Medicina & Bem-estar

Na trilha do prazer

O lançamento do Cialis na Oceania e na Europa (na foto, a embalagem alemã) e a previsão da chegada do Levitra melhoram as perspectivas do tratamento contra a impotência

Mais uma boa notícia para os 11 milhões de brasileiros que sofrem de impotência. Está prevista para os próximos meses
a chegada de dois medicamentos
contra a disfunção erétil, problema caracterizado pela incapacidade de manter a ereção por motivo orgânico
ou psicológico. As novidades aumentarão as opções de tratamento. Hoje, o paciente conta com o Viagra, do laboratório Pfizer, e o Uprima, da Abbott. O mais novo da lista é o Cialis (Tadalafil), do Eli Lilly. Na semana passada, o remédio foi lançado na Europa, Austrália e Nova Zelândia. A droga está sendo vendida nas farmácias sob prescrição médica. No Brasil, o produto foi registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a empresa espera colocá-lo no mercado no segundo semestre.

O Cialis atua de forma semelhante ao Viagra. Os dois inibem a ação
da enzima fosfodiesterase, presente no pênis. Esse bloqueio resulta
na dilatação dos vasos sanguíneos, que se enchem de sangue,
facilitando a ereção. Claro que para que isso aconteça não pode
faltar estímulo sexual. O Cialis age depois de 30 minutos. Segundo
o fabricante, o efeito da droga dura até 36 horas. Mas o urologista Sidney Glina, de São Paulo, faz uma ressalva. “A ação do Cialis pode
até se estender por 36 horas, mas sua média de duração é de 17 horas”, afirma. O médico conduz uma pesquisa com o remédio no Hospital Ipiranga, na capital paulista. O trabalho faz parte de um estudo
feito em vários países a pedido da Eli Lilly.

A empresa, no entanto, sustenta que a duração do remédio é uma vantagem em relação aos outros medicamentos. O Viagra pode agir até 12 horas, enquanto o Uprima funciona por quatro horas. “O paciente que usar o Cialis não precisará olhar no relógio para saber a hora de tomar. Pode consumi-lo no sábado à noite, por exemplo, e ter relação sexual
no domingo pela manhã”, diz Fernando Martins, gerente-médico da empresa. Para os médicos, o maior benefício é o fato de o paciente
poder contar com novas opções. “Quem não responder ou não tolerar
um remédio poderá usar outro. Os homens poderão escolher, junto com os médicos, a forma de se tratar”, diz Celso Gromatzky, urologista
do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC/SP). Quem concorda é a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do HC/SP. “Os mais jovens que pretendem ter várias relações em um período de tempo curto vão ser beneficiados com o remédio de duração maior, enquanto os mais velhos que tiverem uma relação provavelmente preferirão drogas de efeitos mais rápidos”, acredita a especialista. O gerente médico da Pfizer, Jurandir Cestari Filho, vê com desconfiança as vantagens apresentadas pelo concorrente. “Ficar com a droga tanto tempo no corpo não significa vantagem. Pode ser apelo de marketing, sem contar o risco que pode existir”, alfineta.

Além da forma parecida de ação, os dois
remédios têm em comum as contra-indicações. Cialis e Viagra não podem ser tomados junto
com remédios da classe dos nitratos usados
por quem teve infarto ou forte dor no peito. A combinação dessas drogas pode, por exemplo, provocar queda da pressão e desmaio.

Entre os efeitos colaterais do Cialis está a dor de cabeça. Nada que comprometa a vida do paciente foi identificado. Aliás, diminuir danos adversos é um dos principais objetivos das modernas terapias. Esse, inclusive, é um dos diferenciais propagados pelo fabricante da nova pílula Levitra, do laboratório alemão Bayer, prevista para chegar à Europa a partir de março e em julho no Brasil. Segundo a empresa, o remédio tem ação seletiva. Por isso, para atingir esse objetivo a dosagem é menor. Assim, os efeitos colaterais, como a dor de cabeça, são menos intensos. A ação da pílula é parecida com a do Viagra e a do Cialis. Ele também inibe a fosfodiesterase. O remédio age por cerca de seis horas e pode ser tomado entre 15 e 30 minutos antes do ato sexual. A Bayer afirma que os testes mostram resultado em pacientes diabéticos e nos que passaram por cirurgias de câncer de próstata, mas antes não obtinham sucesso com os remédios disponíveis.

No entanto, as qualidades reais do Cialis e do Levitra só serão averiguadas quando o produto for usado por milhares de homens. Entre o efeito prometido e a realidade pode haver muita reversão de expectativa. Foi o que ocorreu com o Uprima. Lançado em 2001, ele decepcionou. “Funciona, mas seus efeitos não são como se esperava”, diz Gromatsky. O problema é que na dose necessária para garantir uma boa ereção o remédio causa náusea e vômito. “Por isso, a quantidade suportável acaba sendo mais fraca do que a que seria preciso”, diz Glina.

Apesar das divergências, os especialistas comemoram a variedade de opções. “Hoje é mais fácil tratar a impotência do que a ejaculação precoce”, diz Carmita Abdo. O distúrbio é tratado com terapia e antidepressivos. Porém, um dos efeitos colaterais dessas drogas é a diminuição da libido e maior concentração do sêmen, que demora mais para se expelido. A consequência é que o tratamento é lento e complicado. Mas dá resultado. Isso mostra que ninguém precisa sofrer com um ou outro inconveniente durante a relação. A medicina de fato está oferecendo novas soluções.