Brasil

Será o plano B?

Virgílio confirma dissidência, a sucessão na Câmara embola e o Planalto não sabe como abafar a rebelião

Ichiro Guerra

Avulso: Em discurso, Virgílio Guimarães abandona o jeito mineiro: “Minha candidatura não é contra ninguém. É uma defesa de partidos mais abertos, com mais democracia interna”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se ofereceu na semana passada para ser o “facilitador” na crise entre Colômbia e Peru, mediando a briga entre os dois amigos presidentes, Álvaro Uribe e Hugo Chávez. Mas o complicador maior está mesmo na selva política de Brasília, onde viceja uma confusão cada vez mais frondosa na eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. A sucessão de João Paulo Cunha (PT-SP), cumprindo o princípio da proporcionalidade que garante o cargo à maior bancada, a do PT, deveria sagrar serenamente o candidato oficial do partido, o também paulista Luiz Eduardo Greenhalgh. Mas o entendimento desandou, com a aparição de um outro candidato na própria base petista, o mineiro Virgílio Guimarães, um nome preterido pela cúpula do PT e adubado nos últimos dias pela unidade utilitária do baixo clero da Câmara, que tem mais interesses do que princípios. E pelo crescente sentimento de hostilidade à hegemonia paulista nos postos de comando no PT e no governo. Na quinta-feira 20, a confusão aumentou com o surgimento de um quinto candidato na briga: o carioca e capitão da reserva e deputado Jair Bolsonaro (PTB-RJ). Ele se soma agora aos outros dois candidatos de oposição, o baiano José Carlos Aleluia (PFL) e o pernambucano Severino Cavalcanti (PP), e aos dois candidatos do PT – o governista Greenhalgh e o dissidente Virgílio Guimarães. Na proliferação de nomes, enquanto a campanha de Virgílio parecia mais viva do que a do companheiro de partido crescia a sensação de que o Palácio do Planalto perdia o controle da sucessão na Câmara. E aflorava a desconfiança de que, ante a ameaça de uma oposição mais abusada, o governo jogaria com um plano B para não perder o terceiro cargo na linha da sucessão: se não emplacar o PT de Greenhalgh, que pelo menos se garanta o PT de Virgílio Guimarães.
Fotos: André Dusek
"Virgílio não representa o PT e os partidos já foram informados disso. O PT não tem dois candidatos". diz José Genoíno, presidente nacional do PT

Fotos: André Dusek

"Virgílio não representa o PT e os partidos já foram informados disso. O PT não tem dois candidatos". diz José Genoíno, presidente nacional do PT

“Virgílio escolheu o caminho dele”, desabafou Lula em Tabatinga, na quarta-feira 19, carimbando oficialmente a dissidência do amigo com quem chegou a dividir apartamento na Constituinte. Naquele mesmo dia, em Brasília, Virgílio abandonou o jeito mineiro e, num discurso de uma hora e com faixa de campanha, rasgou a fantasia de candidato: “Minha candidatura não é contra ninguém. É uma defesa de partidos mais abertos, com mais democracia interna.” Em torno dele, 58 deputados, a maioria desconhecidos, ilustres integrantes do que se conhece como baixo clero, que ele assim rebatizou: “São deputados que têm representação. Um novo clero que desconcerta a tantos e não aceita outro tratamento e ordem que não seja a vontade das urnas.” O ministro José Dirceu, da Casa Civil, quis reagir com mais força, mas a resposta ficou por conta de uma declaração mais medida do presidente do PT, José Genoino, que avisou: “Virgílio não representa o PT e os partidos já foram informados disso. O PT, não tem dois candidatos.” Engolindo a irritação, o Planalto teme tratar Virgílio com a mão pesada que o transforme em vítima – e caudatário de mais votos no plenário.
Fotos: André Dusek      
"O PT tem que arrumar sua economia doméstica. Mas quem faz isso é o presidente do partido, José Genoino", diz Luiz Eduardo Greenhalgh, candidato oficial do PT à presidência da Câmara      
   
Fotos: André Dusek

"O PT tem que arrumar sua economia doméstica. Mas quem faz isso é o presidente do partido, José Genoino", diz Luiz Eduardo Greenhalgh, candidato oficial do PT à presidência da Câmara

Irritação – Greenhalgh reagiu, no mesmo dia, recebendo um documento com a assinatura de apoio de 87 dos 90 deputados do PT. E uma carta aberta do atual presidente João Paulo, que naquele mesmo dia estava em Roma, em audiência com o papa. No jogo medido da Câmara, os dois candidatos petistas tentavam achar a distância certa de Lula – nem tão longe que pareça oposição, nem tão próximo que inspire submissão. Virgílio chegou a Brasília, no início da semana, avisando: “Sou amigo de Lula, fiel ao governo e faço tudo o que o presidente manda.” Tentou várias vezes entregar uma carta explicando pessoalmente ao amigo as razões de seu desafio. “Se for para mandar carta e continuar candidato, use o correio”, reagiu Lula com um auxiliar, irritado pelo fracasso das duas conversas anteriores que teve com o próprio Virgílio. Greenhalgh, com o pé no estribo para catar deputados nos Estados, decidiu mudar sua estratégia: em vez do parlamentar, vai procurar o governador, geralmente mais persuasivo com suas bancadas estaduais e sempre receptivo a uma convivência pacífica com o poder central. Certo de que não adianta mais perder tempo para demover Virgílio, Greenhalgh repassa o problema: “O PT tem que arrumar sua economia doméstica. Mas quem faz isso é o José Genoino.”

Esta é a questão que desnorteia os deputados e insufla a pulverização de candidatos. “Nenhum partido está 100% fechado, nem o PT”, ironiza o deputado José Borba (PMDB-PR), líder do segundo maior partido da base aliada. “Se há dissidência no PT, é natural ter no PL”, ecoa o líder Sandro Mabel (PL-GO), depois de um encontro com Greenhalgh e o comando do PL – o vice José Alencar, o ministro Alfredo Nascimento (Transportes) e o presidente do partido, deputado Valdemar Costa Neto. A inflação de candidatos ameaça um segundo turno na eleição – e uma aliança de opositores, com o petista Virgílio entre eles, pode tornar ainda mais difícil a posição de Greenhalgh.

MAIS LENHA: Na quinta-feira 20, nova surpresa. O carioca e capitão
da reserva e deputado Jair Bolsonaro (PTB-RJ) entra na disputa. Ele se
soma agora aos outros dois nomes de oposição: o baiano José Carlos
Aleluia (PFL) e o pernambucano Severino Cavalcanti (PP)

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