Cultura

Em casa com Graciliano

Biografia de Graciliano Ramos, assinada por seu filho, revela a face política do escritor que mandou multar o próprio pai

Em casa com Graciliano

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RADICAL
Graciliano (acima) não via valor na música nem na poesia, que achava uma arte menor

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Anos antes de se dedicar à literatura e escrever alguns dos maiores romances brasileiros, como “Vidas Secas” e “São Bernardo”, o escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953) foi prefeito em Palmeira dos Índios, cidade onde passou a juventude. Uma das primeiras medidas de sua administração foi banir das ruas cavalos, bois, porcos e cabras. Conseguiu isso ao custo de multas e da ameaça de leilão dos animais. Um belo dia, um funcionário chamado Muritiba, aplicador das infrações, chegou ressabiado ao seu gabinete. É que entre os que achavam que a praça pública era uma extensão de sua fazenda estava o pai de Graciliano, o senhor Sebastião. “Lavre a multa, prefeito não tem pai”, disse o futuro romancista. Essa passagem está contada no livro “Graciliano – Retrato Fragmentado” (Globo), escrito pelo seu filho Ricardo Ramos. A obra chega às livrarias em edição revista com novas fotos, apresentações e um estudo inédito.

Em um país onde a corrupção e o nepotismo sempre foram regra, Graciliano ensinava requisitos mínimos para a função pública. Como não separava a arte da política, mais tarde se filiou ao Partido Comunista e foi preso pela ditadura do Estado Novo. Essa fase de sua vida, descrita em “Memórias do Cárcere”, não poderia estar ausente do livro. O que fisga o leitor, no entanto, é o retrato detalhista, feito de impressões fragmentadas pelo filho Ricardo, ele também escritor e falecido em 1992, no mesmo dia e mês em que o pai morrera 39 anos antes: 20 de março. Salta aos olhos, por exemplo, o lado metódico do artista. Escreve Ricardo: “Madrugada ainda, pois se levantava antes das seis, a primeira tarefa era cuidar da mesa. Mais que limpa, a qualquer hora parecia envernizada. E posta em ordem: os dicionários à esquerda, as pastas e pilhas de folhas à direita, os lápis apontados, os maços de cigarro, o cinzeiro. Ao centro o que escrevia.”

Graciliano tinha aversão à palavra “algo” (“crime confesso de imprecisão”), a reticências (“melhor dizer do que deixar em suspenso”) e a exclamações (“não sou idiota para viver me espantando”). Um dia, pediu ao filho para limpar os “ques” do livro “Angústia”. Ricardo só encontrou quatro desnecessários. Quando a arte de esquerda passou a ser guiada pelo “realismo socialista”, Graciliano não cedeu. Chamou assim o criador do termo, o russo Anchei Jdanov: “um cavalo”. E garantiu a perenidade de sua obra.  

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