Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

A mulher melão, Beth Friedman e eu

Podemos ser sexies, mas jamais vulgares. Não seria tudo uma questão de estética, de gosto e do olhar do espectador?

Semana passada aconteceu uma coisa inusitada: passei uma tarde inteira conversando com a Mulher Melão! A vida de atriz é assim, conhecemos pessoas totalmente diferentes de nós e eu gosto disso. A situação foi bem engraçada: o cenário era um salão de cabeleireiro onde eu estava colocando mega hair (um tipo de alongamento de cabelo). Demora tanto que dá tempo pra ler o Antigo e o Novo Testamento da “Bíblia”, mas a gente acaba lendo revistas de celebridades e conversando mesmo. Ao meu lado uma linda e inteligente estrela da televisão. Eis que adentra à porta uma moça de seus vinte e poucos anos metida numa mistura de bota de chacrete com sandália plataforma, uma microssaia, decote, um cabelo gigantesco, tudo ao mesmo tempo em plena tarde do Rio de Janeiro. O meu papo com a estrela de tevê era sobre a vinda da diretora francesa Ariane Mnouchkine ao Rio de Janeiro e da importância de seu Teatro de Soleil, enfim, papinho cabeça pelo qual Renata (esse é o nome dela), acho eu, não se interessaria. Rapidamente estávamos falando de silicone, malhação, funk e mais algumas coisas impublicáveis. Fiquei conhecendo o mundo maravilhoso das mulheres-fruta. Elas fazem show de funk pelo Brasil, vivem em programas televisivos e não param de fazer ginástica para aumentar os já enormes glúteos. Mas uma coisa me chamou atenção: fazem o que querem. De uma maneira tão independente que orgulharia Beth Friedman. A maneira com que falam de seus parceiros e a liberdade de suas relações afetivas teriam a aprovação de Simone de Beauvoir.

Vendo aquela garota com aquele look que antes só conhecia das revistas e programas populares, fiquei, a princípio, hum… meio hum… acho que vou falar a verdade… chocada. Mas logo Renata tratou de me mostrar com maior orgulho sua revista “Playboy”.

As poses, nem sei como descrever, mas digamos assim… ela está na capa completamente nua, de costas e agachada, deu pra entender? Minha moral não deixou que não ficasse meio constrangida, mas, depois que vi o orgulho e a naturalidade com que encarava aquilo, fiquei com vergonha da minha vergonha. Logo eu, sem preconceitos e cheia de convicções moderninhas.

Depois fiquei me perguntando: onde acaba o erótico e começa o pornográfico? Por que algumas atrizes que posam nuas fazem questão de dizer: “Meu ensaio não é vulgar”? O que é ser vulgar? Certamente ficar nua para o fotógrafo bacanão não é vulgar, mas para o Zé das Couves é. Podemos ser sexies, mas jamais vulgares. Não seria tudo uma questão de estética, de gosto e do olhar do espectador? Uma foto bem trabalhada, com uma bela luz e uma atriz famosa é muito chique, mas modelos – subcelebridades clicadas em uma cachoeira, por exemplo, são pornografia. É mesmo? Não sei, mas acho que o pensamento masculino é o mesmo.

A moral é pessoal e pronto. Quando fui convidada para posar nua, não aceitei e até hoje não sei exatamente o porquê, o fato é que não parava de pensar em como passaria pelo porteiro do meu prédio, não tinha nenhum argumento substancial, era apenas vergonha.
Bem, tudo isso pra contar que acabamos por nos divertir, eu e a mega-famosa-chique-intelectual estrela de tevê, ao som do funk cuja letra não possui nada de sutil: “Você, você, você quer, você quer…” 

Márcia Cabrita é atriz


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