, aposta. Nas ruas, Wilker colhe dicas. “Outro dia, um cara sugeriu falar da ‘lady smurf’ ou ‘lei de smurf’. Demorei a entender que era lei de Murphy. Adorei e já usei na novela.” Esse carisma todo pode passar a imagem de que bicheiro é legal? Wilker responde com voz bonita e pausada: “Isso talvez ocorra na cabeça de intelectual que consegue enxergar cabelo em ovo.”


Para ele, “Aguinaldo está muito mais para denunciar a ineficiência do esquema policial deste país do que para elogiar a figura do marginal.” A deputada Denise Frossard (PPS/RJ), que era juíza em 1993 e condenou à prisão a cúpula do jogo do bicho carioca, se permite uma brincadeira sobre o tema. “Veja só: o talento do Wilker é tão grande que até eu me apaixonei pelo Giovanni Improtta.” A sério, ela lembra que os papéis são inconciliáveis. “Corre o risco de as pessoas pensarem que o jogo do bicho é uma atividade inocente, quando, na verdade, é um véu para encobrir atividades criminosas pelas quais eles foram condenados.” O deputado federal Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), que pediu ao Ministério Público para investigar as homenagens feitas no Carnaval pelas escolas de samba Salgueiro e Mocidade Independente de Padre Miguel aos contraventores Miro e Maninho (já falecidos) e César Andrade (foragido), tem opinião parecida.

Esses debates submetem o ator a uma lógica repetitiva: de novo, Wilker rouba a cena. Mas nem sempre foi assim. “Meu primeiro trabalho em tevê foi tomar um soco na cara num seriado chamado O gavião. Depois fiz pontas em programas.” Natural que o jovem iniciante procurasse, então, outras praias. Ele se mudou para o Rio e foi viver de teatro, participando de peças como O arquiteto e o imperador da Assíria e Ensaio selvagem. Tentou montar Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, mas só houve um espetáculo. “Fomos proibidos pela Bárbara Heliodora, que era presidente do Serviço Nacional do Teatro e achou que aquilo era subversivo.”

Um fato perpassa todas essas etapas de vida de Wilker, 58 anos: a participação em movimentos da chamada esquerda. Essa particularidade quase levou Aguinaldo Silva, que já trabalhou com o ator em sucessos como

Roque Santeiro

e

Fera ferida

, a um equívoco. “No início, o Wilker seria o jornalista Dirceu e o Mayer seria o Giovanni. Foi o Wolf Maia (diretor da novela) que me sugeriu a troca”, revela o autor. Mas Wilker também tem em seu passado experiências ao estilo Giovanni. “Eu e o Stephan Nercessian descobrimos, no início da carreira na Globo, que receber muitas cartas dava o maior ibope lá dentro. Então, passamos a mandar pilhas de cartas para nós mesmos.” Mais do que ficar famoso, ele ganhou muitos amigos na emissora. Como Miguel Falabella, que o define como “grande ator, companheiro solidário, engraçado, inteligente”. E o ano que começou com Giovanni será encerrado com a realização de um sonho. Depois de atuações memoráveis como o Vadinho de

Dona Flor e seus dois maridos

e o Lorde Cigano de

Bye bye Brasil

, Wilker será Lampião no filme

Os desvalidos

, de Francisco Ramalho.