Cultura

Sem essa de museu

A 25ª Bienal de São Paulo elimina o núcleo histórico e volta ao antigo conceito de dar voz às manifestações contemporâneas

Para garantir o sucesso de um evento do porte da 25ª Bienal de São Paulo – que pretende atrair meio milhão de pessoas a partir do domingo 24 até 2 de junho – é sempre preciso uma boa dose de polêmica. Sob o tema Iconografias metropolitanas, que relaciona a produção artística com a experiência urbana, 195 artistas de 70 países prometem arrancar discussões calorosas através de instalações, fotos, vídeos, web art, pinturas – sim, elas ainda existem –, esculturas e toda sorte de objetos não-identificados. Sem os afamados núcleos históricos das edições mais recentes, a bienal deste ano promete ampliar o debate, dando voz somente às produções contemporâneas. Nada de Picasso, Munch ou Van Gogh. Em sua maioria, os quase 300 trabalhos são inéditos e recém-saídos dos ateliês de estrelas, como o americano Jeff Koons, famoso por suas telas e esculturas kitsch, ou de nomes emergentes, a exemplo do carioca José Damasceno, que montou uma monumental instalação com martelos, bancos antigos de cinema e uma montanha de pegadas feitas de papel. Pelos 30 mil metros quadrados do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera, o que se vê é o império da arte contemporânea. Carlos Bratke, presidente da instituição, comemora a guinada que reduziu os custos do evento, hoje esbarrando na casa dos R$ 18 milhões. “Não somos um museu”, sintetiza. Opinião compartilhada pelo curador-geral, o alemão Alfons Hug, primeiro estrangeiro a pilotar a segunda mais importante bienal do planeta. “Das 50 bienais do mundo, nenhuma faz núcleo histórico”, decreta.

Prevendo as más línguas dos que não levam muito a sério as novas liguagens, o curador da representação brasileira, Agnaldo Farias, aciona seu arsenal. “As artes plásticas viraram um saco de pancadas. Uma procissão de pessoas muito inteligentes, que inclui o escritor Carlos Heitor Cony, o comentarista Arnaldo Jabor e o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar está falando as mais altissonantes cretinices e besteiras sobre o assunto”, ataca o curador. “O problema de um evento desta magnitude é que, devido ao caráter espetacular, ele passa a ser vendido como coisa simples, o que definitivamente não é.” A começar pela operação de colocar de pé o fabuloso circo das artes.

Vôos internacionais – Nascida como uma bienal-problema, por ter sido duas vezes adiada e ter a curadoria trocada há pouco mais de um ano de sua abertura, esta 25ª edição demandou trabalho dobrado. Só em 2001, Alfons Hug acumulou 400 horas de vôo, num ziguezague de 300 mil quilômetros por 25 países dos cinco continentes. “As representações nacionais nunca foram tão fortes”, garante Hug, que pulverizou as salas pelos três andares do pavilhão, acabando com aquela desagradável sensação de gueto a que eram relegadas as delegações menos nobres.

Segmento dos mais irregulares na história da bienal, as representações nacionais realmente trazem nomes de peso, como o venezuelano Carlos Cruz-Diez, um clássico da arte cinética, e o alemão Rupprecht Geiger, habitué da Documenta de Kassel. Outros destaques são a americana Kara Walker, artista negra que cria silhuetas com cenas da escravidão, e o videomaker canadense Stan Douglas, nome sugerido pelo próprio Hug. O resultado do empenho do curador-geral pode também ser comprovado nas nove salas especiais, onde se concentra o filé da programação. Além do já citado Jeff Koons, que revê de forma crítica as imagens publicitárias, o espaço climatizado apresenta o trabalho abstrato-geométrico do pintor irlandês Sean Scully, afinado com a ala minimalista, e as fantásticas fotos arquitetônicas do americano Thomas Ruff. Entre os brasileiros despontam Carlos Fajardo, Nelson Leirner e Karin Lambrecht. Embora ocupem um lugar vip, as salas especiais não polarizam as atenções da mostra, cujo conceito-síntese repousa sobre o módulo 11 metrópoles. Centrado nas cidades de São Paulo, Caracas, Nova York, Johannesburgo, Istambul, Pequim, Tóquio, Sidney, Londres, Berlim e Moscou, o segmento reúne 55 artistas, cinco para cada cidade. “Para mim, interessa como o drama urbano se transforma em arte e como o artista lida com a magnitude das cidades e as dimensões metropolitanas”, explica Hug.

Por razões óbvias, o curador-geral decidiu acumular a curadoria dos artistas berlinenses, selecionando, entre outros, os trabalhos do fotógrafo Michael Wesely. Durante dois anos, Wesely documentou a reconstrução da Praça de Potsdam de uma maneira bastante atípica.
Em vez de câmeras tradicionais, sobre o gigantesco canteiro de obras posicionou algumas pin holes, cujo processo rudimentar de fotografia permite uma exposição demorada do alvo. O resultado é um registro
de todas as transformações do local. Em diálogo com os trabalhos sobre as 11 metrópoles, outros 12 artistas internacionais, entre eles o fotógrafo brasileiro Arthur Omar, imaginaram cidades utópicas para o segmento A 12ª cidade. Omar viajou ao Afeganistão, de onde trouxe fotos sobre os sinais de uma nova vida em Kabul e nas aldeias afegãs, como a volta dos jogos equestres e a reabertura do cinema local. No time estrangeiro, o escultor da República Democrática do Congo, Bodys Isek Kingelez, traz maquetes futuristas que parecem alheias à miséria de sua cidade, Kinshasa. Sem referências ao mundo real, a americana Sarah Sze criou uma edificação frágil, feita de fios, bambu e isopor, que sobe como uma trepadeira por uma coluna do pavilhão. “Meu trabalho parte do improviso. Quis dialogar com o lado escultural da arquitetura de Oscar Niemeyer”, afirma ela.

Para interpretar o caos de São Paulo, o curador Agnaldo Farias escolheu os artistas Lina Kim, Artur Lescher, Raquel Garbelotti, Rubens Mano e Vânia Mignone. Lina criou a instalação Cry me a river, uma sala branca cujas paredes são cobertas de dez mil pequenos espelhos circulares. Nas extremidades, 12 tanques de inox, posicionados dois a dois, deixam escoar, como se fosse um líquido, 100 camisas-de-força amarradas umas às outras. “Ao colocar um símbolo da medicina terapêutica numa situação de fluidez, busquei uma relação mais humanista com a cidade”, explica Lina. Também responsável pela seleção dos 23 nomes da representação brasileira, Farias privilegiou a ala mais experimental, rompendo com a hegemonia do eixo Rio–São Paulo. “Não fiz esta seleção da noite para o dia. Esta curadoria é o resultado de dez anos de trabalho anterior ao convite”, afirma ele. Na área de vídeo, um dos escolhidos foi o mineiro Cao Guimarães, cuja obra Via de mão dupla mostra simultaneamente, em seis monitores, o olhar de três pares de pessoas que trocaram de casa por um dia para documentar com uma câmera o que viam na residência alheia. “Procurei criar um fluxo de identidades e diferenças num documentário para seis telas”, conta Guimarães. Da cidade de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, o artista Marepe trouxe um muro real, pesando 3,5 toneladas, com uma propaganda feita por um desses pintores anônimos do interior. O slogan “Tudo no mesmo lugar pelo menor preço” alfineta com fina ironia a lógica do mercado de arte. Poderia também servir de mote da 25ª Bienal de São Paulo, que até o final de maio cumprirá a ousada função de Babel das artes.