2022: alternativa ou contaminação

O sujeito determinado a apoiar o governo de forma irredutível jamais dará o braço a torcer, mas dificilmente adotaria a mesma postura de rechaço à divulgação das conversas entre o ministro Sergio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol se eles fossem sumidades petistas.

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Para além de exercícios hipotéticos, contudo, basta um nome para explicar de maneira objetiva a recusa de tantos em admitir que, sim, o comportamento de Moro e Dallagnol ofendeu o princípio do estado democrático de direito: Glenn Greenwald. Arrisco dizer que a inegável militância do renomado jornalista faria sobrancelhas se erguerem mesmo em sociedades pacificadas. Nada mais natural, então, que isso aconteça no Brasil, onde a polarização tem ditado o tom das relações.

O envenenamento da percepção pública a respeito da troca de mensagens é sintomático. A credibilidade dos fatos está sendo questionada a partir de um ponto de vista ideológico. E no momento é a esquerda quem paga essa conta por causa da repulsa generalizada ao petismo. Trata-se de um sentimento facilmente percebido nas eleições e que não tem motivo para arrefecer tão cedo. Até porque o trauma provocado pelos governos do PT é alimentado ainda hoje pela postura do partido — estrategicamente acertada, pois permite à legenda conservar o seu feudo, ainda que ao custo do reforço da dicotomia. Assim, ou bem a oposição busca alternativas que não contaminem seus argumentos ou, a menos que a economia patine, não terá chances de sucesso nos próximos pleitos.

E não adiantará jogar luz sobre as ignóbeis pautas que Bolsonaro e seu governo são capazes de defender, o despreparo dos ministros e o mal que suas condutas infligem à imagem do País. Sempre será possível argumentar que a esquerda teve a chance de governar por quase duas décadas e que nunca houve um esquema de corrupção tão perverso — com o objetivo claro, não só de enriquecimento privado, mas de aparelhar o estado e sequestrar a democracia para perpetuar um projeto de poder. Todos argumentos legítimos, diga-se.

Para além do Partido dos Trabalhadores e das vozes radicais é preciso ver se os setores moderados do campo progressista serão capazes de fazer valer seus posicionamentos. Afinal, não se trata apenas de uma disputa pela oportunidade de empunhar a caneta. Quem ganha com a pluralidade de ideias e, acima de tudo, com propostas avessas aos extremismos, é a própria democracia.

A democracia ganha com ideias avessas aos extremismos. Resta saber se os moderados progressistas vão fazer valer seus posicionamentos nesse ambiente envenenado

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