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2 anos após auge, movimento antissistema italiano vive crise

SÃO PAULO, 27 JAN (ANSA) – Há quase dois anos de sua maior vitória, o partido antissistema italiano Movimento 5 Estrelas (M5S) amargou duras derrotas nas eleições regionais na Calábria e na Emilia-Romagna no último domingo (26) e viu aumentar uma crise de identidade que joga dúvidas sobre seu futuro.   

Em 3 de março de 2018, com menos de 10 anos de existência, o M5S havia furado a polarização esquerda-direita e alcançado 32% dos votos, tornando-se o primeiro partido antissistema a vencer eleições nacionais em uma das grandes democracias do Ocidente.   

Passados dois anos, no entanto, o movimento enfrenta uma fuga de eleitores que se confirmou na Emilia-Romagna e na Calábria. Na primeira, o candidato do M5S, Simone Benini, teve apenas 3,5% dos votos; na segunda, Francesco Aiello não passou de 7,3%.   

O resultados da Emilia-Romagna é particularmente doloroso para o movimento porque foi nessa região, em maio de 2012, onde ele elegeu seu primeiro prefeito de uma capital de província, em Parma, com Federico Pizzarotti, que seria expulso da legenda anos mais tarde.   

Mas a Calábria também impôs ao M5S uma derrota de difícil digestão: há pouco menos de dois anos, o partido obtivera 43,4% dos votos nas eleições legislativas na região, confirmando então sua força no sul da Itália.   

“O Movimento 5 Estrelas deve fazer uma reflexão”, reconheceu a prefeita de Roma, Virginia Raggi, que simbolizara a ascensão da legenda ao conquistar a capital do país, em 2016. Outra liderança do M5S, Chiara Appendino, prefeita de Turim, disse que o partido “não tem mais confiança em si mesmo”.   

“O M5S precisa se compactar e recomeçar dos temas que nos unem: trabalho, inovação, meio ambiente, bem-estar social”, acrescentou.   

Crise de identidade – A crise no Movimento 5 Estrelas (M5S), curiosamente, teve início no auge de sua história. Em 1º de junho de 2018, o partido assumiu o governo da Itália em uma coalizão com a legenda de extrema direita Liga.   

Com o jurista Giuseppe Conte como primeiro-ministro, Luigi Di Maio (M5S) e Matteo Salvini (Liga) dividiram o cargo de vice-premier, mas o segundo, com sua política antimigrantes, logo virou o principal rosto do governo.   

A supremacia de Salvini e a aliança com a ultradireita afastaram aqueles eleitores progressistas que viam no M5S o surgimento de uma nova esquerda e provocaram questionamentos internos, além de algumas cisões – o senador e ex-oficial da Capitania dos Portos Gregorio De Falco, herói nacional por sua atuação no naufrágio do navio Costa Concordia, foi expulso do partido por votar contra as políticas migratórias de Salvini.   

Em agosto de 2019, a Liga rompeu a coalizão para tentar forçar a convocação de eleições antecipadas, mas o M5S deu uma guinada até então inesperada e se aliou a seu maior inimigo até então, o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda.   

A nova coligação afastou parte daqueles eleitores que haviam se aproximado do movimento por causa de seu discurso antissistema e que preferiam a parceria com Salvini. Desde o fim do ano passado, cerca de 10 parlamentares já saíram ou foram expulsos do M5S.   

O partido ainda tem a maior bancada no Parlamento, mas os resultados frustrantes nas eleições regionais indicam sua desidratação. As últimas pesquisas colocam o M5S com cerca de 15% das intenções de voto em âmbito nacional, atrás do PD (19%) e da Liga (32%).   

A crise fez o chanceler Luigi Di Maio renunciar ao cargo de líder político do movimento, que fará um congresso em março para discutir seu futuro. “O M5S nasceu no momento em que o bipartidarismo havia fracassado e trouxe um sopro de ar fresco.   

Nossa tarefa é recomeçar de novo”, disse nesta segunda-feira (27) o senador Vito Crimi, “regente” do partido. (ANSA)