Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

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OPÇÃO
O médico Neils Vollaard examina um voluntário
de sua pesquisa após ciclo de 20 segundos na bike

Um minuto de exercício intenso por dia, três vezes por semana, seria suficiente para prevenir o aparecimento da diabetes tipo 2, associada ao sedentarismo e à obesidade? Dito assim, fica difícil resistir. Foi para facilitar a adesão dos indivíduos que não conseguem achar tempo para a atividade física que o pesquisador Neils Vollaard, da Universidade de Bath, na Inglaterra, uniu-se a cientistas de outras escolas para desenhar um programa singular e muito rápido de exercícios orientado para a prevenção da enfermidade.

No modelo, a indicação é pedalar com intensidade em três arrancadas de 20 segundos cada uma por dia. A prática deve ser repetida semanalmente, três vezes. “Isto é suficiente para reduzir os níveis de glicose no sangue e melhorar a função da insulina (hormônio que leva o açúcar para dentro das células), o que é importante para a prevenção da doença”, disse Vollaard à ISTOÉ. Na verdade, além do período de exercício intenso, cada sessão envolve alguns minutos de aquecimento e, ao final, movimentos de alongamento. Mas ainda assim o programa de Vollaard não toma mais de dez minutos por dia e, no total, 30 por semana.

Para chegar a essa conclusão, Vollaard submeteu 15 voluntários saudáveis a três sessões breves de exercícios por seis semanas. Na primeira fase, as arrancadas foram de dez segundos, subindo para 15 segundos na segunda e terceira semanas até chegar a 20 segundos nas três derradeiras. Em todas essas situações, o batimento cardíaco dos voluntários foi controlado para não superar 90% da frequência cardíaca máxima de cada um. “Um programa de exercícios com a inclusão de arrancadas breves e de ritmo intenso permite reduzir substancialmente o tempo e esforço necessários para alcançar benefícios de saúde”, disse Vollaard. “Mas isso é completamente novo e por enquanto só foi feito em laboratório.” O trabalho foi publicado na última edição da revista científica Journal of Applied Physiology.

Atualmente, a orientação repetida aos pacientes em risco de diabetes ou acometidos pela doença é reservar 150 minutos semanais para uma atividade física moderada, o que equivale a 30 minutos por dia, cinco vezes por semana. No entanto, um levantamento mencionado pelo pesquisador Vollaard indica que cerca de 66% do público-alvo não atinge essa recomendação. A justificativa mais frequente para a falha é a falta de tempo.

O endocrinologista Alfredo Halpern, de São Paulo, considera o novo modelo bastante interessante. “Mas sugiro que os pacientes façam uma avaliação coronariana antes de pedalar intensivamente. Se forem liberados pelo cardiologista, podem experimentar o método”, diz Halpern, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ele lembra que, para emagrecer, a carga de atividade deve ser maior. “É necessário pelo menos uma hora de atividade moderada, quatro vezes por semana.”

A explicação para os efeitos positivos do modelo estudado por Vollard é o maior gasto do glicogênio armazenado nos músculos durante os ciclos de arrancada. Glicogênio é um açúcar guardado no músculo, usado principalmente durante o exercício. Submetidas a um exercício rápido e intenso, as células musculares queimam seus estoques e precisam buscar mais açúcar do sangue para repor as reservas. Isso facilita também o trabalho da insulina, que é levar a glicose (a forma do açúcar no sangue) para dentro das células.

Pesquisadores da Universidade de Exeter descobriram mais uma aplicação surpreendentemente útil da atividade física rápida. O cientista inglês Adrian Taylor constatou que caminhadas de 15 minutos são eficientes para reduzir pela metade a quantidade de chocolate consumida por trabalhadores, mesmo em condições estressantes. O estudo avaliou 78 comedores regulares de chocolate. “A ação positiva da caminhada é reduzir manifestações do estresse, entre elas a tendência de comer doces e comidas altamente calóricas”, disse Taylor à ISTOÉ. Outros estudos recentes mostram também que a caminhada leve pode ter efeitos cumulativos, aumentando a proteção do organismo contra infecções respiratórias.  

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