Comportamento

O tempo certo do corpo

Cientistas desvendam os ritmos do organismo e usam as informações para aumentar o desempenho no esporte, no trabalho e até para criar novos remédios

O tempo certo do corpo

Se você precisa se submeter a uma cirurgia, talvez seja melhor marcar o procedimento para a parte da manhã. Mas se o seu caso é fazer bonito no trabalho, reserve as horas do meio até o final da tarde para preparar aquele relatório que o seu chefe tanto aguarda. Dessa maneira, você certamente sentirá menos dor após a operação ou terá boas chances de ganhar mais um ponto na carreira. Essas recomendações não são fruto de batidos livros de auto-ajuda ou de gurus que dizem prever o futuro. Elas são baseadas nas descobertas da cronobiologia, um ramo mais recente da ciência que estuda os ritmos biológicos, sua interação com o ambiente e como o ser humano – ao conhecê-los e respeitá-los – pode aproveitá-los para melhorar o desempenho na vida pessoal, social e profissional.

Até pouco tempo atrás restrita aos laboratórios das instituições de pesquisa, essa nova ciência começa agora a ganhar espaço entre a população com a publicação de livros a respeito do assunto. O mais recente é o Sex sleep eat drink dream, a day in the life of your body (Sexo dormir comer beber sonhar, um dia na vida do seu corpo), de Jennifer Ackerman. Nele, a escritora científica faz uma compilação de vários estudos da área. Lançado no ano passado nos Estados Unidos, o livro está entre os mais vendidos. A autora prevê que seja lançado por aqui dentro de um ano.

O grande segredo do sucesso que o assunto faz entre os leigos é justamente o fato de a cronobiologia estar decifrando para o homem um mecanismo que lhe é inato, importantíssimo para o bom funcionamento do corpo e da mente, mas que até então era pouco conhecido. Pode parecer incrível, mas só a partir dos anos 90 é que os cientistas – na verdade, os pioneiros da cronobiologia – obtiveram mais detalhes sobre o relógio biológico, o principal astro do mecanismo que sincroniza o vai-e-vem de processos como a temperatura, pressão arterial, freqüência cardíaca e as funções renais e endócrinas com a alternância entre dia e noite.

Os achados feitos a seu respeito denunciam mais uma das belas e complexas engrenagens do organismo. Acionados pela luz, são os ponteiros do corpo que vão coordenar uma cascata de reações bioquímicas que pautarão todas as funções de órgãos e sistemas. É esse relógio, por exemplo, que determina quando um hormônio deve subir em concentração no sangue ou quando deve diminuí-lo a níveis muito baixos. E faz isso regido por uma lógica própria e bastante inteligente, voltada para a adequação da função a ser desempenhada de acordo com a parte do dia ou da noite. Um exemplo claro dessa perfeição é o que ocorre logo após o almoço. Guiado pelo relógio biológico, o corpo diminui a produção de hormônios responsáveis pelo estado de alerta para centrar esforços na fabricação de hormônios importantes para o processo da digestão. "Essa é uma das razões da sonolência típica do período", explica o neurocientista John Fontenele Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e um dos principais estudiosos brasileiros de cronobiologia. Ao mesmo tempo, também sob a batuta do tal relógio, o corpo baixa sua temperatura e envia mais sangue para o sistema digestivo, fechando um pacote que aumenta o sono, mas em compensação mobiliza o organismo para o que, naquele momento, é o mais importante.

É por causa de constatações como essas que os conceitos da cronobiologia têm despertado tanto interesse. Afinal, são informações úteis para definir ações nas mais variadas áreas da vida humana – desde recomendar a melhor parte do dia para fazer um exercício de alta performance até qual o horário ideal para tomar um medicamento. Na Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos, por exemplo, funciona um grupo coordenado por Jim Waterhouse, um dos grandes pesquisadores da área. Neste centro, os cientistas já chegaram a conclusões interessantes, algumas relacionadas ao tempo do corpo e o exercício físico. "O melhor horário para ganhar condicionamento e aumentar a resistência é no fim da tarde e início da noite. Neste período, o alerta e a motivação estão em alta", disse Waterhouse à ISTOÉ. A pesquisadora Leana Araújo, do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício Físico da Unifesp, com quem Waterhouse desenvolve um trabalho em comum, adiciona outra explicação para a escolha do momento para os exercícios pesados. "No final da tarde, a percepção corporal está mais aguçada, o que eleva a rapidez nas reações de proteção para não sofrer lesões", diz Leana.

Outra área que vem se valendo dos dados da nova ciência é a de produção e administração de medicamentos. "Muitas bulas, lidas com atenção, já preconizam horários adequados para o consumo de remédios", afirma o cientista Luiz Menna-Barreto, um dos primeiros do Brasil a estudar os ritmos do corpo. Existe uma droga contra hipertensão, por exemplo, que deve ser ingerida à noite, antes de dormir. Ela foi desenvolvida para apresentar seu pico de ação no começo da manhã, horário em que ocorre boa parte dos infartos. Na França, esse tipo de informação está sendo levado tão a sério que alguns hospitais começam a aplicar remédios em horários específicos para que tenham melhor efeito.

Por lá, as pesquisas básicas também estão bastante avançadas. Um dos cientistas mais destacados é Francis Levi, da Unidade de Cronoterapia do Serviço de Cancerologia do Hospital Paul Brousse, da Universidade de Paris. Ele estuda meios de usar a cronobiologia para a criação de novos medicamentos e a melhor utilização dos já existentes. Ele e sua equipe têm comprovado que os diferentes ritmos do organismo ao longo do dia podem influir na eficácia, toxicidade e tolerabilidade das drogas. Estudos em ratos mencionados por Levi num dos artigos científicos enviados por ele à ISTOÉ mostraram que a mesma dose de um fármaco pode ser letal se administrada em certos momentos do dia ou da noite, mas tem pouco efeito adverso quando dada em outro horário. No ser humano, segundo Levi, a conciliação entre o momento da administração e os tempos dos ritmos gerais e relógios moleculares de cada órgão – estes regidos por genes chamados de clock genes – pode se traduzir em resultados clinicamente relevantes.

No Brasil, também existem estudos sobre o tema em andamento. O fisiologista Mário Miguel, do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento de Ritmos Biológicos da Universidade de São Paulo, estudou a variação ao longo do dia do efeito da ciclofosfamida – droga que reduz a atividade do sistema de defesa para não haver rejeições de órgãos. "Perto do meio-dia seu efeito é maior e mais positivo", conta o pesquisador.

Porém, como qualquer coisa que diz respeito ao ser humano, é claro que há variações individuais nos horários de cada relógio biológico. Embora cerca de 80% da população siga praticamente em um mesmo ritmo, há aqueles que têm seu potencial concentrado na manhã, na tarde ou na noite. São os chamados matutinos ou vespertinos. Para esses indivíduos, ser obrigado a trabalhar ou realizar alguma atividade importante no período em que seu corpo está com o desempenho baixo representa um sacrifício.

A verdade é que viver na contramão do próprio relógio biológico pode ter conseqüências sérias do ponto de vista social, profissional e também sobre a saúde. Estudos sugerem que uma rotina irregular que exija esforços de adaptação intensos e por tempo prolongado influencia no desenvolvimento de diversas doenças, como o câncer. "O desajuste do relógio biológico altera o ciclo de vida das células, predispondo a enfermidades", explica o neurocientista Araújo, da UFRN. No último número da revista Chronobiology International, pesquisadores israelenses publicaram um trabalho cujos resultados vão ao encontro do que diz o cientista brasileiro. Um grupo de estudiosos da Universidade de Haifa constatou que mulheres que vivem em áreas bem iluminadas – portanto, que têm o ritmo biológico alterado pelo excesso de luz – apresentam maior risco de desenvolver câncer de mama. De acordo com os cientistas, tudo indica que a luz interfere na produção de um hormônio importante, a melatonina. Agora, os pesquisadores querem investigar a fundo a associação desta substância com o risco elevado para o tumor. Todas essas revelações começam a desenhar novos caminhos para a organização da vida. A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, já se baseia em dados da cronobiologia para sugerir novas diretrizes no campo da saúde do trabalhador. Afinal, como se vê, ignorar o relógio biológico pode gerar problemas. Se for respeitado, é um grande aliado.

 

Agenda do corpo
Há períodos do dia em que algumas funções estão mais ativadas do que outras. Porém, é óbvio que não há limites rígidos de horários e que há variações – para mais e para menos – de acordo com cada organismo. Além disso, essas regras não se aplicam aos 25% da população que têm atividades em horários irregulares, como profissionais que alternam plantões diurnos e noturnos

GINÁSTICA O hormônio cortisol atinge o nível máximo por volta das 8 horas. Os matutinos estão com a atenção no ponto certo para começar o dia. Quem acorda mais tarde sente maior dificuldade de executar tarefas que exijam atenção. É uma boa hora para exercícios físicos leves, como ginásticas orientais PRESSÃO Os ataques cardíacos são mais comuns neste período, quando há uma elevação súbita da pressão arterial. Há remédios para hipertensão que devem ser tomados após o despertar
BARBEAR A coagulação sangüínea é melhor. Por volta das 8h, as plaquetas do sangue são mais abundantes do que nas outras horas do dia. Boa hora para fazer a barba CIRURGIAS Os matutinos estão no auge. A concentração e a atenção dos vespertinos estão em nível médio em relação ao potencial máximo. É bom período para exercícios físicos moderados, como caminhada. As taxas de endorfinas, que são anestésicos naturais, começam a subir. Sente-se menos dor. Bom momento para ir ao dentista ou fazer cirurgias
MEMÓRIA Por causa da principal refeição do dia, o organismo manda mais sangue para o sistema digestivo e há uma queda da temperatura. Por isso, há sonolência. Não são recomendadas atividades que exijam reações rápidas, como dirigir. Se possível, é bom tirar um cochilo de 20 minutos. Descansa e refresca a memória
ESTUDO A temperatura do corpo atinge seu auge. Essa elevação está associada a maior concentração, memória, atenção visual, destreza e tempo de reação. É o melhor período para realizar trabalhos e tomar decisões importantes e estudar. O fígado também está mais ativo entre 17 e 18 horas. Isso quer dizer que as bebidas alcoólicas são melhor metabolizadas
MALHAÇÃO PESADA A temperatura corporal atinge o auge. A elevação está associada a maior força muscular, metabolismo, flexibilidade e tempo de reação. Continua a fase propícia à atividade cerebral e física. Tempo para exercícios físicos de alta performance, como ciclismo e natação
RELAXAR A tendência é ganhar sonolência e por isso é tempo de relaxar. Os matutinos apresentam alta propensão ao sono e não devem envolverse em atividades que demandem concentração. Os vespertinos ainda conseguem ter bom desempenho
COMER Estudos sugerem que é melhor comer menos proteínas e mais carboidratos – uma sopa de mandioquinha, por exemplo, cai bem. Eles reduzem o tempo que se leva para adormecer depois de ir para a cama ACIDENTE A temperatura atinge seu ponto mínimo entre 3 e 4 horas, com queda da atenção e dos reflexos. É nesse horário que ocorre o maior número de acidentes nas rodovias
ALERGIA Crises alérgicas e de asma são mais freqüentes de madrugada, quando as passagens bronquiais têm seus diâmetros reduzidos, contribuindo para o agravamento dos sintomas. A febre também piora neste período SEXO Bom momento para o sexo. Nos homens, os níveis de testosterona atingem seu ápice no final do sono e começo da manhã, ou seja, entre 5 e 7 da manhã. Quanto mais testosterona, mais desejo. Além disso, nas primeiras horas da manhã é a hora em que o corpo está mais descansado e, portanto, o casal tem mais disposição física.

Produção: L A Braga Junior/Juliana Scchneider Beleza: Adilson Vidal; Assistente: Amazon Ray

Fontes: Mário Miguel, fisiologista, da Universidade de São Paulo; Leana Gonçalves Araújo, fisioterapeuta, do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício Físico da Universidade Federal de São Paulo

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