1956: O ano que inventou um novo Brasil

1956: O ano que inventou um novo Brasil

"PrincipalHá 70 anos, país vivia um dos momentos mais efervescentes da sua história. Chegada de JK ao poder impulsionou para o exterior a imagem de uma terra jovem e arrojada – mas a que custo?O mês de janeiro de 1956 terminou com a promessa de um Brasil pacificado. O novo escolhido pelas urnas da nação havia passado por maus bocados, mas agora desfilava em paz, naquele 31 de janeiro, num rolls-royce que atravessava o Rio de Janeiro para receber a faixa presidencial num Catete em festa.

Aos 53 anos, Juscelino Kubitschek, o novo comandante da nação, ainda exalava o frescor da juventude. E dava início, ao lado do vice João Goulart, a uma era que levaria o Brasil a um novo patamar internacional.

Poucos meses antes, já eleito, o ex-governador de Minas tinha sido alvo de uma tentativa de golpe de outro conterrâneo, o então presidente da Câmara, Carlos Luz. Mas o legalismo do Exército brasileiro, sob a batuta do general Henrique Teixeira Lott, prevaleceu.

Naquele 31 de janeiro de 1956, não era só o herdeiro político do até então onipresente Getúlio Vargas que chegava ao poder. Era alguém que respirava os ares da efervescência cultural que pululava nos grandes centros urbanos do país.

A Bossa Nova ensaiava seus primeiros acordes com Johnny Alf. A literatura era virada do avesso com o manifesto concretista dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e com invencionices do Grande Sertão: Veredas e do Corpo de Baile de Guimarães Rosa – todos de 1956. O Cinema Novo já estava de pé com Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos. E o modernismo de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa daria à luz, a pedido de JK, uma capital federal no formato de um avião em meio ao Planalto Central. Tudo parecia conspirar a favor.

Politicamente, a mudança principal daquele período iniciado há 70 anos era a estabilidade democrática – que abria caminhos para um novo modelo de país, o Plano de Metas, sob o slogan: "50 anos em 5". Abertura ao capital externo, substituição de ferrovias por estradas, ocupação do interior do país. E um rosto simpático e conciliador.

Foi um divisor de águas, diz Marleine Cohen, jornalista e autora da biografia Juscelino Kubitschek: O Presidente Bossa-Nova. "É o Brasil arcaico, agrário, subdesenvolvido, que vai entrar, aos poucos, na modernidade. Deixa de ser um país sem luz, sem indústria, sem estrada, sem comércio exterior, para realmente começar a se impor no cenário interior", ressalta Cohen.

A ruptura, porém, não era total, acrescenta Isabel Lustosa, historiadora e cientista política do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. "Era uma democracia – que respeitava os interesses privados, a liberação da imprensa total e, ao mesmo tempo, tinha um projeto de Brasil que vinha tentando construir", afirma a historiadora.

As novas ideias tinham como base o desenvolvimentismo pregado pelo economista Celso Furtado, iniciado por Getúlio no Estado Novo e depois, quando o Vargas retornou ao poder eleito democraticamente, em 1951 – até tirar a própria vida, em 1954, em meio a uma conspiração que buscava demovê-lo da presidência. Já existiam, por exemplo, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN, de 1941) e a Petrobras (1953), ambas criadas na Era Vargas.

Mudança na imagem internacional

O Estado Novo já havia jogado com a ideia de criar um país palatável para o exterior. A aproximação do Brasil junto aos aliados na Segunda Guerra havia trazido Walt Disney e levado Carmen Miranda para os Estados Unidos. O fim do conflito e o início da Guerra Fria levara o governo Dutra (1946-1951) a uma abertura comercial, como o modo de vida americano substituindo a cultura francesa como principal referência estrangeira.

É nesse caldo que surge Juscelino, um médico de origem simples de Diamantina (MG), que havia estudado na França nos anos 1930 e absorvera esses dois mundos.

"É uma imagem que vinha sendo trabalhada já com Vargas e que aqui assume um negócio muito mais arejado, mais jovial", destaca a historiadora Isabel Lustosa. "As imagens da posse do Juscelino e do Jango são de duas pessoas jovens, sorridentes. Dava uma leveza que superava a dureza do governo Vargas", descreve a autora do livro Histórias de Presidentes.

A chegada do novo mandatário virou capa da revista Time. A reportagem, sob o título The Man From Minas, traduzia o Brasil como "um país do futuro, vindo de um passado que mesclava boas intenções e técnicas ruins, com um presente turvo e incerto". Contava também que, já na posse, JK dera fim à censura de imprensa, antecipara o fim do estado de sítio ainda vigente e mandara abrir as portas do Catete para a multidão saudá-lo.

"No dia seguinte, Kubitschek se reuniu com o vice-presidente Richard Nixon e o secretário de Estado adjunto Henry Holland para discutir a ajuda dos EUA para o Brasil impulsionar sua economia e lidar com os esforços de penetração comunista", completava a matéria, arrematando com a frase do secretário americano: "Sem dúvida, este parece ser o melhor governo com que o Brasil já teve para lidar com isso".

Corrida por Brasília

Durante os anos JK, houve expansão da Ford, instalação de fábricas de Volkswagen e Mercedes-Benz (Alemanha), Toyota (Japão), Simca (França), início da construção da Hidrelétrica de Furnas e a conclusão de Brasília. Ao mesmo tempo, o governante reforçava sua presença midiática, recebendo artistas e estreitando a relação com personalidades como Tom Jobim e Pelé.

O "presidente Bossa Nova", no entanto, precisa correr contra o tempo para finalizar a nova capital, já que não havia reeleição no país. "Ele começou a emitir títulos da dívida pública, cartas precatórias e vendia esses papéis com deságio para levantar dinheiro", pontua a jornalista Marleine Cohen. Quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) exigiu um ajuste fiscal para liberar mais empréstimos, Juscelino rompeu com a entidade. E foi em frente com o projeto de Brasília. O custo da capital atingiu US$ 1,5 bilhão.

Mesmo inaugurando a nova cidade no Planalto Central, Juscelino terminou o governo, em 1961, com uma bomba-relógio nas mãos. Segundo a biógrafa, a dívida externa quase triplicou entre 1955 e 1959; e a inflação passou de 19,2% para 30,9% ao ano entre 1956 e 1960. Enquanto isso, os salários se mantinham baixos, com uma valorização de apenas 15% durante a Era JK.

"Isso praticamente inviabilizou os governos seguintes", pontua Cohen, citando o sucessor Jânio Quadros – que assumiu em 1961 e renunciou seis meses depois – e o próprio João Goulart, que foi deposto pelo golpe em 1964.

Politicamente, ao priorizar a conciliação, Juscelino anistiou militares, como o brigadeiro Burnier, que haviam tentado derrubá-lo e que poucos anos depois agiriam na deposição de João Goulart. E ignorou o golpismo da oposição, liderada pela UDN, partido de Carlos Lacerda, que conspiravam com a caserna. "O desenvolvimentismo era um projeto de pessoas democráticas, que não tinham a força das armas, nem o apoio de superpotências para seguir adiante", destaca Isabel Lustosa.

Legado

Uma das primeiras medidas da ditadura militar foi retirar Juscelino Kubitschek do jogo político. O ex-presidente foi cassado logo em junho de 1964 e se exilou no exterior. Em 1967, retornou para a Frente Ampla, combatendo o regime ao lado de João Goulart e do ex-inimigo Carlos Lacerda. Em 1976, a trajetória do mineiro teve um fim trágico, num acidente com um ônibus na Rodovia Presidente Dutra – em circunstâncias obscuras que levaram o governo Lula, em 2025, a retomar investigações para apurar indícios de um atentado.

Mesmo assim, para além dos feitos concretos, como Brasília, características desenvolvidas nos anos JK seguem presentes. "O Brasil diversificou muito suas parcerias e hoje é um grande exportador. Isso se manteve, sem dúvida", diz Marleine Cohen. "No entanto, ainda temos muita desigualdade. Foi um ponto que foi negligenciado pelo JK. Ele foi brilhante ao investir no Brasil, mas pecou muito ao esquecer o brasileiro", diz a biógrafa.

Para Isabel Lustosa, se ainda estivesse vivo, aquele Juscelino não teria a mesma facilidade de se impor no cenário eleitoral. "Se você é um moderado hoje, você não empolga as multidões, porque do outro lado tem um discurso de uma extrema direita furiosa, que pega pelo emocional o tempo todo – e o impacto da internet sobre esse mundo é algo avassalador", diz ela, que vê o ex-presidente num campo que hoje seria o da centro-direita.

"Ele teria o papel de um político simpático, inteligente, articulador, mas que não teria muita chance", define a historiadora.