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Um legítimo japonês da Mooca

O designer Ricardo Ohtake, diretor-geral do Instituto Tomie Ohtake, enxerga como poucos os encantos dos contrastes da capital paulista

Um legítimo japonês da Mooca

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"É o melhor espaço multidisciplinar de cultura
da cidade, além de muito democrático"

Centro Cultural São Paulo – R. Vergueiro, 1.000 Central de informações:Telefone: (11) 3397-4002
2ª a 6ª, das 10h às 22hSábado, das 10h às 21hDomingos e feriados, das 10h às 20h

Ricardo Ohtake tem rosto, pele, cor e aparência de japonês. Criado no bairro da Mooca, o designer gráfico, 68 anos, porém, tem tanta intimidade com sushis e sashimis quanto com nhoques e capeletes. Não por acaso, seu sobrenome ganhou dos amigos de adolescência uma corruptela com sotaque italiano: Ottacchi. Ohtake foi muito além dos limites da zona leste quando explicou o amor que sente por São Paulo para esta reportagem, que chegou com uma lista pronta de dez lugares absolutamente distintos entre si para indicar, por exemplo, a qualquer estrangeiro que ele ciceroneie na capital paulista.

Nenhum deles na Mooca, aliás. Diretor-geral do Instituto Tomie Ohtake, o designer é o principal responsável pelo endosso, coordenação e manutenção de uma década de exposições nos andares inferiores do complexo empresarial localizado em Pinheiros, bairro da zona oeste, projetado pelo irmão mais velho, Ruy. Tomie, a matriarca de 98 anos, também é reverenciada pelo filho em eventuais vernissages de seus trabalhos. O instituto, evidentemente, entrou no rol de seu roteiro imperdível, passeio que já é simpático para, por exemplo, 70 mil pessoas que conferiram a megaexposição sobre a artista plástica francesa Louise Bourgeois, entre julho e agosto de 2011.

Modesto, Ohtake citou a instituição que dirige, porém, em décimo lugar. A primeira indicação foi o Parque da Luz. “É fundamental. É o local público mais antigo da cidade, de 1798. Passou por muitas etapas de modificação e, de certa forma, foi se adaptando às novas condições de São Paulo. E não é perigoso como dizem. Essa imagem ficou no passado, há uns 11 anos”, afirma. “Foi feito um restauro, recuperou-se
o projeto de 1917. É como se fosse uma vida campestre no miolo da cidade.

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"É o local público mais antigo da cidade, de 1798.
É como se fosse uma vida campestre no miolo da cidade"

Parque da Luz – Praça da Luz, s/nº, Bom Retiro 3ª a domingo, das 10h às 18h

E está encostado à Pinacoteca, à Sala São Paulo, ao Arquivo Municipal, ao Museu do Patrimônio Histórico, à Estação da Luz e ao Bom Retiro – isso para quem quiser fazer compras.”

O Centro Cultural São Paulo é outra paixão de Ohtake, lugar onde foi, inclusive, diretor nos anos 80. “É o melhor espaço multidisciplinar de cultura da cidade, além de muito democrático”, diz ele, orgulhoso porque os diretores subsequentes sempre o consultam sobre o projeto. Por falar em grandes obras públicas, ou parcialmente gratuitas, ele também aponta como prioridades a marquise e o auditório do Parque Ibirapuera. “Queria salientar a marquise. Acho sensacional porque é uma cobertura sem função e, mesmo assim, atrai todo mundo: para passear, para quem vai de um lugar para outro, para quem fica à toa, além dos skatistas e jogadores de futebol amador.”

O auditório tem valor sentimental para o designer. Sua mãe tem uma gigantesca obra de fibra de vidro no interior do prédio, trabalho que provocou a modificação do projeto original de Oscar Niemeyer, segundo o caçula de Tomie Ohtake.

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"Sabe quantas pessoas vão lá? Duzentas mil no fim de
semana! Sabe o tamanho? Equivale a dez Ibirapueras!"

Parque Ecológico do Tietê – Rua Guirá Acangatara, 70, Engenheiro Goulart
Telefone: (11) 2958-1477 2ª a domingo, das 8h às 17h

“A rampa mudou de posição depois que o Niemeyer viu o trabalho de mamãe. Achou lindo. Antes seria central, terminou lateral”, diz. Além disso, ele destaca ser um dos melhores palcos e plateias da cidade, com espaço adequado entre as poltronas.

Ainda no terreno de edificações, Ohtake admira o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade de São Paulo (USP), onde se formou em 1968, e o Conjunto Nacional. “Eu mesmo já trabalhei nesse último e foi um dos melhores lugares onde dei expediente, pela facilidade de serviços ao seu redor.” Entre os passeios mais inusitados – ou distantes do centro –, ele indica o Parque Ecológico do Tietê.

E já sai perguntando: “Você sabe onde fica?
Sabe quantas pessoas vão lá? Duzentas mil no fim de semana! E sabe o tamanho? Equivale a dez Ibirapueras!”, afirma. Na mesma linha, lembra Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, onde o irmão, Ruy, desenvolve um projeto de reur­banização e inclusão social há oito anos.

“As escolas e as novas moradias estão transformando a comunidade. Trata-se de uma nova condição de vida. Acho uma experiência interessante. Acabar com favela não é problema de dinheiro, é preciso ter vontade política”, acredita. “Heliópolis era violenta, mas tem uma boa liderança comunitária e o resultado é público.” Agora, o designer aguarda, a distância, o resultado das intervenções nas favelas cariocas.

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"A rampa mudou de posição depois que o Niemeyer viu o trabalho
de mamãe. Achou lindo. Antes seria central, terminou lateral"

Auditório Ibirapuera – Av. Pedro Alvares Cabral, s/nº, portão 2 Telefone: (11) 3629-1075
Horário de funcionamento da bilheteria: 3ª e 4ª, das 9h às 18h 6ª
e sábado, das 9h às 21h domingo, das 9h às 18h

E também elege como passeio imperdível o Expresso Tiradentes, o antigo Fura-Fila. “Acho prático e não enfeiou a cidade. Passear por ele dá uma boa geral de trechos históricos. É uma linha amarela que tem a altura e a distância entre os pontos na medida certa.” Outro prazer é circular por restaurantes. Lista como preferidos o D.O.M., Piselli, Due Cuochi, Maní e o Ritz – “mas o do Itaim”.

E qual seria a opinião de um filho de japoneses sobre as casas que vendem comida típica do arquipélago? “Uma vez, levei um amigo japonês ao Jun Sakamoto e ele chegou a dizer que era um dos melhores do mundo fora do Japão”, afirma. Como se vê, Ohtake é um grande apaixonado pela cidade que acolheu sua mãe, quando veio de Tóquio, na década de 1930. Mas há uma vírgula nisso tudo.

“Faltam grandes museus em São Paulo.” Um apaixonado mesmo.