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Flamengo e Vasco

O ódio entre as duas maiores torcidas do Rio nasceu de uma fraude eleitoral. Assim como no Irã

Lula nem sempre é compreendido. Suas metáforas futebolísticas são tão complexas e exigem um grau de conhecimento tão elaborado que, às vezes, só ele mesmo entende. Na semana passada, por exemplo, comparou os conflitos no Irã após a aparente fraude em favor do presidente Mahmoud Ahmadinejad a uma briga de torcedores do Flamengo e do Vasco.

Uma declaração, à primeira vista, ultrajante, pois o que está acontecendo no Irã é um dos mais belos e extraordinários levantes populares das últimas décadas. Algo como a Queda do Muro de Berlim, a Primavera de Praga ou a rebeldia dos jovens franceses em Maio de 1968. Para um presidente com a popularidade e o passado de Lula, não fica lá muito bem empenhar seu aval a um fanático, como é o caso de Ahmadinejad, e não ao povo iraniano.

Mas as declarações de Lula têm que ser interpretadas com mais cautela. Por que o presidente escolheu Flamengo e Vasco e não outros clássicos regionais como Corinthians e Palmeiras, Inter e Grêmio ou Cruzeiro e Atlético? Porque há apenas num caso, em toda a história do futebol mundial, em que a rivalidade se transformou em ódio após uma fraude eleitoral. Antes mesmo que os dois times de futebol mais populares do Rio de Janeiro existissem, seus atletas já se atracavam em brigas homéricas após as competições de remo – Flamengo e Vasco, afinal, eram clubes de regatas.

Mas em 1927, o Jornal do Brasil decidiu colocar a disputa à prova numa eleição popular. A Taça Salutaris seria entregue ao "time mais querido do Brasil". Venceria quem levasse mais cupons da água mineral Salutaris, indicando o nome do seu time. Os comerciantes portugueses, vascaínos, tinham tudo para vencer. Mas os flamenguistas se mobilizaram, adotaram sotaques lusitanos e lotaram as padarias do Rio com escudos do Vasco na lapela. Quando chegaram à sede do jornal, jogaram os votos falsos nas privadas do prédio e entregaram apenas os do time rubro-negro. Um engenhoso golpe eleitoral.

Consta que, no Irã, um país onde as urnas não são eletrônicas, 40 milhões de votos foram contados manualmente em cerca de duas horas. Algumas seções eleitorais tiveram o comparecimento de 150% – !!! – dos eleitores. Natural, portanto, a revolta dos derrotados. E o próprio Ahmadinejad já havia dito que os protestos eram coisa de torcedores frustrados. Lula, portanto, repetiu a fala de um maluco e deixou no ar uma dúvida intrigante: ele tem ou não simpatia por regimes de força? Na verdade, o presidente brasileiro apenas entende mais de futebol do que qualquer outra pessoa no mundo. Tomara que seja isso, pois não é bom imaginar que Lula, chefe de todas as torcidas organizadas do País, tenha uma queda por ditadores.


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