Cultura

O poderoso chefão do FBI

Biografia romanceada de John Edgar Hoover traça o perfil de um dos homens mais temidos dos EUA

O poderoso chefão do FBI

ÍNTIMO DO PODER Hoover e o presidente Kennedy, que ele condenava pela sexualidade exacerbada (DIVULGAÇÃO)

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A cena se passa na crise dos mísseis de Cuba, em 1962, um dos momentos mais tensos da guerra fria, quando a União Soviética concorda em retirar seu armamento da ilha desde que os Estados Unidos façam o mesmo com suas armas da Turquia. Diante do habitual instinto de sobrevivência de John Edgar Hoover, o poderoso chefão do FBI (que na sua loucura persecutória já imaginava se mudar para o Alasca, local para onde os russos nunca mandariam mísseis), Clyde Tolson, seu secretário – e, dizem as más línguas, seu amante -, teria lhe perguntado: "Por que essa mania de nunca deixar o chofer desligar o carro quando você está longe de casa ou do escritório, Eddy?" Hoover teria respondido: "É que o tempo para ligá-lo é às vezes o que separa a vida da morte." Esse diálogo está no livro A maldição de Edgar (Record, 398 págs., R$ 40), do francês Marc Dugain, uma biografia romanceada de um dos homens mais temidos do século XX. Esse era Hoover: uma raposa de rara sagacidade quando o assunto era política.

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A extensão de suas decisões no FBI era comparável à de chefes de Estado. Ou até mais duradoura: um presidente é eleito, pode até ser reeleito. Hoover não: sua gestão à frente do serviço de investigação americano durou 38 anos e passou por oito governos. Não que eles aprovassem seus métodos. Em nome da soberania da nação, Hoover podia investigar qualquer pessoa e formar imensos relatórios – até de presidentes. Levava ao pé da letra o raciocínio do escritor de policiais Dashiell Hammett de que todo mundo tem algo a esconder. Aliás, é como um romance noir que A maldição de Edgar foi construído. Trata-se, na verdade, das memórias fictícias de Clyde Tolson, que narra ao final da vida sua convivência com Hoover. Essas recordações são fictícias em termos, pois Dugain se baseou nos melhores livros já publicados sobre Hoover e o período enfocado. Sem falar dos próprios arquivos do FBI.

Na mira do "bureau" durante a caça às bruxas, o escritor Truman Capote apelidou Hoover e Tolson de "Johnny & Clyde", numa alusão aos gângsteres Bonnie & Clyde e à suposta relação amorosa entre os dois. Hoover tinha provado sua força em momentos anteriores, mas foi na perseguição aos comunistas que sua autonomia alçou vôo. "Hollywood fede a comunismo", teria dito ele, que também não suportava negros, judeus e, paradoxalmente, homossexuais. O curioso é que, nessa cruzada contra os inimigos internos, Hoover poupou os mafiosos. Argumentava que era melhor deixar o vespeiro para os governos estaduais. A verdade é que a máfia o chantageava com fotos de sua mania secreta: se travestir usando lingerie preta.

 

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Não houve episódio da história americana em que Hoover não tenha sido observador (ou agente) privilegiado, como o ataque a Pearl Harbour, o caso Rosenberg, a invasão da Baía dos Porcos e a guerra do Vietnã. Sua verdadeira obsessão, no entanto, era o clã dos Kennedy, numa animosidade que começou com o patriarca, Joe Kennedy, amante da atriz Gloria Swanson, "bulímico por mulheres", traço herdado com louvor por seus filhos famosos. Joe era um anti-semita habituado a ganhar dinheiro provocando crises nas Bolsas e associando- se a mafiosos, o que legitimou sua influência social como embaixador na Inglaterra durante o governo Roosevelt. Queria ser presidente. Passou a bola para os filhos e com ela a perseguição de Hoover. O alvo maior foi John Kennedy, especialmente quando ele não consultou o FBI sobre a crise dos mísseis de Cuba. "Devo confessar que não me levantei contra a idéia de que o presidente devia ser assassinado", revela o "imaginário" Tolson no livro. E aqui o autor também adere à teoria conspiratória. A mesma visão preside a morte de Marilyn Monroe, amante de John e Robert Kennedy, provavelmente assassinada ao ameaçar pôr a voz doce a serviço do escândalo.

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O ENIGMA DA MORTE DE MARILYN
"Apesar do apego de Edgar por Marilyn, para nós era difícil não prevenir o presidente (John Kennedy) de que a suntuosa atriz andava fazendo ameaças contra ele, dizendo ser capaz de explodir o Estado. Ela previa, além disso, organizar uma entrevista coletiva em que revelaria ao mundo inteiro sua ligação com os dois irmãos. Parece que Bob (Kennedy) lhe propôs, então, uma transação financeira. Embora praticamente arruinada, recusou, num último impulso de orgulho, esse ato de prostituição."