Brasil

Solução tardia

Demora do governo brasileiro para enfrentar a imigração ilegal de haitianos resulta no fechamento emergencial da fronteira. Mas o problema está muito longe de acabar

Solução tardia

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ILEGAIS
Desabrigados haitianos em Brasileia (Acre) e reportagem
de ISTOÉ de março de 2011: tragédia anunciada

Dois anos após o terremoto que matou 225 mil pessoas e deixou 2,3 milhões de desabrigados, o Haiti voltou ao noticiário. Como quase sempre, pelos motivos errados. A onda de imigração ilegal de haitianos levou o governo brasileiro a impor, na semana passada, uma série de ações emergenciais. Entre elas, a exigência de visto de trabalho para os haitianos, o que na prática correspondeu ao fechamento da fronteira. As medidas foram tomadas tardiamente. A crise humanitária deflagrada no Acre pela presença de milhares de haitianos vivendo em condições precárias é um caso típico de tragédia anunciada. Desde o início de 2011, as autoridades sabiam da chegada dos desabrigados e da atuação criminosa de atravessadores. Em reportagem publicada em março de 2011, ISTOÉ revelou que os coiotes cobravam até R$ 6 mil para trazer cada haitiano. A Polícia Federal já estava investigando o caso e, com base em depoimentos de agenciadores presos, conseguiu traçar as rotas utilizadas. A mais popular delas incluía a passagem por três países – República Dominicana, Equador e Peru – antes da entrada no Brasil. As cidades acrianas de Epitaciolândia e Brasileia tornaram-se os principais destinos. Segundo o chefe da Coordenação-Geral de Polícia de Imigração da PF, delegado Antonio Carlos Lessa, os esquemas mais bem organizados compreendem a colocação dos estrangeiros em subempregos, geralmente na cidade de São Paulo. “Eles são obrigados a trabalhar para pagar a viagem”, disse Lessa.

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À ESPERA DE AJUDA
Hospedagem improvisada para haitianos em Brasileia

Embora a PF tentasse fechar o cerco aos coiotes, acionando adidos policiais e a Interpol, não pôde fazer muito em relação aos haitianos. O Itamaraty pediu informalmente que prisões e deportações fossem evitadas. Temia-se que uma ação truculenta causasse mal-estar diplomático com o Haiti, país que virou vitrine da atuação internacional brasileira por conta da missão de paz da ONU, a Minustah. O Brasil já gastou na operação mais de R$ 1 bilhão e mantém in loco um contingente de 2,2 mil militares. A leniência da diplomacia foi um tiro no pé. Sem barreiras, o fluxo de haitianos aumentou vertiginosamente e o Ministério da Justiça chegou a contabilizar quatro mil ilegais. Mas esse número pode ser bem maior. A política de regularização, incentivada pela diplomacia, também serviu como estímulo aos imigrantes. Além da concessão de vistos, o governo agora debate uma forma de melhorar a assistência humanitária. A questão de fundo foi mais uma vez deixada de lado. O que atrai os haitianos não é o “sonho brasileiro”, mas a simples necessidade de sobrevivência, ante a fome, o desemprego e as doenças que assolam seu país. Os esforços para a reconstrução do Haiti, pelos quais o governo jacta-se frequentemente, não parecem ter sido suficientes.

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