Brasil

Woodstock da democracia

Multidão de todo o País transforma a posse de Lula numa celebração em clima de paz e amor que lembrou os festivais de música dos anos 60

O sonho de uma vida solidária; a mistura de um público de variadas origens, classes e credos; o clima paz e amor; uma descontraída anarquia; a vontade de mudar os rumos da história. Qualquer semelhança entre o festival de Woodstock e a posse de Luiz Inácio Lula da Silva não é mera coincidência. Como no encontro que simbolizou o auge do movimento hippie em 1969 nos Estados Unidos, as 150 mil pessoas que estiveram em Brasília no dia 1º de janeiro também quiseram dar um recado ao mundo. E conseguiram. As cenas registradas por quase uma centena de câmeras de tevê mostraram que o povo brasileiro – da Silva ou não – chegava ao poder. Pelo menos, era essa a imagem estampada naqueles rostos eufóricos. A multidão se via na imagem de Lula e ajudava a escrever um capítulo importante da saga do retirante que fugiu da seca e conquistou a Presidência da República.

No lugar de empurrões e cotoveladas, ouvia-se “companheiro, com licença, por favor.” Sob o aguaceiro que caía vez ou outra, desconhecidos dividiam o mesmo guarda-chuva. Até os seis mil policiais militares entraram no clima. Nada de cassetetes ou bombas de gás
como em outros tempos. Só pedidos de calma na tentativa de manter
o presidente longe da companheirada. Nenhuma briga foi registrada. Ninguém foi preso. Desde as 7h da manhã já havia gente sentada
nas calçadas por onde passaria o cortejo do presidente. Valia tudo
para guardar o melhor lugar na fila do gargarejo. Para suportar as
longas horas de espera, alguns se muniram de isopor com água e
cerveja e levaram suas cadeiras de praia. Mais tarde, elas serviriam
de degrau para uma vista privilegiada de Lula.

Até o desfile oficial começar, às 14h30,
a atração do visitante ficou garantida pelas apresentações de grupos folclóricos regionais e de artistas consagrados: o ministro Gilberto Gil,
Zezé di Camargo e Luciano, Fernanda Abreu e Neguinho da Beija-flor. Fora
o show à parte protagonizado por anônimos com trajes inusitados. Presentes em todos os pontos turísticos da capital federal, os alegres neobichos-grilos desfilavam com roupas de palhaço, ternos verde-e-amarelo e chapéus enormes. A drag queen Maurício Santana, do movimento GLS do Rio de Janeiro, também deu o ar
de sua graça. José Antônio Conceição, um dos fiscais da dengue
demitido na gestão de José Serra no Ministério da Saúde, levou um mosquito gigante para a posse. “Ele perdeu a eleição, mas eu não
vou deixar de persegui-lo pelo que fez”, promete.
 

Figuras como essas faziam a alegria dos fotógrafos amadores. Aliás, as câmeras eram tão comuns quanto os acessórios vermelhos que a militância usava. Pairava no ar a idéia de que aquele era um momento para ser eternizado. O cenário era qualquer coisa ou pessoa com as quais pudessem provar que estiveram lá. Os poucos desprovidos de equipamentos tiveram de se contentar com os botons e camisetas com a inscrição “Posse de Lula presidente – Eu participei dessa mudança”. O celular foi o último recurso para causar inveja em quem preferiu passar o Ano-Novo em outro lugar. Centenas de telefones foram levados ao ar quando as sirenes anunciaram a passagem do Rolls-Royce preto de Lula, numa tentativa de transmitir a emoção, ao vivo, para quem ficou fora da festa.

Lágrimas, gritos e acenos para o novo presidente. No desfile, a
ânsia de chegar perto da comitiva transformava pessoas comuns em fanáticos. O professor Pedro de Lira, de Juquitiba (SP), furou o
bloqueio e agarrou o pescoço de Lula. Um susto para a segurança.
O presidente, por pouco, não se desequilibrou e caiu para fora do
carro. “Não me controlei. Se eu tivesse pensado, nunca faria isso”,
disse o professor. A coragem também estava na iniciativa dos que subiram em árvores e mastros para acompanhar o cortejo. Nem os
tetos dos banheiros químicos foram poupados em busca do melhor
ângulo. Embalada pelo bordão “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, a multidão não se conteve e invadiu a pista gritando “Liberdade!” na frente
da imponente cavalaria militar dos Dragões da Independência.

A ousadia maior, no entanto, ainda estava para acontecer. Num ato surpreendente, as pessoas tomaram o gramado em frente ao Congresso Nacional – uma área que até então estava restrita. Ali o presidente deixou o Rolls-Royce para subir a rampa do Legislativo. Em questão de minutos, o espaço proibido estava dominado pela massa vermelha. Dali para a invasão do espelho d’água foi, literalmente, um pulo. Era o povo chegando ao poder, de um modo bem brasileiro e sem perder a ternura. O lago de proteção do Congresso se transformou numa piscina. E nada de os guardas reagirem. Bem que tentaram, mas a situação ficou incontrolável. Conclusão: centenas de banhistas se divertiram na água até o final do dia. O clima paz e amor já havia contagiado a segurança oficial. Teve companheiro que resolveu soltar rojões a menos de 100 metros de Lula.

Ideologia – Não só o novo presidente ficou vulnerável aos ataques frenéticos dos admiradores. Os chefes de Estado de Cuba e da Venezuela também foram alvo de manifestações para lá de calorosas. Fidel Castro, sem o habitual traje militar, era a personalidade mais aclamada depois de Lula. No final da cerimônia, o líder cubano foi cercado por um grupo de fãs entusiasmados. Um deles, o cientista político Daniel Queiróz, de Belém do Pará, jogou sua boina à la Che para Fidel autografar. Solícito, o cubano atendeu o pedido, usando as costas de um segurança como apoio. “Um terço da população no mundo passa fome. Nenhuma dessas pessoas mora em Cuba. Nem o autógrafo do Lula teria tanta importância
para mim”, comentou Daniel, eufórico. Manifestações ideológicas estavam por toda a parte. Toda
a forma de engajamento valia a pena. No meio da festa,
bandeiras de clubes de futebol e faixas de entidades
religiosas dividiam o espaço para saudar Lula.

Na festa da democracia, as minorias também marcaram presença. Indígenas, negros, deficientes físicos – com direito a espaço
privilegiado em frente ao parlatório – e, claro, uma enorme bandeira
do arco-íris, símbolo do movimento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais
e transgêneros). Nem todos, porém, pregavam apenas paz e amor.
O bordão mais repetido era um protesto contra o governador
reeleito do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB).

Entre as palavras de ovação a Lula, a multidão gritava: “Fora Roriz!” e “Roriz, ladrão, roubou a eleição”. O governador, que concorreu nas eleições com o petista Geraldo Magela, é o maior adversário do PT local.

A maior parte dos grupos organizados
era de sindicatos, associações e partidos
de esquerda, formados por pessoas que
há décadas sonhavam em ver a oposição chegar ao poder. Um deles era o ambientalista Zezinho do Araguaia, 65
anos, sobrevivente da guerrilha do Araguaia – movimento rural armado contra a ditadura liderado pelo PCdoB, entre 1972 e 1975,
e do qual também participou o presidente
do PT, José Genoíno. “Teremos muita dificuldade no começo, mas estou
preparado para continuar lutando”, garante. Zezinho, que mora em Goiânia, é filiado ao PCdoB há 46 anos: “Sonho com isso há muito tempo e nada me faria perder este momento.”

Família – Das centenas de caravanas vindas dos mais remotos cantos do País, a mais festejada foi a que trouxe 17 primos de Lula de Caetés, terra natal do presidente, no sertão de Pernambuco. Os integrantes da trupe, que viajaram 40 horas de ônibus, acabaram virando o centro das atenções. Na impossibilidade de chegar perto de Lula, muita gente se contentou com os parentes, que distribuíram centenas de autógrafos e posaram para fotos. Apenas três primos
do presidente conseguiram entrar no Palácio do Planalto para assistir
à cerimônia oficial. Mas, se a maioria deles não falou com o presidente, conseguiu um aceno de Fidel Castro. De plantão em frente ao hotel
onde o cubano estava hospedado, o grupo entoava: “Fidel,
cabra da peste, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver.

Já os visitantes anônimos contaram com o auxílio valioso do diretório regional do PT no Distrito Federal, que semanas antes do dia 1º disponibilizou um serviço de 0800 para prestar informações sobre estadia e transportes. Mas com ou sem a ajuda do PT, milhares de pessoas pelo Brasil, militantes ou não do partido, se organizaram para chegar na capital, fosse de ônibus, carro, avião, bicicleta e até a pé. Só no dia da posse, chegaram de carro a Brasília cerca de 40 mil pessoas, segundo a Polícia Rodoviária Federal. Os que vieram dias antes tinham várias opções de hospedagem: dos hotéis cinco estrelas aos acampamentos improvisados em plena praça pública. Os mais aventureiros desembarcavam na cidade sem ao menos saber onde iriam se instalar. A Universidade de Brasília (UnB) ofereceu abrigo gratuito a estudantes, que amontoaram seus colchonetes no palco do Centro Comunitário, uma lona armada no campus. Entre eles estava André Corazza, estudante de história da Universidade Federal de Minas Gerais, que trocou um réveillon sofisticado em Copacabana, no Rio, por Brasília. “Meus pais foram e eu preferi ver a posse. Eles disseram que é coisa de ‘juventude engajada’, mas eu acho que é coisa de cidadão”, justificou André.

A caravana de 60 moradores da favela Entra Apulso, da região metropolitana do Recife, conseguiu prestigiar o presidente gastando pouco, cerca de R$ 100 por pessoa. Com barracas armadas ao lado da Catedral de Brasília, eles trouxeram camisetas feitas pela comunidade para vender aos turistas. Humberto Ferreira dos Santos, líder da associação dos moradores da favela, não temia ver o acampamento retirado do local proibido. “A polícia aqui está do nosso lado”, disse.
“Um guarda até ofereceu a casa dele para a gente ficar e tomar
banho e metade da turma já foi para lá”, contou. Nove entre dez
turistas chegaram em Brasília de ônibus, mas o Aeroporto Juscelino Kubitschek teve intensa movimentação. O número de pousos
e decolagens aumentou 50% no dia da posse.

Passageiros mais abonados, como o comerciante Nazareno Araújo, não pouparam gastos. Araújo desembarcou na cidade com a mulher e os três filhos, vindos de Igarapé-Açu, no Pará, depois de viajar três horas de avião. Ele flagrou todos os detalhes da festa com uma filmadora digital, apesar de não ter votado em Lula. “Eu não simpatizava com ele até há pouco tempo, mas hoje votaria sem pensar. A simplicidade dele me conquistou”, explica. Os parentes de Jacilene Monteiro, professora nascida em Manaus que mora em Brasília há
15 anos, também pagaram caro para assistir à posse: cada passagem aérea custou cerca de R$ 1.200. Para quem saiu de ônibus dos
Estados da região Sul e Sudeste e passou dois dias num hotel simples,
o custo médio foi de, pelo menos, R$ 300 por pessoa, fora as despesas com alimentação. A família Andrade veio completa para a festa na caravana que saiu de Balneário Camboriú (SC). O pai, o microempresário Antônio Andrade, gastou cerca de R$ 2.500 para levar a mulher e os
três filhos. “Dava para fazer uma bela viagem. Mas réveillon na
praia a gente tem todo ano, e a posse é só uma vez”, resume.

Sacrifício – Pior que passar a festa de fim de ano longe da praia é brindar a virada dentro de um restaurante no meio da estrada. Foi assim o réveillon dos 80 metalúrgicos que deixaram São Bernardo do Campo na tarde do dia 31 de dezembro. O champanhe foi estourado na rodovia Anhanguera, próximo a Ribeirão Preto (SP). Por ironia, a caravana parou no mesmo bar onde estacionou o caminhão que trazia de Brasília parte da mudança do ex-presidente Fernando Henrique. A gozação foi inevitável. Não faltaram, aliás, encontros de caravanas nas rodovias que dão acesso ao Distrito Federal. Em Três Marias (MG), os passageiros do ônibus onde estavam Fernando Máximo e Fabiano Tamiatti comemoraram a virada em grande estilo. “Todo mundo se conheceu na viagem e foi uma festança. Uma mulher sacou um peru, a outra levou uma farofa e teve um sanduíche que passou de mão em mão”, conta Fernando.

A paciência do militante continuou sendo testada no dia da posse, sobretudo na hora de andar pelo empurra-empurra próximo ao Congresso e ao Palácio do Planalto. A organização do evento pecou ao isolar essas duas áreas do corredor da Esplanada dos Ministérios. Sem ambulantes por perto, quem ficou por lá não conseguiu comprar água, comida e muito menos a imprescindível capa de chuva. O pipoqueiro que lá apareceu teve seu estoque de milho de um dia inteiro devorado em menos de 20 minutos. Mesmo famintas, pessoas com os rostos queimados pelo sol
da manhã e as roupas encharcadas pelas chuvas da tarde mantiveram
-se sorrindo à espera do discurso do presidente no parlatório – o penúltimo ato da cerimônia. O desfecho da festa da posse ficou
por conta do passeio de Lula já com a faixa presidencial. De novo,
a multidão se esmagou para acompanhar o cortejo. Valia a pena
qualquer sacrifício pelo presidente. Como o ministro Gil já havia
cantado em seu show, nos versos da música Pau-de-arara,
de Luiz Gonzaga, Lula também penou. Mas ali chegou.