Economia & Negócios

No reino do crédito popular

Há 50 anos a Casas Bahia pratica a arte de vender a prazo, sem burocracia, para quem não tem CPF e, não raro, assina com o polegar

Dona Lurdes Ferreira Davi Bonalume, 76 anos, conhece Samuel Klein há 50 anos, quando ele, sempre de sandálias, calça bege e uma mala em cada mão, era mascate nas ruas de São Caetano do Sul, na região do ABC de São Paulo. É dessa época o cobertor que ela comprou com barrado florido daquele que viria a se transformar no dono da Casas Bahia, uma potência que fechou o ano de seu cinquentenário com faturamento de R$ 4,2 bilhões (16% de crescimento sobre 2001), a maior rede varejista do País com 325 pontos-de-venda e 7,2 milhões de clientes por mês. Dona Lurdes ainda tem o cobertor de 50 anos que não dá e não vende para ninguém (“É uma lembrança”, ela diz) e, neste momento, está pagando um crediário para o guarda-roupas novo que acabou de colocar em casa.

É o crédito popular – uma das principais metas do novo governo – em sua essência. Dez milhões de clientes (dos quais 7,2 milhões frequentam as lojas mensalmente) têm cadastro na rede. Samuel Klein não precisou de nenhum financista para pôr em prática o que governantes não conseguem com suas comissões de especialistas. “Eu vendo para quem não tem CPF”, diz Michel Klein, filho e braço direito de Samuel. Vende também para quem não tem cheque nem acesso a banco, gente que assina o compromisso com a digital do dedo polegar e muitas vezes não tem comprovante de renda. A única burocracia é o comprovante de residência. A relação é de confiança.

Entre as 28 lojas que abriu no ano passado com um investimento de R$ 25 milhões, a Casas Bahia, uma das maiores empregadoras do País com 18 mil funcionários, desembarcou com sua segunda maior unidade (2.888 m2) no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, destacado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o bairro mais violento do mundo em 1995. Seus 260 mil habitantes, que não têm nenhum hospital por perto, receberam uma loja limpa, clara, com os cinco mil itens que estão em todas as outras. “A loja vai muito bem, gerou emprego para a comunidade (cada loja tem em média de 35 a 40 funcionários) e isso também é muito importante para nós”, diz Michel Klein.

A próxima será na favela da Rocinha, no Rio, e terá quatro pisos. Será enorme e só não terá queima de fogos na inauguração, como sempre acontece, porque fogos e favela são uma combinação que faz parte das regras dos traficantes. A entrega, num raio de mil quilômetros, não passa de 48 horas. A empresa tem uma frota de caminhões com tração nas quatro rodas para subir qualquer favela e entregar o produto na porta do freguês. Sinal de respeito a um cliente que a rede cultua com civilidade e honrarias, embora esse cliente não ganhe, em média, mais do que dois salários mínimos por mês.

Noventa por cento das vendas são feitas no crediário e o nível de inadimplência é, nas palavras do próprio Samuel Klein, muito baixo (8,5%) em relação ao mercado. Pobre não tem como aplicar um golpe e ir morar nababescamente em Roma, como fez, por exemplo, o banqueiro “desaparecido” Salvator Cacciola há quatro anos, ao aplicar um golpe milionário e dar o fora do País impunemente. Pobre honra seu nome porque é seu único patrimônio e porque sabe que a Justiça, com ele, é implacável. Ele segue religiosamente os planos de pagamento, que são iguais em todas as lojas da rede. Seis vezes sem juros no carnê ou dez vezes sem entrada com juros de 3,43% ao mês. Móveis são vendidos em 15 vezes sem juros e sem entrada.

No ano passado, em setembro, a rede começou a aceitar cartões de crédito para financiar em 12 meses, com juros de 2,9% ao mês. Tem mais, como conta o cliente Ademir de Brito Bernardino, 48 anos, três filhos, morador da favela Heliópolis, em São Paulo, que montou a casa inteira na loja de Samuel Klein. “Além de não pedir aquele monte de documentos, referências e fiador, se por acaso eu atraso o pagamento por cinco, dez dias, dá para conversar e renegociar.” Na casa de Ademir, televisão, geladeira, fogão, sofá, cama, guarda-roupas …tudo foi comprado na Casas Bahia. Ele é motorista de turismo e ganha R$ 1.200 por mês.

Com muita esperança no governo Lula, Michel Klein prevê um faturamento de R$ 5 bilhões em 2003, com 3,5% do faturamento destinado à publicidade. Os planos de expansão são ambiciosos: a rede pretende inaugurar 25 novos pontos-de-venda com investimento de R$ 10 milhões. Ao final do ano serão 350 lojas distribuídas pelos sete Estados em que a rede atua (São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás), mais o Distrito Federal. Tudo para clientes das classes C, D e E, considerados o maior ativo da rede, como diz Michel Klein. “Por que vou trabalhar para atender apenas 5% da população?” Os outros 95% garantem um faturamento mensal por loja – lembre-se que são 325 – de R$ 1 milhão.

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