Conhecedor dos estragos que a agitação política pode acarretar ao ambiente dos negócios, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco está surpreso diante da “calma estonteante dos mercados”. Mesmo sendo um tucano de carteira assinada, ele afirma que essa tranqüilidade é um claro sinal de que, com Lula, as condições de temperatura e pressão da economia melhoraram. A ISTOÉ, Franco fez um cruzamento entre os últimos fatos políticos e econômicos do País. Acompanhe:

ISTOÉ – A campanha ainda não agitou os mercados. É a paz antes da guerra?
Gustavo Franco –
A atual fase do mercado financeiro é um fenômeno curioso e importante: estamos em abril, na bica das convenções partidárias, eleição polarizada, o ministro da Fazenda caiu, CPIs indo até o fim, todo o tipo de fofoca, e o mercado exibe uma calma estonteante. A única explicação é que, para a opinião média, nada vai mudar para pior na economia.

ISTOÉ – Podem-se repetir as turbulências na economia que sofremos
nas eleições de 2002?
Franco –
Não acredito, e é ótimo pensar que, se o adversário do meu favorito Alckmin ganhar, não será o fim do mundo, vai ser vida que segue. Palmas
para a nossa recém-adquirida, porém já firmemente estabelecida, cultura de alternância no poder.

ISTOÉ – O que mudou em relação às últimas eleições presidenciais?
Franco –
A grande novidade, relacionada à mansidão dos mercados, é a convergência programática. Acabaram as veleidades revolucionárias, as possibilidades de ruptura. Em muitos temas, não há como fugir de consensos internacionais solidamente estabelecidos em toda parte, com as exceções irrelevantes de praxe (Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, etc.).

ISTOÉ – Com Lula a economia brasileira melhorou, piorou ou ficou nas
mesmas águas de quatro anos atrás?
Franco –
Melhorou. Seria tolo deixar de reconhecê-lo, como é tolo ver o presidente Lula alegar que a história do Brasil começou com ele e que tudo o que se fez antes dele estava errado, ou que tudo que ocorreu de bom em seu governo foi ele quem inventou. O ministro Palocci era um que, diferentemente do presidente, reconhecia os méritos daqueles que o antecederam. É difícil, porém, dizer que o governo do PT foi bom. O saldo entre o que Lula herdou de coisa boa em andamento e o que criou de coisa nova, mais o que consertou de coisas erradas e o que introduziu em matéria de “novos erros” (expressão de Palocci), é um grande “mais ou menos”. O País andou, em muitas áreas, apesar do governo, ou independentemente dele. Acho, sim, que acabou o gás do governo. Um segundo mandato será provavelmente pior, em razão do desgaste do presidente, das baixas em sua equipe e da ausência de visão para o futuro. O sonho petista acabou.

ISTOÉ – O mercado dá sinais de bom humor com Guido Mantega na Fazenda.
O sr. imagina por quê?
Franco –
Após a notícia ruim e surpreendente da saída de Palocci, o mercado passou, com muita agilidade e frieza, ao próximo capítulo, que tinha a ver com a continuidade das políticas do próprio Palocci. Uma vez verificado que o espírito
da mudança era o de manter tudo do mesmo tamanho, e não sacudir o barco, acabou-se o problema.

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ISTOÉ – Então, Palocci já não deixa saudades?
Franco –
Acho que Palocci cumpriu um papel importantíssimo em “personalizar”
a transmutação petista. Acho que foi uma espécie de [Mikhail] Gorbatchóv para o PT, ao conduzir o governo Lula ao bom senso num momento de grande dúvida sobre o futuro. Não sei se seria um bom ministro da Fazenda em outras condições. O fato é que foi o homem certo, na hora certa.

ISTOÉ – O sr. acredita em queda do dólar também a longo prazo?
Franco –
Tal como ocorreu no período 1993–98, o câmbio cai em razão do excesso de oferta, e os poderes do BC para evitar a “sobrevalorização” são limitados. Lá, a abundância tinha muito a ver com entradas de capitais, mas hoje, diferentemente, tem a ver com o mega-hipersuperávit comercial. O real vai ficar forte, e ficar cada vez mais forte enquanto perdurar este superávit. Isso não é bom, mas, como se sabe, não é possível ficar com o dinheiro e com o almoço. O dólar só vai acordar quando
as importações começarem a subir para valer e o superávit diminuir.

ISTOÉ – O ministro Mantega considera-se um “desenvolvimentista” em oposição aos “monetaristas”. Essa nomenclatura é precisa?
Franco –
Não é precisa, tampouco relevante para prever como o apóstolo de uma ou outra escola vai se comportar. Desenvolvimentista todo mundo é. E monetarista o ministro Mantega vai descobrir que é, também, quando começar a tomar decisões relativas à saúde da moeda, como presidente do Conselho Monetário Nacional.

ISTOÉ – O sr. acredita numa paz duradoura entre Mantega e Henrique Meirelles?
Franco –
Acredito sim. Mantega é um sujeito afável que joga o jogo e trabalha em equipe. Não é de briga nem é de atuar “duramente”, exceto no mundo gasoso das frases de efeito, e de onde acho que vai se retirar. Talvez possa ter sido pouco comedido com as palavras no passado, mas são palavras ao vento.

ISTOÉ – Até aqui, algo chamou sua atenção na nova gestão da Fazenda?
Franco –
Em todo o processo, a novidade foi o que o presidente Lula fez ao chamar o presidente do Banco Central e colocá-lo em linha com o ministro da Fazenda, reportando-se direto a ele. Pouca gente notou que com isso o presidente explodiu a cadeia hierárquica que existia implicitamente no Conselho Monetário Nacional. Ficou mais fácil extinguir, ou limitar o CMN, e avançar na independência do BC. Curioso resultado de uma situação nova e interessante: a área econômica não tem um homem forte – e isso é bom!


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