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Não deixo meu cariri

No sul do Ceará, crianças e adolescentes aprendem a valorizar sua história e cultura criando jornais, revistas e programas de rádio e tevê

Quem vê os jovens André Cordeiro, 13 anos, Mêires Moreira, 18, e Luciano Brito, 18, discutindo seus programas de rádio pensa que está mesmo numa redação. Na verdade, eles fazem parte da escola de comunicação da Fundação Casa Grande, no município de Nova Olinda, na região do Cariri, sul do Ceará. Estão entre as 70 crianças e adolescentes que aprende a comunicação, desde a Pré-História até as telecomunicações, num projeto considerado o mais criativo do Ceará e o melhor na área de educação pelo Unicef e pela Federação das Associações dos Jovens Empresários (Fajece), recebendo o Prêmio Criatividade Patativa do Assaré, no lançamento do selo Município Aprovado, em 2000. A escola de comunicação é apenas um dos projetos da fundação, que recebe até crianças de dois anos para atividades recreativas.

No museu Memorial do Homem Cariri, eles aprendem a respeitar a história dos homens que habitaram a região na Pré-História, sua cultura e seus costumes. “Eles estudam os utensílios, formas de impressão da pedra lascada e polida e aprendem as lendas”, explica Alemberg Quindins, músico e diretor da fundação. A casa que abriga o museu foi a primeira construída na cidade, em 1717, e servia de pousada para os comboios movimentados pelo ciclo do couro. “Meu avô comprou essa casa em 1932. Antes de montar o projeto, passei dez anos viajando e colhendo objetos, lendas e músicas da região”, conta Quindins. E foi exatamente o museu que despertou a curiosidade da meninada, que foi chegando pouco a pouco. A idéia inicial da Casa Grande não era trabalhar com crianças, mas resgatar a origem do homem cariri, na Chapada do Araripe. “Quando a gente se deu conta, eles estavam falando para os visitantes do museu tudo direitinho como tinham ouvido”, diz orgulhoso o diretor. Resultado: passaram a ser os recepcionistas do museu, relações-públicas e até guias mirins nos sítios arqueológicos.

O leque de opções da fundação é de fazer inveja a muitos cursos universitários de comunicação social. A Casa Grande FM chega a cinco municípios vizinhos, atingindo um raio de 25 quilômetros. São 14 horas de programação feita exclusivamente pela criançada. A rádio, autorizada pela Anatel, ensina produção, operação e locução de rádio. No laboratório da TV Casa Grande, eles produzem programas para os visitantes. As crianças são os produtores, roteiristas, câmeras, repórteres e auxiliares. E já lançaram um jornal, uma revista em quadrinhos, entre outros trabalhos. “A revista em quadrinhos era sobre lendas da região. Também fizemos o material pedagógico para a escolinha, com temas sobre sexualidade, drogas, etc. Aqui passamos por todos os setores. A equipe que está hoje na produção da editora pode estar amanhã na TV”, ressalta Mêires, que é também gerente da editora. Um dos grandes feitos da meninada foi o trabalho “Todos Contra o Fumo”, que virou um vídeo, e outra revista em quadrinhos. O material será enviado para todas as escolas do Estado. Mêires explica que os alunos de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC) sempre oferecem oficinas aos jovens escritores. “Tudo é feito pelos meninos. Nós, os adultos, só estamos aqui para não deixar eles brigarem”, brinca o diretor da Fundação.

Até mesmo a administração da ONG é composta pelas crianças e pelos adolescentes. Dessa forma, desenvolvem também o senso administrativo e financeiro. Com uma renda média familiar de R$ 120, cada menino ou menina da Casa Grande já sabe de cor o que é dinheiro curto, o que facilita o trato com os recursos. Apesar de a região ser rica, a maioria das famílias vive do plantio de subsistência ou da mineração. “Antigamente, a criança ia para a agricultura para aumentar a renda familiar. E acabava tendo acesso ao álcool”, afirma Quindins. Ao mesmo tempo, os pais são capacitados pelo Sebrae para montar seu próprio negócio. Já existem quatro pousadas domiciliares para receber os turistas, que somam mais de três mil por mês. Para agradá-los, a cidade ganhou cara nova com uma mãozinha infantil. O paisagista Ricardo Marinho foi contratado pela prefeitura para trabalhar com os alunos no laboratório de programação visual e recuperar a fachada das casas.

Dinossauros – Outra preocupação da Casa Grande é com o ecossistema. O projeto Lixossauro, coordenado por Luciano, associa o tempo de decomposição de alguns materiais com os dinossauros, que viveram na Chapada do Araripe há 100 milhões de anos. “Para conscientizar as crianças, criamos figuras como o chicletossauro, que demora cinco anos para se decompor”, explica o adolescente – um dos primeiros a entrar na Casa Grande, em 1992.

Funcionando há nove anos, a fundação surpreende por ter conseguido desenvolver tantos projetos com tão pouco. Nos quatro primeiros anos de existência, a Casa Grande sobreviveu com apenas R$ 200 por mês. Hoje conta com o apoio do governo do Estado, da Universidade Regional do Cariri (Urca) e do Instituto Ayrton Senna. O novo desafio desses meninos e seus orientadores é construir um teatro e formar atores. Alguém duvida que eles consigam?

 

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