Medicina & Bem-estar

Beleza democrática

Iniciativas permitem o acesso da população mais carente a tratamentos estéticos

Fotos: Alan Rodrigues

Esforço: Paloma e Pamela gastaram duas horas de casa até o local onde poderiam receber atendimento gratuito

Certas coisas só poderiam mesmo ser ditas por brasileiros, como a frase: “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, do poeta Vinícius de Moraes. A preocupação estética é marca registrada do Brasil – país da super top Gisele Bündchen –, apesar do enorme abismo social que separa a população. Nesse quesito, as brasileiras são quase todas iguais. A única diferença é o valor do investimento que cada uma pode fazer em tratamentos e cosméticos.

Baseados nessa realidade, governo, organizações civis e empresas estão criando campanhas que, em vez de educação e comida, levam tratamentos de beleza para quem não pode pagar. É uma espécie de inclusão social feita pela porta do cabeleireiro. Um bom exemplo é a rede Senac, que tem projetos desse tipo em quase todos os Estados. Os alunos e os técnicos recém-formados nos cursos de cabeleireiro e manicure oferecem atendimento gratuito em comunidades carentes. Uma das ações, por exemplo, acontece em Cuiabá (MS), numa iniciativa da campanha Voluntários da Beleza. No esquema de mutirão, profissionais ocupam salas de aula e asilos na periferia da cidade para fazer o atendimento. No Rio de Janeiro, o governo do Estado deve inaugurar este ano o Salão de Beleza Hebe Camargo, onde qualquer serviço – de escova a tintura, passando pela manicure – vai custar R$ 1.
Aliki Trianta Fyllou, 27 anos, comerciante paulista, cortou o cabelo de graça na van da Unilever. “Todos os meses separo R$ 15 para cortar as pontas dos cabelos. Além disso, também faço hidratação e depilação. E vou à manicure toda semana para as mãos e a cada 15 dias para os pés. Gasto cerca de R$ 100 por mês nisso tudo, sem contar os cosméticos. Dessas despesas eu não abro mão. Economizo água, energia, tomo banho morno, mas cuidar da beleza é obrigatório. Se a unha não está feita, fico com vergonha e tento não deixar as mãos muito à vista.”

A ONG Moradia e Cidadania, do Distrito Federal, mantém um salão-escola na cidade-satélite de Samambaia. Lá, os preços também são módicos, especiais para quem não pode arcar com esse tipo de gasto. A instalação do serviço foi feita a partir de um pedido dos próprios moradores. “Para formular um programa de geração de renda, fizemos uma pesquisa e descobrimos que as pessoas queriam curso de cabeleireiro e manicure”, conta Adriana Capiberibe, coordenadora do projeto. Os alunos pagam R$ 5 para comprar o material didático e o curso dura nove meses. No final, eles já começam a atender os clientes da região, numa espécie de estágio prático. “A idéia deu certo e o próximo salão já está previsto: será na cidade-satélite de Santa Maria”, comemora Adriana.

Aliki Trianta Fyllou, 27 anos, comerciante paulista, cortou o cabelo de graça na van da Unilever. “Todos os meses separo R$ 15 para cortar as pontas dos cabelos. Além disso, também faço hidratação e depilação. E vou à manicure toda semana para as mãos e a cada 15 dias para os pés. Gasto cerca de R$ 100 por mês nisso tudo, sem contar os cosméticos. Dessas despesas eu não abro mão. Economizo água, energia, tomo banho morno, mas cuidar da beleza é obrigatório. Se a unha não está feita, fico com vergonha e tento não deixar as mãos muito à vista.”

De olho nessa demanda, a Unilever investiu cerca de R$ 10 milhões num salão de beleza itinerante da Seda, marca de cosméticos da empresa. Uma van percorre o Brasil levando um salão completo, com água, cadeiras, duas cabeleireiras e todos os produtos necessários para fazer cortes e hidratação de cabelos. Cerca de 40 pessoas por dia são atendidas gratuitamente. As irmãs Paloma, 12 anos, e Pamela de Carvalho, 14, por exemplo, moram em Guaianazes, zona leste de São Paulo, e foram com a mãe até a Lapa, bairro por onde passou a van e que fica a pelo menos duas horas de onde residem, só para dar um trato nas longas madeixas.

Divulgação/Senac

Trato: Voluntários melhoram o
visual de crianças em Cuiabá

Olhos mais severos podem ver em iniciativas como essas uma ode à futilidade ou uma tentativa de esconder o sofrimento do dia-a-dia. Mas não é nada disso. Ter a oportunidade de ficar mais bonito, de cuidar de si mesmo, é passo importante para ganhar segurança, auto-estima e cidadania. “Os desejos das pessoas são os mesmos, sejam ricas, sejam pobres, só mudam os contextos. Ações sociais de governo e do terceiro setor costumam alimentar o corpo. Mas e a alma? Isso também é importante”, afirma a psicóloga Chris Linnares, de São Paulo. É claro, porém, que não se pode exagerar na vaidade, tenha-se ou não dinheiro. “Quem já tem auto-estima se cuida sem exageros. Quando se ultrapassa esse limite, a vaidade vira remendo para encobrir uma falha mais profunda, que geralmente não se resolve em salões de beleza, mas em consultórios médicos”, ressalva o psicanalista carioca Luiz Alberto Py. De qualquer modo, excetuando-se os casos extremos, todos concordam que um pouco de vaidade não faz mal a ninguém. Pelo contrário. “Há momentos em que devemos abrir espaço para o supérfluo. Ações sociais precisam variar essa cantilena de só comida e educação”, completa Py.

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