Brasil

A hora da ação

Time de Lula é heterogêneo e tem imagem de competência, mas terá de fazer milagres com recursos escassos

Fim do treino, começo do jogo. A elogiada habilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na montagem do Ministério passa a ser fundamental, a partir desta semana, para o sucesso do primeiro governo de esquerda da história do Brasil. Num país com recursos escassos e demanda social explosiva, são sempre inevitáveis os confrontos entre
os ministros contratados para fechar o cofre, que já mandaram os colegas cortarem pelo menos 10% dos cargos comissionados, e os escalados para investir o dinheiro público. Manter esses conflitos dentro do previsível e razoável numa democracia, evitando que o campo minado abrigue batalhas desgastantes, é o maior desafio para o comandante de uma equipe tão heterogênea, que vai do ex-presidente do Bank Boston – o tucano Henrique Meirelles, escolhido para o Banco Central
– ao trotskista Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário.

Lula montou um time com imagem de competente e, em sua grande maioria, de difícil contestação ética. Surpreendeu os que esperavam um domínio absoluto dos paulistas e levou a diversidade regional, étnica, social e de gênero à Esplanada. Em vez de ceder nacos do governo à fisiologia em troca da maioria parlamentar, apostou de novo na sua comprovada capacidade de articulador. Ao desautorizar o poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e vetar o acordo fechado com o PMDB, exibiu autoridade e coragem para começar a guerra sem a maioria no Congresso, mas também
S sem arranhões na legitimidade.

Para o cientista político Fabiano Santos, do Instituto de Pesquisas Universitárias do Rio de Janeiro (Iuperj), governar com minoria – experiência vivida por João Goulart, derrubado em 1964, e Fernando Collor, enxotado em 1992 – pode ser perigoso, mas a exclusão do
PMDB “reduziu o risco de o governo se desgastar e perder o controle
dos ministérios”. O professor não considera negativo um ministério pontilhado por divergências. “Criando tensões, o governo extrai
projetos mais sensatos. É importante ser heterogêneo, desde que
o líder tenha capacidade de negociação”, ressalva. Como batismo
de fogo, 2003 reserva momentos cruciais para o novo governo, com orçamento apertadíssimo, uma esperança popular sem precedentes
e a perspectiva de muitas emoções no xadrez do Congresso.

Centro-esquerda – Dos 29 postos de primeiro escalão, 16 ficaram
com o PT, contemplando várias tendências e imprimindo o perfil de centro-esquerda ao governo. Os paulistas são maioria, especialmente
no núcleo, com Dirceu na Casa Civil, o mandachuva Antônio Palocci
na Fazenda, Guido Mantega no Planejamento e Luiz Gushiken
na Comunicação. Mas os gaúchos superaram as expectativas e emplacaram cinco. O amigo e ex-governador Olívio Dutra foi para o Ministério das Cidades. Sua secretária de Minas e Energia, Dilma
Rousseff, foi escalada para a missão difícil de evitar os apagões.

“Lula foi muito hábil ao representar os três Estados que desde
1930 disputam o poder no País: Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande
do Sul”, elogia o cientista político César Romero Jacob, da PUC do Rio,
um estudioso insistente da dimensão regional na política. “Ao contrário
de Fernando Henrique, que chegou à Presidência apenas seis anos
após fundar o PSDB, Lula teve muito tempo para construir um partido nacional. Não cometeu o erro de montar um paulistério, o que gerou reações fortes contra Fernando Henrique. Além desses três Estados,
o Rio também ficou bem representado”, diz Romero.

Miguel Rossetto, outro gaúcho, ficou no Desenvolvimento Agrário, posto de honra da esquerda. Foi um carinho de Lula nos radicais do partido. Rossetto é da corrente trotskista Democracia Socialista, a mesma da barulhenta senadora Heloísa Helena, que promoveu uma confusão daquelas, com direito a choro em público, ao protestar contra a nomeação de Henrique Meirelles para o Banco Central. Para administrar as diferenças do gauchério que escalou, Lula terá de se valer novamente da habilidade. Na
última disputa interna para escolher o candidato ao governo estadual,
o então governador Olívio Dutra e o então prefeito Tarso Genro
chegaram a usar outdoors numa guerra pouco edificante pelas ruas
de Porto Alegre. Os dois voltam a conviver agora em Brasília, com
Tarso na Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Social. Ainda
saiu do Estado para ocupar a Secretaria dos Direitos da Mulher a senadora Emília Fernandes, neopetista com vôo próprio e pouco
afeita às disciplinas e indisciplinas ideológicas do partido.

Além dos quatro integrantes do núcleo do Planalto, sai de São Paulo
o deputado Ricardo Berzoini, ligado a Luiz Gushiken e responsável
por desatar, no Ministério da Previdência, um dos nós mais cegos
das finanças nacionais. Outros quatro paulistas estão em cargos
de grande importância, mas fora do jogo partidário: Celso Amorim,
nas Relações Exteriores; Márcio Thomaz Bastos, na Justiça; Luiz Fernando Furlan, no Desenvolvimento, Indústria e Comércio; e Roberto Rodrigues na Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O fato de não
terem carreiras partidárias não significa que estejam imunes ao campo minado do jogo de interesses que permeia qualquer ministério. O
ministro da Agricultura, militante das exportações e do agrobusiness,
já se manifestou diversas vezes contra o MST, o movimento que
luta pela reforma agrária a cargo do ministro Rossetto.

Se fez a alegria de petistas paulistas e gaúchos, Lula se esforçou
para evitar que os companheiros de Minas se rebelassem contra a escalação de dois conservadores na terra do vice, José Alencar.
No Ministério do Turismo, o deputado Walfrido Mares Guia representa
o polêmico PTB. Para os Transportes, pasta historicamente sacudida
por denúncias de corrupção, foi o deputado Anderson Adauto, do
PL de Alencar. Os petistas mineiros se contentaram em emplacar
o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, e o secretário
nacional dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda.

Pesos pesados – As mulheres nunca tiveram tanto espaço na República. As duas mais emblemáticas, ambas petistas, são a ex-seringueira e senadora Marina Silva, no Ministério do Meio Ambiente, e a ex-empregada doméstica, ex-senadora e ex-governadora Benedita da Silva, na Assistência e Promoção Social. Foram duas das mais aplaudidas na cerimônia de posse no Planalto. Na verdade, só o andar da carruagem
é que vai confirmar as suspeitas dos mais céticos de que elas foram escolhidas como emblemas e não terão força diante do poder do
núcleo econômico paulista. Lula e todos os ministros – inclusive os
das áreas militares – repetem que o social terá mais prioridade do
que o monetarismo. Benedita assume a Assistência Social sem o carro-chefe da política social do presidente, o combate à fome, a cargo do
fiel amigo José Graziano da Silva, economista. Dilma Rousseff é vista
nos corredores maldosos de Brasília como ministra-tampão, sacrificável numa eventual aliança, caso Lula não consiga governar sem maioria, baseado apenas no espírito patriótico do Congresso.

Poucos Ministérios juntaram tantos pesos pesados da política, uma fonte de atritos em potencial. Não é difícil imaginar, por exemplo, os efeitos negativos de um possível confronto entre o comando econômico e Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional, que só poderá brilhar se tiver dinheiro para gastar. O ministro das Comunicações, deputado Miro Teixeira, é outro que já faz planos para investir na inclusão digital, condicionados à generosidade dos homens do cofre. A escolha de Miro foi um parto, devido à resistência do comandante do PDT, Leonel Brizola. Depois de idas e vindas, Lula teve de chamar Brizola para uma conversa, vencendo a oposição do velho companheiro. Também do Rio sai outra possível fonte de atrito. O ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, é do PSB do ex-governador Anthony Garotinho, muito mais interessado em se projetar como alternativa a Lula em 2006 do que
em colaborar. A despeito das promessas de investir no conhecimento para construir uma nação à altura de seu potencial, a renitente falta
de verbas para a Ciência e Tecnologia será sempre um prato cheio
para Garotinho pressionar os socialistas a abandonar o barco. O Rio emplacou outros três nomes de ouro na esquerda: no BNDES, o economista Carlos Lessa, reitor da UFRJ e um dos mais apaixonados ideólogos da auto-estima nacional; na Secretaria de Segurança
Pública, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, adversário de Garotinho;
e, na Telebrás, o festejado físico Luiz Pingueli Rosa.

Na aparentemente pacífica pasta da Cultura, os conflitos já começaram, com a recusa do ministro Gilberto Gil em participar de algumas reuniões com os setores do PT que desde 1989 se dedicam à formulação de projetos para o setor. Gil manifesta resistência em aceitar nomeações
do PT para cargos. Em seu Ministério, como em todos os demais, a escassez de verbas se desenha como o maior obstáculo a uma gestão
de sucesso. Aos que pensam que o governo Lula começa condenado
ao fracasso pelos cofres vazios, o corregedor-geral Waldir Pires, também muito aplaudido na cerimônia de posse, tem usado uma frase para
manter acesa a esperança dos brasileiros: “Se a corrupção e o desperdício forem reduzidos pela metade, vai sobrar muito dinheiro.”
Que faça um excelente trabalho o ministro Waldir Pires.