Cultura

As cores da violência

Em Dia de treinamento, Denzel Washington vive um policial envolvido com o submundo

Basta Hollywood pensar na biografia de um grande herói negro para ser filmada que imediatamente um nome vem à tona. Ele é Denzel Washington, 47 anos, que nas telas já incorporou o ativista sul-africano Stephen Biko em Um grito de liberdade, o líder negro Malcolm X, no filme de mesmo nome, e, mais recentemente, o boxeador Hurricane em Hurricane – o furacão. Só não foi o boxeador Muhammad Ali, papel de Will Smith, porque seria redundância demais. A insistência da indústria cinematográfica americana faz sentido. Depois que Washington encarnou os três mártires da luta racial com empenho e muito suor, ele tornou-se o ator negro de maior prestígio nos Estados Unidos. Não o suficiente, porém, para ganhar um Oscar de melhor ator, categoria em que ele concorre no dia 24 pelo seu trabalho em Dia de treinamento (Training day, Estados Unidos, 2002), cartaz nacional na sexta-feira 15. Antes, a estatueta só lhe chegou às mãos de forma inesperada, em 1989, quando levou o Oscar de melhor ator coadjuvante por Tempo de glória, épico da guerra civil americana no qual viveu um soldado rebelde que exalava dignidade até sob as mais estaladas chibatadas. Agora, o intérprete de mais de 30 filmes veste pela primeira vez um tipo do mal: Alonzo Harris, tira amoral e de um egocentrismo doentio.

Washington criou um vilão dos melhores. Daqueles que parecem lobo em pele de cordeiro. Sua vilania é destilada a conta-gotas num personagem absolutamente ambíguo, no qual as boas intenções, a princípio, são totalmente cabíveis. É uma interpretação que praticamente sustenta o filme do quase estreante Antoine Fuqua, cineasta negro promissor que dizem ter respaldo para levar suas câmeras àquelas bibocas de Los Angeles dominadas por inúmeras gangues, aliás muito bem retratadas na trama. Fuqua acertou em deixar Denzel Washington brilhar num semivôo solo. Só escorrega quando inventa uma pancadaria exagerada, típica das produções de artes marciais, que quase compromete seu filme. Resquício evidente da sua estréia em Assassinos substitutos (1998), cujo protagonista é o astro de ação made in Hong Kong, Chow Yun Fat. A verdade é que o diretor conseguiu tornar uma história batida – o confronto entre o oficial veterano Harris e o novato Jake Hoyt (Ethan Hawke) – numa fita contundente e realista, expondo com clareza a promiscuidade contaminante de policiais e bandidos nos Estados Unidos.

Fuqua realizou uma obra sintonizada com a hipocrisia dos dias atuais. O personagem de Washington é uma espécie de retrato da falência da lei. Algo que seu candidato a parceiro, o ingênuo Hoyt, custa a enxergar. Para ele, Alonzo Harris é o rei do Departamento dos Narcóticos de Los Angeles e trabalhar na sua equipe pode ser o passaporte para uma carreira brilhante. Hoyt está disposto a suportar o tal dia de treinamento do título, imposto por Harris, na verdade um ritual de iniciação torturante e de cores violentas. Hawke se comporta como um coadjuvante à altura da exuberância de Washington. Mostra de forma concisa e convincente o intenso processo de transformação que Hoyt sofre. Dia de treinamento torna-se assim um filme sobre o amadurecimento que nasce a fórceps, sem anestesia.

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