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As formigas que destruíram uma ilha

Pequenas, vorazes, devastadoras. Eis como tais insetos causaram o colapso ambiental de um território australiano

As formigas que destruíram uma ilha

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PREDADORAS Apesar de medirem apenas 4 mm, elas devoram pássaros, plantas e crustáceos

Um estudo publicado na semana passada na revista australiana “Biology Letters” causou alarde na comunidade científica mundial. Coordenada pelo ecólogo Dennis O’Dowd, da universidade Monash, em Melbourne, a pesquisa revela que o ecossistema da pequena ilha Christmas, um território da Austrália próximo à Indonésia, entrou em colapso pela ação e voracidade de uma invasora bastante incomum que não tem mais que quatro milímetros de comprimento: a formiga-louca amarela (Anoplolepis gracilipes). Introduzido na ilha acidentalmente pelo homem nas primeiras décadas do século XX, esse inseto consome o néctar de plantas e frutas, além de atacar pássaros e crustáceos como o grande caranguejo-vermelho, espécie que migra para a região em sua temporada de acasalamento. A formiga-louca amarela não ganhou tal nome popular por acaso: ele surgiu graças aos seus movimentos erráticos. Detalhe: quando ataca suas presas, sempre o faz em “bando”. Estima-se que mais de 30% do solo das florestas tropicais da ilha Christmas já esteja tomado por supercolônias dessa espécie de formiga.

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Em um estudo anterior, os pesquisadores concluíram que cerca de 2,3 mil exemplares ocupam um metro quadrado de área. É um recorde mundial. “O impacto das formigas na biodiversidade local ramifica-se de forma extraordinária”, diz O’Dowd.

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PERIGO Caranguejosvermelhos chegam à ilha Christmas na temporada de acasalamento: presas fáceis

O novo estudo não levou em conta os ataques diretos das formigas, mas sim o seu efeito colateral em pássaros. Os pesquisadores implantaram pequenas frutas de argila nas árvores e constataram que aquelas situadas em áreas ainda não infestadas pelas formigas são duas vezes mais bicadas pelas aves. Ou seja: os pássaros já aprenderam que não vale a pena pousar em um local repleto de insetos – eles também correm o risco de virar refeição. Pior: as aves são as principais difusoras das sementes pela ilha e, quanto menor a sua circulação, menor será o número de novas árvores no futuro. A projeção é assustadora, já que os pássaros simplesmente abandonam o ecossistema e partem para áreas livres de formigas. Mais: os cientistas relatam em detalhes a tática usada pelo invasor no ataque a pequenos vertebrados e crustáceos. Como não possuem ferrões, os insetos borrifam ácido fórmico nos olhos das “vítimas” para cegá-las e depois devorá-las. “Invasões desse tipo são mais comuns do que imaginamos, mas é difícil testemunharmos efeitos tão drásticos”, diz Adriano Paglia, biólogo da Conservação Internacional no Brasil.

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“A conservação da ilha Christmas é um problema crônico. Planos de longa duração são fundamentais”
Peter Garrett, ministro australiano do Meio Ambiente

“O fenômeno é a principal causa de extinção de espécies em ilhas oceânicas, assim como ocorreu com o dodô (ave não-voadora extinta no final do século XVII nas Ilhas Maurício).” Quando se fala da Oceania, isolada durante milhares de anos, a situação fica ainda mais complexa, uma vez que diversas espécies introduzidas pelo homem tornaram-se pragas.

Há tempos os ambientalistas acompanham com temor a situação na ilha Christmas. Seu território de 135 quilômetros quadrados é habitado por aproximadamente 1,4 mil pessoas e casos de cegueira em crianças que entraram em contato com o ácido fórmico das formigas foram registrados. A primeira supercolônia desses insetos foi descoberta em 1989, mas o quadro se deteriorou a partir de 1996. Estimase que cerca de 30% da população original de caranguejos-vermelhos tenha sido dizimada.

“Tenho esperança de que veremos um futuro melhor para as espécies ameaçadas na ilha”, disse em comunicado oficial o ministro australiano do Meio Ambiente, Peter Garrett – exvocalista da banda Midnight Oil e hoje notório ativista ambiental. Ele anunciou que o governo de seu país planeja um novo ataque à praga. A única forma de se combater a formiga-louca amarela, no entanto, é com métodos agressivos como a borrifação de inseticida por via aérea. Dessa estratégia já se valeu no passado. Infelizmente sem sucesso.

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