Cultura

O delírio perdido de Ford

Na vigorosa onda de documentários, filme conta saga da cidade construída na Amazônia, nos anos 30, pelo pai da moderna indústria automobilística

O barco BM Natureza segue lento, melancólico, lutando para vencer a imensidão do rio Tapajós. São 5h17 e o dia amanhece exuberante no sudoeste do Pará. Após pouco mais de 12 horas de navegação, iniciada em Santarém, tradicional ponto de partida de sonhos e ilusões, avista-se um sinal perdido na imensidão. Os olhos e o raciocínio, ainda lentos, demoram a identificar o que se vê ao longe. Com a aproximação da margem, a confusão aumenta. Seria aquilo uma alucinação ou estaríamos diante de uma utopia tragada pelo tempo e pela floresta? A embarcação chega a Fordlândia. Ali, 77 anos antes, nascia uma cidade idealizada nas profundezas da mente do americano Henry Ford (1863-1947). O pai da moderna indústria automobilística queria se libertar do monopólio inglês do látex e acreditava que de Fordlândia poderia sair a borracha necessária para equipar sua linha de produção. Sem nunca ter posto os pés lá, Ford enterrou na floresta suas ambições e devaneios. Além de US$ 25 milhões, o preço pago pela construção de uma epopéia perdida.

Resgatar a história dessa utopia é o objetivo de Fordlândia, documentário de Marinho Andrade e Daniel Augusto. O filme leva a assinatura da Grifa Mixer, uma das maiores produtoras de documentários do País e, conseqüentemente, uma das responsáveis pelo boom de um gênero que não pára de crescer. “Há um interesse generalizado pela vida real. Esse fato, aliado ao impacto da democratização da tecnologia digital, explica o crescimento”, diz Daniel Augusto, admirador do cinema de Eduardo Coutinho. O projeto, previsto para fevereiro, começou há 12 anos, quando Marinho Andrade tomou conhecimento, por uma nota de jornal, da existência da cidade perdida. Ele começou, então, a pesquisar dados e informações sobre o lugar. Esteve em Fordlândia diversas vezes antes das filmagens. Equipes da Grifa Mixer foram aos EUA em busca de mais informações sobre o delírio de Ford. Até Steven Watts, biógrafo do magnata, foi consultado. “Quando Fordlândia nasceu, o ciclo da borracha já havia acabado no Brasil. Aí surge Henry Ford querendo criar essa Babel tropical. Como nós somos malucos como ele, decidimos que era preciso resgatar essa saga”, diz Marinho. A busca pela precisão histórica trouxe dos Estados Unidos Charles Townsend. Filho de Fordlândia, este tranqüilo senhor de 68 anos, dono de um banco de uma agência só, veio da pacata Grove, no Oklahoma, reencontrar com seu próprio passado. O pai de Charles, um americano que se casou com uma brasileira, era alto funcionário da Ford na cidade. Quando o filho completou 14 anos, mandou-o estudar nos Estados Unidos. De onde nunca mais voltou. Na companhia da esposa, Charles se emocionou ao rever sua antiga babá, América Lobato Conceição, uma das 800 sobreviventes que ainda insistem no sonho Fordlândia, hoje um distrito da vizinha Aveiro. Emoção e tristeza se misturam na fala desse senhor que, apesar do tempo e da distância, não esqueceu o português, a primeira língua que aprendeu. “Rever a senhora que cuidou de mim na minha infância é uma emoção muito grande. Mas não diminui a tristeza de ver como uma coisa tão bonita pode estar assim, abandonada, perdida.”

Além do comovente encontro entre Charles e América, as lentes de Daniel e Marinho captaram imagens impressionantes de uma cidade que em seu apogeu chegou a contar com modernidades inimagináveis para os habitantes dos grandes centros da época. Fordlândia tinha um hospital de primeira linha, onde foi feito o primeiro transplante de pele do País, luz elétrica, escolas com professores vindos da capital Belém, água encanada e até um cinema. Quase tudo trazido dos Estados Unidos. Em 1930, Fordlândia chegou a ter uma população de 2,5 mil habitantes. Veio gente de longe atrás desse Eldorado encravado na selva. Para se ter uma idéia, mais de 20 línguas eram faladas naquela Babel do fim do mundo. Mas o fungo Mycrocyclus ulei, o temido “mal das folhas”, aliado à descoberta da borracha sintética, soterrou esse “american dream” tropical. Mas há quem, quase 80 anos depois, ainda acredite na utopia. O casal Wiliton dos Reis de Freitas e Brígida Izaias vendeu tudo o que tinha em Mato Grosso e resolveu tentar a vida nas terras compradas por Ford nos anos 30. O baixo preço dos lotes na região os levou até ali. Em Fordlândia, eles pretendem plantar e criar gado. Desejam construir um futuro num lugar que parecia encomendado ao passado.

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