Entrevista

Danny Glover

Bush é racista

Bush é racista

O ator Danny Glover diz que o presidente americano não respeita nem as decisões da ONU e que Colin Powell não representa os negros americanos

Kátia Mello
Edição 12/02/2003 - nº 1741

Quem assistiu à série cinematográfica Máquina mortífera jamais imaginaria o ator Danny Glover por trás das telas. Sua metralhadora giratória é a língua. Sorridente, carismático e há mais de duas décadas como ativista dos direitos humanos, Glover, 55 anos, não poupa críticas quando o assunto é uma possível guerra contra o Iraque. Ele não perdoa líderes como o presidente George W. Bush, a quem classifica de racista que não respeita a opinião de ninguém, a não ser a dele mesmo. Como embaixador da Boa Vontade para o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, o ator californiano visitou inúmeros projetos em vários países africanos. Glover ainda é presidente da ONG TransAfrica, que luta contra o racismo e ainda participa de campanhas para erradicação da Aids. Depois que seu pai foi vítima fatal de anemia, o ator abraçou também a luta contra esse mal. Nesta primeira vinda ao Brasil, Glover participou do Fórum Social Mundial em Porto Alegre e ainda visitou em São Paulo o projeto Geração 21 do Geledés – Instituto da Mulher Negra que promove a inserção de jovens negros nas universidades. Glover, que se formou em oficinas para atores negros nos anos 70 no American Conservatory Theatre, viveu o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela em uma produção para a tevê e fez o maravilhoso Cor púrpura. Nesta entrevista exclusiva a ISTOÉ, o ator falou sobre seus longos anos de militância e elogiou o programa de combate à fome do governo Lula.

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ISTOÉ – Até os dez anos, o sr. morava em uma casa construída por um projeto social do governo. Existe alguma relação entre seu passado humilde e o engajamento na militância social e política de hoje?
Danny Glover

Não sei dizer se há uma relação pessoal nisso. Eu
tento entender objetivamente a situação dessas pessoas. Vivo em
um país onde a questão racial é fundamental, até historicamente
falando. Quando viajo a países como a África do Sul, onde existem similaridades com os Estados Unidos na questão racial, ou seja, dificuldades de inserção social por conta da raça, então esses paralelos entre a minha experiência e a de outros aparecem. Hoje, dois milhões
de pessoas no mundo recebem menos de US$ 1 por dia. Dentro desta realidade, a questão da raça é fundamental.

ISTOÉ – Em suas conversas com jovens negros, como os do projeto Geração 21, que tem como objetivo inseri-los nas universidades, o sr. se recusa a ser tratado como astro de Hollywood. O que diz a eles?
Danny Glover

Digo a eles que a responsabilidade individual deve estar sempre ligada à responsabilidade coletiva. No momento em que eles ingressam em um desses programas, automaticamente tornam-se mais conscientes e analíticos sobre a realidade em que estão inseridos. Esse tipo de projeto só foi criado no Brasil porque há uma desigualdade histórica. Só o fato de esse projeto existir já é o suficiente para desmascarar o mito de uma democracia racial brasileira. Se não fosse assim, não haveria nem como implementar projetos dessa natureza, eles permaneceriam no vácuo. Esses meninos e meninas incorporam um novo paradigma. Se tiverem uma presença apenas cosmética na sociedade, não terão forças para mudar, não serão capazes de trazer inovações para toda a comunidade. Então, temos que nos utilizar das pequenas mudanças para alcançar as profundas transformações. Mudanças que venham para todos, e não para um punhado de gente.

ISTOÉ – Falando sobre mudanças, como o sr. vê o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
Danny Glover

Não há dúvida de que o presidente Lula foi eleito com grande apoio popular. Talvez esta eleição tenha sido a mais democrática que ocorreu neste hemisfério. Não há dúvida também de que, com sua formação, Lula entende melhor a importância de se chegar a uma sociedade mais igualitária, mais justa, que responda às necessidades
dos mais carentes. Dito isso, fica a dúvida de como o presidente brasileiro irá construir um novo caminho para forjar as futuras lideranças do Brasil, um país em que a maioria é pobre, composta por afro-descendentes, onde as instituições foram feitas para manter este status quo. Sem dúvida, no momento em que ele começar a implementar seus projetos de transformação, haverá muita pressão, interna e externa,
para que nada seja mudado. Como Lula vai resolver este dilema é o
que interessa. Não creio que sua Presidência vá liquidar com séculos
e séculos de desigualdades. O que se espera é que haja um novo
sistema no qual vigore a moralidade, a ética; um sistema socialmente mais inclusivo e mais igualitário.

ISTOÉ – E como o sr. vê o governo do presidente George W. Bush?
Danny Glover

Bush foi eleito com menos da maioria dos eleitores. Ele promoveu um programa conservador elaborado para extinguir todas as conquistas até então alcançadas pelos americanos nas questões de igualdade e de raça. Um programa que enriquece ainda mais os ricos, que ameaça ecologicamente ainda mais este frágil planeta. Então, mesmo que ele legitimamente seja o presidente, enfrenta uma oposição. Nossa questão nos Estados Unidos hoje é como lutar contra este programa tão conservador. Como trazer de volta as vitórias conquistadas. Este tornou-se nosso principal objetivo.

ISTOÉ – E a determinação de Bush em atacar o Iraque?
Danny Glover

A maior parte das pessoas no mundo não deseja esta guerra. A guerra representa a erosão de todas as possibilidades de diálogo, acirra ainda mais a instabilidade mundial e levanta a questão de se o mundo é capaz ou não de atingir a estabilidade, de um dia ser mais pacífico. A segurança de um povo não se conquista apontando-se canhões, ou com o maior império do mundo dizendo que faz o que quiser, inclusive partir para a guerra unilateralmente. A segurança é o resultado da cooperação em todos os níveis da sociedade no mundo. Ela vem da construção de uma democracia. Só chegaremos a ela se as populações decidirem de maneira conjunta como será seu futuro.

ISTOÉ – O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela disse que Bush é racista por não aceitar as determinações da ONU porque atualmente seu secretário-geral é um negro, Kofi Annan. O que o sr. diz desta declaração?
Danny Glover

Ele disse isso? Ótimo! É exatamente isso! Bush não respeita as resoluções da ONU, não respeita as vozes de outras populações, não respeita o secretário-geral da ONU. Sim, ele é racista. Nós já sabíamos disso, o mundo é que está descobrindo agora. Como governador do Texas, Bush liderou um sistema penitenciário que executou mais gente do que todos os outros Estados americanos juntos. A imensa maioria dos que foram condenados à pena de morte no Texas é de afro-descendentes ou hispânico-descendentes.

ISTOÉ – No Brasil, há um debate sobre uma possível implementação de cotas para negros nas universidades. Nos EUA, as cotas existem há anos. O sr. acha que elas funcionam como medida de inclusão?
Danny Glover

Se funcionam ou não, depende da vontade política e de como elas são vistas em cada sociedade. As cotas só dão resultados se existir um compromisso de toda a sociedade em apostar que elas serão capazes de beneficiar a todos, não apenas um determinado grupo. Para aqueles que foram excluídos pelo Estado e pelo setor privado durante anos, a aplicação das cotas é justa. Mas, repito, só funciona se houver um consenso social. A inclusão faz sentido no momento em que se admitem os excluídos, os segregados, os humilhados. E esta inclusão deve ser feita de tal forma que garanta um lugar digno aos excluídos na sociedade e ela deve estar fundamentada na história desse povo.

ISTOÉ – Um dos principais líderes negros americanos, Harry Belafonte, a quem o sr. admira, afirmou que o secretário de Estado americano, Colin Powell, é um traidor da causa negra. O sr. concorda?
Danny Glover

Powell está numa posição extremamente significativa. Primeiro, como ser humano, ele deveria estar preocupado com os que estão fora do sistema. Depois, como liderança política, ele deveria ser um facilitador da paz, alguém que fortalecesse os valores éticos e morais nos EUA.

ISTOÉ – E ele faz isso?
Danny Glover

Ele apóia as políticas de Bush. O fato de ele ser negro não significa necessariamente que defenda uma política igualitária. Colin Powell recebeu inúmeras vantagens em sua posição, alcançou o topo da carreira nas Forças Armadas. Ele deveria ser um claro exemplo de sucesso, de realização. Mas sucesso para quê? Se sucesso for apenas uma questão de alcançar status, o poder, fazer parte da elite, então esta realização está distorcida. Se, ao contrário, Powell fosse a expressão dos excluídos, então talvez pudesse representar uma força de união entre os excluídos e os que estão no poder. Powell é questionado pelas políticas que representa; assim, ele poderia ser amarelo, branco ou negro que os questionamentos seriam os mesmos.

ISTOÉ – Como vê o projeto Fome Zero do presidente Lula?
Danny Glover

O Fome Zero que o presidente Lula iniciou parece, no papel, um grande programa, mas ainda não foi implementado e, claro, não se sabe quais serão os resultados para se ter uma reflexão exata sobre seu sucesso ou seu fracasso. Há muitas instituições e organizações não-governamentais no mundo que há muito lidam com a questão da fome, a distribuição de alimentos. Como olhar para isso? Lula está no poder há apenas um mês. É muito cedo para julgar como ele irá lidar com problemas internos e externos, que vão desde as multinacionais de alimentos, passando pelo orçamento de seu programa até a grande expectativa dos brasileiros em resolver esta demanda.

ISTOÉ – Há duas décadas como ativista pelos direitos humanos, o sr. já visitou inúmeros projetos. Que experiências testemunhou que deram certo?
Danny Glover

Os programas dão certo quando há uma boa administração, respeitam-se o meio ambiente e as minorias. Vou dar um exemplo na
área de saúde. Veja Cuba, onde existem 60 mil médicos, cerca de
31 mil deles clínicos, o que significa que há um doutor para 190
cubanos. É um sistema que funciona em uma base equitativa populacional, que leva em consideração as necessidades individuais
e globais de uma população inteira. É um sistema que não está baseado no mercado imperativo dos que são obrigados a pagar mais para poder obter melhores benefícios na saúde, ou os que não têm como pagar e
por isso não recebem assistência. Mas ninguém fala em aplicar este exemplo em outros lugares porque isso obviamente desestabilizaria
todo um esquema baseado na indústria do lucro. A mesma questão poderia ser aplicada ao mercado de alimentos que determina quem
deve ou não receber alimentos. Sempre houve essa polêmica da fome.
E não podemos desconsiderar a má administração dos governos. Eu estive no Zimbábue em 1986, quando o país tinha um supéravit de
grãos. Na época, a produção de grãos era suficiente para abastecer
toda a população do Zimbábue e ainda sobrava para a exportação.
Mas o que aconteceu? Seis anos depois, o Zimbábue ficou deficitário
em sua produção interna e passou a importar grãos do Estado de Iowa, nos EUA. Algo aconteceu que impediu o desenvolvimento da tecnologia
e a produção agrícola daquele país. E este não é um fenômeno isolado
do Zimbábue. Na época da independência, em 1958, o Quênia produzia alimentos para vários países africanos. Agora, sua economia voltou-se para o turismo, porque isso faz parte do modelo neoliberal que determina quem produz os alimentos, quem os exporta, quem os importa e quais devem ser as políticas de subsídios. E, consequentemente, também determina quem serão os famintos no mundo. A ironia, o paradoxo que existe no Brasil, é que o País talvez seja o terceiro produtor de alimentos no mundo, mas ainda necessita erradicar a fome. O que isso significa dentro do debate sobre a fome? Talvez seja a hora de corrigir esta situação com os novos programas.

ISTOÉ – O sr. é embaixador da ONU, está engajado em várias questões sociais, como o combate ao racismo, à Aids, e ainda propaga a ajuda aos países do Terceiro Mundo. Não é uma contradição fazer filmes como Máquina mortífera?
Danny Glover

Sim, é uma contradição, mas eu sou um artista. Eu tento
olhar para essas contradições e usar a minha arte como uma maneira
de focá-las. Por exemplo, o fato de eu ter participado de um filme
de muito sucesso me faz ser reconhecido em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil, e assim posso falar de outros temas. Existe
toda uma tecnologia maravilhosa, avançada, com seus modernos
efeitos especiais que faz com que as pessoas vão assisti-lo. Além
disso, Máquina mortífera tenta trazer uma reconciliação entre raças,
com um policial negro e um branco.

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