Cultura

Cinderela cresceu

Aos 20 anos, Sandy rejeita a fama de pobre menina rica e ícone das virgens e pela primeira vez fala sobre sexo, mentira e amores proibidos

A partir deste verão, Sandy Leáh Lima
vai deixar de ser conhecida apenas como a parte mais comportada da dupla Sandy e
Junior. Protagonista do filme Acquária, uma superprodução de R$ 9 milhões, que estréia
no dia 12 em 300 salas de todo o País, ela encara uma aventura no estilo O senhor dos anéis. Com direito a cenários futuristas, efeitos de computação gráfica e figurinos especiais, a produção narra a história de um mundo devastado pela ação predatória do homem. Em meio ao caos, somente o reino de Acquária guarda reservas de água. Na pele de Sarah e Kim, os filhos de Noely e Xororó vão ter de libertar o príncipe Gaspar (Emílio Orciollo Neto) de uma maldição e, assim, salvar o planeta. Mas para quem pensa que a fita é apenas um conto de fadas, com direito a roupas de seda, jóias e beijos no príncipe no final, vai um aviso: a cantora, agora, veste o papel de vilã.

Tal mudança de script, de certa forma, reflete seu momento atual. Aos 20 anos, a intérprete de Imortal cansou de ser vista como uma bonequinha de luxo, que não bebe, não transa e não fala palavrão. Mais madura e com uma impressionante boca de lábios carnudos, ela cumpre o roteiro de uma adulta. Fez terapia, tirou carteira de motorista, namorou escondido, passou a curtir a noite e até tomou porre. Também trocou Paulo Coelho por livros de psicologia e passou a ouvir gente como Elis Regina, Cássia Eller, Ben Harper, Eva Cassidy e Norah Jones.

Depois de vender 13 milhões de discos, ela e o irmão tiveram humildade para percorrer a Europa e os países do Mercosul como artistas iniciantes com o álbum Sandy & Junior (o “e” comercial é apenas para a carreira no Exterior), que vendeu modestas 500 mil cópias. Sem nenhum abalo no ego, em outubro passado os cantores lançaram no mercado nacional
o CD Identidade – que traz a faixa-tema de Acquária – e emplacaram
300 mil cópias, um número igualmente pequeno considerando os dois milhões de Quatro estações. “A dupla Sandy e Junior já teve seu boom”, reflete a cantora. Agora, afirma, é hora de fazer o que gostam, do jeito que bem entendem. Numa entrevista de três horas, no Studio Mega, em São Paulo, Sandy falou a ISTOÉ sobre estas mudanças. Além da tão decantada virgindade, abordou questões como o machismo dos pais, amores não-revelados e, é claro, Acquária.

ISTOÉ – Nos últimos meses, você parece ter saído do casulo. Foi a shows de Maria Rita, Coldplay, Ivete Sangalo. O que mudou?
Sandy –
Agora vou mais para a balada, porque tenho mais vontade. Nesses dois anos, me aconteceram mais coisas que em 18. Aprendi
a administrar a minha vida. Dirijo meu carro, janto fora, vou à praia,
visito as pessoas que eu gosto. No dia do show do Coldplay, levei meu ex-namorado, Lucas (da Família Lima), sem ficar me importando com o que as pessoas iriam pensar.

ISTOÉ – Enquanto você esteve fora da mídia, surgiram outras estrelas da música, como Maria Rita. Tem medo de ter perdido
o trono?
Sandy –
Admiro o trabalho da Maria Rita e fico feliz por ela. Não há motivo para eu ter ciúme. Nem dela nem da Wanessa Camargo ou da Luiza Possi. Assim como meu pai na música sertaneja, eu trilhei um caminho na música jovem. Não é porque outras fazem sucesso que eu vou perder o meu lugar. Primeiro, não há nenhuma outra dupla jovem com 13 anos de carreira. Tivemos um boom quando vendemos dois milhões de CDs e fizemos shows para 1,2 milhão de pessoas. Agora, o auge passou. Restou o público jovem, que permanece fiel.

ISTOÉ – Você já pensou que o fato de cantar em dupla pode
limitar a sua carreira?
Sandy –
Acho que limita um pouco, sim, mas também traz vantagens.
Há meninas de até 12 anos que gostam da gente porque querem
ser a Sandy. Já as de 13 para cima são loucas pelo meu irmão.
Juntos, agregamos público.

ISTOÉ – Todo mundo acha que você vive numa redoma e que o Junior é livre para fazer o que quiser. É verdade?
Sandy –
Não dá para negar. Meus pais são mais zelosos comigo pelo fato de eu ser mulher. Quando meu irmão fala: ‘Vou a tal lugar’, eles dão OK mais numa boa do que para mim. Na hora de comprar meu carro foi a maior discussão. Em suma, eles não querem que eu faça nada que possa chocar o meu público.

ISTOÉ – Seu irmão tem o mesmo público e Xororó deu uma entrevista dizendo: “Não preciso dar camisinhas pro Junior
porque ele as consegue com os seguranças.”
Sandy –
A nossa sociedade é assim, machista. Talvez meus pais
sejam um pouco machistas. Talvez eu mesma seja. Meu pai fala numa boa que não dá camisinha pro meu irmão, mas garanto que se lhe perguntassem: “E para a sua filha, você dá?”, ele não ia querer responder. É diferente mesmo.
 

ISTOÉ – Você nunca teve
uma conversa com ele
sobre isso?
Sandy –
Disse a ele que não gosto que fale nada dessas coisas de namoro, de vida pessoal. Prefiro que me
deixe responder sozinha. A maneira como ele fala pode reforçar a imagem que as pessoas fazem de mim.

ISTOÉ – Que imagem?
Sandy –
A de que sou uma pobre menina rica. Eu não sou essa bonequinha, essa santinha que vive num mundo cor-de-rosa e
prega a virgindade. Nunca preguei virgindade, entendeu? Nunca
fiz nada com a intenção de ser exemplo.

ISTOÉ – O que pode ter contribuído para isso?
Sandy –
De certa forma, eu correspondi a esse estereótipo. Além de
ser muito caseira, não sabia dizer não. Se um repórter me perguntava
se já havia dado meu primeiro beijo, em vez de dizer que isso era
assunto meu, eu respondia. Sem ter como me preservar, abria várias coisas ou acabava contando mentiras.

ISTOÉ – A Sandy, então, conta mentiras.
Sandy –
Muitas. Meu primeiro beijo não aconteceu quando eu tinha
16 anos e não foi com o Lucas (da Família Lima). Foi com 14 para 15,
na festa de formatura da oitava série. Beijei um menino da minha
classe, com quem convivia há tempos. Namoramos durante um ano e
dois meses, em segredo.

ISTOÉ – Você tem permissão para dormir com namorados na
sua casa?
Sandy –
Não gosto de fazer isso. Seria desrespeitoso com os meus pais. Também não tenho cara de chamar um menino para ir a um motel, porque tenho vergonha e meus seguranças teriam de ir junto. Oportunidade para fazer em outros lugares eu já tive e tenho. Eu escolho se quero ou não.

ISTOÉ – Já fez terapia?
Sandy –
Sim. Comecei há dois anos, porque tinha vontade de me conhecer mais. Como quero fazer faculdade de psicologia, achei que a terapia poderia ser uma forma de introdução ao curso. Ela me ajudou a trilhar o caminho certo para que as pessoas vejam em mim o que eu quero que elas vejam.

ISTOÉ – Alguém já te ofereceu drogas?
Sandy –
Já tive contato com pessoas que fumam ou fumaram maconha e isso não mudou nada na minha relação com elas. Só não quero para mim.

ISTOÉ – Não tem gente que te desafia a fazer essas coisas?
Sandy –
Tem gente que fica torcendo para eu soltar mais a franga e
fica feliz em ver que eu estou conseguindo. Antes, eu não sentia
falta, mas agora tenho vontade de sair mais, ir para a balada e
dançar a noite inteira.

ISTOÉ – Você já tomou um porre?
Sandy –
Já. Foi num réveillon, quando eu, meu pai, meu irmão e mais uns dez amigos fizemos um vira-vira. Quis tomar um porre de propósito, para saber como era ficar bêbada. Foi muito engraçado: todo mundo enjoado, cambaleando. Uma hora eu estava rindo, outra chorando, culpada. Tomei sete doses de caipirinha e ainda misturei vinho e champanhe. Para quem só costuma beber Smirnoff Ice e umas taças de vinho tinto, fui longe demais. Minha fala ficou igual, mas o meu estado era deplorável. Naquela noite, eu e minhas amigas viramos companheiras de vaso sanitário.

ISTOÉ – E esse corpinho, é conseguido à base de dieta?
Sandy –
Que nada! Como pra caramba! Minha família diz que tem uma anaconda morando na minha barriga. Como de tudo: carne, frango, salada, iogurte, barra de cereal, queijo quente, bolo de chocolate. Meço 1,58m e peso 40 quilos.

ISTOÉ – Passando para o filme. Por que se chama Acquária?
Sandy –
Queríamos uma história que rendesse um filme grandioso, do tipo O senhor do anéis, Moulin Rouge ou Waterworld. Então, a diretora (Flávia Moraes) veio com o roteiro de Acquária. No passado, esse era um reino feliz onde existia água em abundância. Até que um dia, por causa da ganância das pessoas, os deuses se enfurecem e fazem com que o filho do soberano vire uma estátua de gelo.

ISTOÉ – Fábulas que falam de duendes, elfos e forças da natureza nem sempre soam críveis. Tem medo de não ser levada a sério?
Sandy –
Claro que é uma opção arriscada, mas resolvemos bancar. Não tinha certeza se a gente ia dar conta de fazer tudo o que esse filme exigia, mas confiei na diretora e na equipe de produção.

ISTOÉ – Em termos musicais, sua avó Mariazinha e seu avô Zé do Rancho cantavam música caipira. Seu pai e seu tio também. Por que você não virou sertaneja?
Sandy –
Quando começamos, a gente queria cantar, não importava o quê. Como meu pai produzia nossos CDs, todos tinham sertanejo. Mas de uns dez anos para cá, fizemos as nossas escolhas. Minha avó virou fã, mas, para o meu avô, a música das nossas vidas vai ser sempre Maria Chiquinha (risos).

ISTOÉ – Afinal, você já perdeu sua virgindade?
Sandy –
Nos últimos cinco anos tive quatro namorados e fiquei solteira por apenas seis meses. Posso dizer que tive várias oportunidades de fazer o que quis. Conheço os métodos anticoncepcionais e nunca fiz nenhuma loucura. Se eu transei e com quem é coisa que nem a minha mãe sabe. Esta é primeira e última vez que falo sobre isso. Cada um
que pense o que quiser.