Comportamento

Entre o glamour e a raiz

Resgate de canções antigas e crescimento de blocos de rua dividem a atenção com o luxo do sambódromo carioca

Fotos: Renato Velasco

Exuberância: O brilho da fantasia encanta a morena Regina, da Caprichosos de Pilares

Além do talento dos sambistas, o Carnaval da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, é feito de glamour e números superlativos. Para 2005, as escolas de samba gastaram R$ 56 milhões, a venda de ingressos chegou aos R$ 34 milhões e 120 mil pessoas passarão pelo sambódromo em dois dias. Sem falar dos camarotes, que competem em sofisticação para receber gente famosa. Mas a festa carioca não vive só de superprodução. Fora da Sapucaí, o Rio volta gradativamente aos tempos em que se dançava e cantava por pura diversão, sem luxo ou holofote. É impossível calcular com segurança o número de blocos e bandas que surgem a cada ano na cidade, alguns com expectativa de arrastar até 30 mil pessoas, como o Monobloco e a Banda de Ipanema. Uma das marcas do Carnaval de rua deste ano é a volta à tradição. A admiração pelo samba de raiz deverá, por exemplo, levar três mil componentes ao desfile do lendário Cacique de Ramos – celeiro de craques como Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Dudu Nobre –, com fantasias desenhadas pelo artista plástico Carlos Vergara. Marchinhas antigas vão embalar, no centro da cidade, os superlotados Cordão do Bola Preta e Cordão do Boi Tatá. Em Ipanema e Santa Tereza, o festejado Rio Maracatu fará seu primeiro desfile no Rio, à base dos tambores pernambucanos.

No reino da Sapucaí, o desfile promete ser novamente deslumbrante. As atenções estão voltadas principalmente para a Beija-Flor de Nilópolis, que em busca do tricampeonato lança mão de sua fórmula vitoriosa: a mistura de criatividade e polêmica. Um de seus carros alegóricos vai se metamorfosear em plena avenida. “O carro vai mudar mais da metade de sua estrutura e se transformar em outra coisa”, explica o carnavalesco Cid Carvalho. Uma manjedoura com Jesus Cristo é garantia de polêmica: a Igreja Católica sempre tenta impedir o uso de ícones religiosos nos desfiles. Para enfrentar a Beija-Flor, as escolas se preparam em grande estilo. Mangueira, Salgueiro e Mocidade Independente estão trabalhando forte, mas as apostas convergem para a Imperatriz Leopoldinense como maior desafiante da atual campeã. A verde-e-branco vai promover o encontro dos personagens das fábulas de Hans Christian Andersen com os de Monteiro Lobato. Na preparação da festa, cada escola gastou pelo menos R$ 4 milhões. O luxo atende à expectativa do público e dos sambistas. “Quando vejo essas fantasias ricas, prateadas, meus olhos brilham”, diz a bela morena Regina Araújo, 24 anos, da Caprichosos de Pilares. “São tão bonitas que transformam qualquer mulher numa princesa”, diz.

Renato Velasco/Paulo Toscano

Tradição: Grupos como o Rio
Maracatu (acima) e o Cacique
de Ramos arrastam multidões

No Carnaval de rua ninguém dá bola para o luxo. Alguns blocos têm fantasias bonitas, mas o objetivo é mesmo a diversão. O Cacique de Ramos vai soltar na avenida Rio Branco seus índios alegres, embalados por sambas seus que se tornaram clássicos, como Vou festejar e Coisinha do pai – este último chegou a ser tocado por um robô americano em Marte, em 1997. O Cacique foi criado em 1961 por três famílias de moradores de Ramos, bairro da periferia carioca. “Das nossas rodas de samba saíram grandes nomes que fazem sucesso nacional”, orgulha-se Ubirajara Felix do Nascimento, o Bira, 68 anos, integrante do grupo Fundo de Quintal e presidente do bloco desde a fundação. “É preciso resgatar os carnavais do passado, e estou sentindo um clima propício para isso”, acredita. Entrar no túnel do tempo é também o objetivo do Cordão do Boi Tatá, criado por jovens universitários que cantam músicas das décadas de 40, 50 e 60. O bloco exige que todos desfilem fantasiados, como nos velhos tempos.

Mais tradicional ainda, o Rio Maracatu toca o ritmo pernambucano e reproduz as danças dos antigos carnavais do Nordeste. O surpreendente é que seu som virou cult entre a juventude da zona sul da cidade e as apresentações na Lapa e em Santa Tereza atraem multidões. Foi criado há oito anos por quatro jovens que voltaram encantados do Carnaval do Recife, dispostos a reproduzir no Rio o que viram por lá. São 22 músicos e dançarinos, com idade entre 20 e 34 anos. “Passávamos o Carnaval em Pernambuco para recolher material de pesquisa. Foram tantos os pedidos que em 2005 vamos nos apresentar no Rio”, conta Jaqueline Martins. Do maracatu ao samba de raiz, a folia de rua do Rio, como se vê, está bem servida.

No Carnaval carioca, não perca
Beija-Flor de Nilópolis– A escola tenta o tricampeonato e seu enredo trata das civilizações jesuíticas das Missões, no Rio Grande do Sul. O excelente samba-enredo deve empolgar os 4,5 mil componentes. Um carro alegórico vai se transformar na avenida. A agremiação desfilará às 3h30 de terça-feira

Cacique de Ramos – O bloco levará à avenida Rio Branco cerca de três mil componentes vestidos de índios. Os desfiles vão acontecer no domingo, na segunda e na terça-feira, por volta de 20h

Unidos da Tijuca – A escola, que até o ano passado era considerada de médio porte, chegou ao vice-campeonato em 2004. O destaque foi um carro que imitava a cadeia do DNA com 123 bailarinos. Para este ano, o carnavalesco Paulo Barros guardou todos os carros a sete chaves. Deve surpreender

Rio Maracatu – Toca e canta toadas de antigos carnavais pernambucanos e vai desfilar do Arpoador até a altura do Posto 9, na praia de Ipanema. Saída às 16h da terça-feira 8

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