Está aí a ilha de Nauru que não deixa ninguém mentir

O pequeno país tinha uma esplêndida mina de fosfato, uma espécie de pré-sal, mas acabou com tudo em um século

Em campanha para erradicar da agricultura brasileira uma praga chamada Código Florestal, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, anda por aí dizendo que a natureza no País já está muito bem protegida, protegida até demais. Somos, para ele, o povo mais ambientalista do mundo. Abraçar árvore é uma verdadeira mania nacional, o sintoma favorito de nosso pendor para os gestos extremos.

Como não fica bem imaginar que o ministro esteja brincando com os brasileiros, mas ele não diz aonde vai buscar inspiração para sua campanha, citando os modelos de liberalidade com que mede nosso desvio coletivo para a hipocondria cósmica, aqui vai uma sugestão à prova de erro: Nauru.


É um lugar pequeno. Ou melhor, uma ilha de 13 quilômetros quadrados, pouco maior que a fração de floresta amazônica derrubada este ano. Fica entre o Havaí e a Austrália. Chegou à independência há menos de 40 anos, depois de passar pelas mãos de administradores coloniais alemães, ingleses, neozelandeses, australianos e japoneses.

Mas, do alto de sua insignificância, ele tem chamado a atenção do planeta inteiro pela voracidade com que devorou quase totalmente seu território, uma esplêndida mina a céu aberto de fosfato no meio do Pacífico. Nauru já foi o paraíso natural do fertilizante agrícola.

E não só do fertilizante agrícola. Há poucas décadas, o fosfato garantia aos habitantes de Nauru uma renda per capita de 17.500 dólares. Parecia inexaurível, como o berço esplêndido onde está deitado um outro país notável pela exuberância equatorial de seu chão e seu clima. Guardadas as devidas proporções, era uma espécie de pré-sal. Só que dispensava a prospecção em águas profundas.

O problema é que aquilo tudo acabou em um século de extração voraz e sem limites. Nauru jaz atualmente sobre os pilares de coral que sustentavam a ilha. O solo foi todo embora, exportado como insumo para sustentar a agricultura alheia. Diz-se que seu último naco de paisagem aproveitável é um campo de golfe, que lhe restou como memorial dos tempos de riqueza. O resto é um paliteiro estéril, onde colunas de coral descascado afundam até 15 metros terra adentro.

A fartura de Nauru, enquanto durou, foi tão espetacular que mais da metade dos 10 mil nauruenses hoje tem diabetes, herdado da grande comilança que roeu as entranhas da ilha. Enquanto a farra do fosfato durou, isso não chegava a ser um problema social, porque o governo levava gratuitamente os doentes, de avião, para se tratar nos hospitais australianos.

Ninguém lá pagava imposto. E, para não dizerem que vivia só do fosfato, a economia nauruense teve uma fase de relativa importância regional, como lavanderia de dinheiro. Destruída pela imprevidência humana, a ilha agora pode ser salva pela desordem geral do clima. Está na lista dos lugares ameaçados de desaparecer, engolidos pelo oceano por conta do aquecimento global.

De uns anos para cá, tem sido valorizada como exemplo extremo do que não se pode impunemente fazer com os recursos naturais. Mas, se o ministro Stephanes quiser usá-los também como prova de que há povos muito mais descuidados que o brasileiro, os nauruenses serão os últimos a reclamar.

Marcos Sá Correa é jornalista e editor da revista Piauí






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