Cultura

Gravidade zero

Mostra reúne no Rio de Janeiro 37 obras do venezuelano Jesús-Rafael Soto, cujo estilo soma magia e leveza através de efeitos óticos

Fotos: Divulgação

Por meio de uma construção rigorosa, Soto cria volumes virtuais como Esfera theospácio (destaque, à esq.) e Trapézio

Quem folheia um livro do venezuelano Jesús-Rafael Soto, considerado um dos mais importantes artistas plásticos latino-americanos vivos, pode não se impressionar tanto com a singularidade de sua obra abstrata. Mas são raros aqueles que não saem fascinados do contato ao vivo com seus trabalhos, especialmente o ainda inédito Esfera theospácio, de 2000. Varetas de aço pendem de uma base circular de três metros de altura, pintadas de branco, cinza e amarelo. Visto de longe, o leve arranjo de linhas dá corpo a uma enorme esfera virtual branca e amarela. Basta, contudo, se aproximar da bola suspensa para experimentar uma indescritível e delicada dança de cores. Curador da mostra Soto: a construção da imaterialidade, que estréia na terça-feira 25 no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, e segue em abril para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, Paulo Venâncio Filho explica o estilo mágico do venezuelano. “Seu objetivo é que a obra se transforme de acordo com a posição do observador, com inúmeros pontos de vista.”

Soto pretendia brindar os visitantes com sua presença na inauguração, mas até a quinta-feira 20 os organizadores estavam tensos com a notícia de que o artista, de 82 anos, estaria gravemente doente, em Paris. A mostra exibe 37 peças das mais importantes fases do artista, da década de 1950 a 2002. Uma sala reúne a produção histórica, dos anos 1950 e 1960, a exemplo da pintura Metamorphoses, além de exemplares da Coleção Cisneros – uma das mais importantes da América Latina – e da Galeria Nacional de Caracas. Como Hélio Oiticica, autor de instalações que mexem com todos os sentidos ao ser “penetradas” pelo visitante, o venezuelano tem também seus Penetráveis. “Soto usa elementos suspensos, como fios de náilon, enquanto Oiticica trabalhava com planos, formas e cores”, compara Venâncio Filho, que selecionou para a mostra um Penetrável do Museu de Arte Contemporânea da USP, restaurado para o evento.

Trabalhos dos anos 1960 e 1970, pertencentes a instituições e colecionadores brasileiros, são exibidos em outra sala, onde vale destacar a criativa série Escrituras. Na terceira fica a produção mais contemporânea, de 2000, como Esfera theospácio e Ovale moutarde, esta também inédita. Todas confirmam o propósito do artista em “tomar o material e convertê-lo de elemento rígido em vibratório, levando a uma possível desmaterialização conceitual e ótica.” O ineditismo de seu estilo é direta-
mente proporcional à singular trajetória. Soto fez incursões nas belas artes em seu país e, ao chegar em Paris, em 1950, aos 27 anos, não falava uma palavra em francês. Como uma traça, devorou dicionários e uma farta bibliografia sobre arte construtiva, tendência antinaturalista marcada pelas formas abstratas e geomé-
tricas. No ano seguinte, baseou seus primeiros trabalhos em repetição e progressão. Era o pontapé inicial da proposta de romper os limites do quadro. Em 1953, usou, pela primeira vez, a sobreposição de dois planos, um opaco e outro transparente. A ousadia gerou o chamado quadro-objeto, um evidente avanço da pintura sobre o espaço.

A investigação de Soto sobre o tridimensional começa na experimentação dos fenômenos luminosos. Os trabalhos com três dimensões também passam a costurar a maior parte de sua obra, mesmo quando aparecem como elementos de uma pintura, a exemplo de Ambivalências. Soto mergulhou em suas pesquisas até que, em 1955, participou de uma coletiva na Galerie Denise René ao lado de nomes como Alexander Calder, Marcel Duchamp e Victor Vassarely. A primeira individual aconteceu no ano seguinte, na mesma galeria. Foi quando revelou aquele que se tornaria um dos seus traços mais marcantes: a arte cinética, que capta o movimento através dos efeitos óticos. Um dos primeiros exemplares no estilo é a pintura Trapézio, na qual a vibração ótica nasce da superposição de duas superfícies. Mas sua inquietação vem de longe. Aos 12 anos, em sua cidade natal, Ciudad Bolívar, o artista subiu em uma árvore para ler A divina comédia, de Dante Alighieri. O livro o deixou angustiado e o levou a questionar que forma teria o Criador. “Descobri que Deus era pura luz – energia – sem corpo material.” Coincidência ou não, a luz acabou determinando o que sua obra traz de mais original.

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