Cultura

O jongo resiste

Ritmo africano mantém-se vivo em favela carioca e conquista jovens de classe média

O jongo resiste

ORGULHO Suellen Tavares rodopia com sua saia de chita colorida: ?Perguntavam se a dança era macumba? (DIVULGAÇÃO)

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A tarde ensolarada de quarta-feira parece ainda mais alegre com o alarido das crianças e dos adolescentes que sobem as vielas íngremes do Morro da Serrinha, em Madureira, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. São 42 meninos e meninas a caminho de mais uma aula de dança. O som que os faz mover o corpo não é o hip-hop ou o funk, cuja batida anima as noites de sexta e sábado em clubes do lugar. É o jongo, ritmo ancestral trazido para o Brasil pelos escravos e que deu origem ao samba. A garotada faz parte do grupo Jongo da Serrinha, nascido para preservar essa manifestação cultural e que tem como matriarca a simpática Tia Maria, 77 anos. Ao todo, cerca de 120 jovens recebem diariamente aulas de cultura brasileira e são responsáveis por quebrar um triste clichê carioca. Enquanto as outras favelas são conhecidas como territórios dominados pelo tráfico de drogas, a Serrinha ficou famosa por suas rodas de jongo e pela resistência cultural. O grupo – que ajudou a fazer do ritmo um dos seis primeiros patrimônios históricos imateriais do Brasil – tem intensa agenda de shows, inclusive no Exterior, e lançou um CD. Agora, chega às lojas o DVD, pela Rob Digital.

Nos dias de canto e dança, a vestimenta, inspirada naquela dos antigos escravos, contrasta com o caos contemporâneo do cenário atual, formado pelo amontoado de barracos e antenas de tevê. Formada a roda, o burburinho dos jovens cessa quando a cantora Luiza Marmello levanta a voz firme para entoar a primeira cantiga: “Ah, eu fui no mato/ Eu fui cortar cipó/ Eu vi o bicho/ Esse bicho era caxinguelê (espécie de roedor).” Daí para a frente, começa a batida dos tambores e as crianças e os adolescentes repetem alegremente a dança de seus antepassados. “Eu me sinto orgulhosa”, diz Suellen Tavares, 18 anos. “Nos outros morros também tinha rodas como essa, mas agora a gente vai procurar a cultura deles e não encontra.” Suellen também gosta do samba e do funk, mas o jongo é sua paixão. No começo, enfrentou o estranhamento dos colegas de sua idade que moravam em outros lugares. “Perguntavam se aquela dança era macumba. Agora já estão começando a entender.”

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A caçula do grupo é Cailany Simões, quatro anos, empenhada em aprender os primeiros passos. Essa renovação é observada com satisfação por Tia Maria. “No meu tempo, as crianças não podiam dançar, só olhar.” O jongo é, para ela, herança familiar transmitida pelos pais, que foram escravos. O grupo atual foi criado pelo falecido Mestre Darcy em 1984. Também conhecido como caxambu, o ritmo veio da África com os negros bantos trazidos para as fazendas de café do Vale do Paraíba. Oriundo da época dos africanos oprimidos, o jongo chega aos nossos dias sob o interesse da juventude de classe média, que aprende os passos em shows na Lapa e outros locais. “Fazemos oficinas em vários lugares”, diz Lazir Sinval, professora da dança. “Mas queremos sempre manter a sede aqui, no Morro da Serrinha.” A regra número 1 da resistência cultural é não perder a referência.