Cultura

Prato trivial

A última ceia poderia ferver, mas é só morno

No cotidiano de Hank Grotowski (Billy Bob Thornton) e de seu filho Sonny (Heath Ledger) não há espaço para sentimentos a não ser o tédio que domina a vida dos dois ou a virulência racista exclusiva de Hank, um americano de sangue sulista. Os dois são policiais lotados numa prisão rural. Cuidam dos presos do corredor da morte, aqueles cujas sentenças terminam numa cadeira elétrica. Para esquecer a crueldade da profissão detestável, Sonny só tem como escape o sexo de segundos praticado com a prostituta local, a mesma que serve o pai viúvo. Vive solitariamente na companhia paterna e do avô Buck (Peter Boyle), numa casa tão morta quanto aqueles que acabaram de ser assados no instrumento medieval. Desafiado, espancado e humilhado por Hank, Sonny o ameaça com um revólver mas acaba se suicidando. Ninguém da família se importa. Mas uma rota torta do destino de nome Leticia (Halle Berry) irá causar uma transformação radical na existência dos Grotowski, cuja história é contada em A última ceia (Monster’s ball, Estados Unidos, 2001), que tem estréia nacional na sexta-feira 22.

Apesar de estar na corrida para o Oscar com as indicações de melhor roteiro original e de melhor atriz para Halle Berry, o filme dirigido por Marc Forster mostra como Hollywood enfrenta neste ano sua pior safra. Apostando no drama social e psicológico, Forster conduziu de um jeito morno uma trama que poderia ferver. Com medo de parecer excessivo, optou pela atmosfera contida até mesmo quando mostra a morte de Lawrence Musgrove (Sean Combs), marido da infeliz Leticia. Billy Bob Thornton, mais lembrado como a paixão tatuada do vulcão chamado Angelina Jolie, entrou no esquema do diretor e não deu ao seu Hank o sofrimento necessário de quem se defronta com uma nova realidade. Halle é a exceção. Mas nada que mereça um Oscar, comparada ao brilho da sua concorrente Nicole Kidman, protagonista do delírio barroco Moulin Rouge – amor em vermelho.