Ao ser empossado nesta terça-feira 14 presidente das Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás), o físico Luiz Pinguelli Rosa estará pela primeira vez em seus 59 anos assumindo um cargo governamental. Ao trocar a diretoria da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe), da
UFRJ, pela estatal, ele não estará apenas mudando de lado. Estará trocando a oposição pela situação. A Coppe é, desde sua fundação, nos idos da ditadura militar, uma espécie de trincheira política. Foi contra o acordo nuclear do Brasil com a Alemanha no governo Ernesto Geisel, previu a crise do álcool no período José Sarney e transformou-se em inimigo público de Fernando Henrique Cardoso logo que as privatizações do
setor elétrico começaram a sair do papel.

Chegando ao poder com Luiz Inácio Lula
da Silva, Pinguelli garante que não será revanchista. A reestatização está descartada, mas o setor de geração
de energia não será privatizado, como previsto pelo antigo governo. Crítico feroz da venda de estatais, o novo presidente da Eletrobrás
foi peça-chave no governo de transição. Foi nas dependências
da Coppe que nasceu o programa energético do governo Lula. Afinadíssimo com a ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef,
ele não foi o único acadêmico pinçado para o governo. Seu amigo Maurício Tomasquim, autor de um estudo que calcula o alto grau
de endividamento das empresas privadas do setor elétrico, virou secretário-executivo de Dilma. “Vamos criar um novo modelo elétrico”, anuncia Pinguelli, animadíssimo e ansioso com a nova função. “Não
há tempo a perder, já estamos atrasados”, diz ele, prometendo transformar a Eletrobrás num aliado do Programa Fome Zero.

ISTOÉ – Como o sr. se sente ao sair da oposição
e ir para a situação?
Luiz Pinguelli Rosa –
É um trauma. Não porque eu estivesse na
oposição, mas porque eu sempre estive na universidade. Traumático
é isso, trocar a universidade pelo governo. O meio acadêmico é,
por definição, o espaço onde se deve adotar uma postura crítica.
Mesmo agora que o País elegeu um governo de esquerda, a universidade deve continuar com esse papel. Seria um grave erro se esse
espírito crítico fosse abandonado. Não pode haver adesão total.

ISTOÉ – O governo é novo, mas herdou uma crise velha. Estamos
na iminência de um novo apagão?
Pinguelli –
Não corremos esse perigo. O País está com excesso de energia. Estamos vivendo um período de trégua elétrica. Houve uma redução de consumo, de 25%, devido ao baixo nível da atividade econômica. Por conta do último apagão, o governo que saiu acelerou obras de geradores de emergência. Nossa folga hoje é de 3,5 gigawatts de potência. Por isso, não devemos ter apagão em 2003. Mas bastará
um ligeiro aquecimento da economia para voltarmos a correr perigo.

ISTOÉ – Existe a possibilidade de o governo reestatizar empresas?
Pinguelli –
De jeito nenhum. Mas não daremos continuidade ao
programa de privatização. A Eletrobrás será retirada do programa
nacional de desestatização. O mesmo irá ocorrer com todo o setor
de geração de energia. As privatizações levaram o caos ao setor
elétrico. Foram feitas privatizações ideológicas, além de a venda
das estatais ter sido usada para financiar o governo, ajudando-o
na redução do endividamento. Precisamos mudar esse modelo porque
não funcionou, mas não vamos romper contratos. Vamos sentar
à mesa e negociar. Estamos vivendo uma situação sui generis:
o setor elétrico estatal está bem financeiramente. O que está
mal é o setor privado, que endividou-se excessivamente.

ISTOÉ – O que mudará na Eletrobrás?
Pinguelli –
Pretendo alterar o orçamento da estatal. Estou
pleiteando aos ministros Dilma Roussef (das Minas e Energia)
e Antonio Palocci (da Fazenda) que liberem as restrições impostas
à Eletrobrás. Hoje os investimentos da estatal são computados
como gastos do governo federal, o que afeta o alcance da meta de superávit primário. Se a mudança for aprovada, o investimento da Eletrobrás poderia subir dos atuais R$ 3,2 bilhões para R$ 5 bilhões.

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ISTOÉ – O sr. vai trocar a diretoria da empresa?
Pinguelli –
Não penso nisso de imediato. O processo de indicação da nova diretoria está em curso e deverá ser acelerado, assim como a indicação das empresas coligadas. Não faremos grandes rupturas. O
que precisa mudar é o sistema elétrico brasileiro, não a Eletrobrás.

ISTOÉ – As estatais serão convocadas a ajudar na implantação
do Programa Fome Zero?
Pinguelli –
Seremos um instrumento do Programa Fome Zero. Poderíamos estimular a criação de peixes em barragens, o que criaria emprego e contribuiria com alimentos para a população local, além de estimular a plantação ao longo das linhas de transmissão. Não pretendemos fazer milagre, mas podemos mitigar a fome usando recursos das estatais.

ISTOÉ – O que o sr. pretende levar da Coppe para a Eletrobrás?
Pinguelli –
Projetos inteligentes como fontes alternativas de
energia. Nunca entendi por que o lixo urbano ainda não está sendo
usado na geração de energia. Não existe razão para importarmos patentes solares, podemos perfeitamente desenvolvê-las aqui.
É possível fazer da Eletrobrás um instrumento de desenvolvimento tecnológico e industrial, sem abandonar suas antigas funções.


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