Medicina & Bem-estar

Terapias divertidas

Acampamentos tornam-se recursos cada vez mais usados no tratamento de crianças e adolescentes com diabete, hiperatividade e doenças de pele

Uma maneira diferente e divertida de tratar crianças e adolescentes portadores de várias enfermidades ganha força na medicina. São os acampamentos, muito parecidos com os organizados nas férias por diversos estabelecimentos. Os pequenos passam uma breve temporada em um lugar bonito, cheio de opções de brincadeiras e clima descontraído. E aproveitam para aprender mais sobre as doenças das quais são vítimas e conhecer as melhores formas de lidar com as limitações, os inconvenientes e as dores que aumentam o sofrimento.

Uma das iniciativas mais bem-sucedidas é coordenada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia. Os encontros são realizados em uma fazenda em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo – o próximo foi programado para ocorrer no feriado prolongado de 15 de novembro. Participam crianças de nove a 13 anos com várias enfermidades, entre elas psoríase, vitiligo e dermatite atópica. Essas doenças influenciam a aparência. A psoríase manifesta-se por meio de manchas vermelhas na pele. Já o vitiligo tem o efeito contrário (surgem manchas brancas), enquanto a dermatite se caracteriza pelo aparecimento de placas avermelhadas. Não é difícil imaginar, portanto, a dificuldade em conviver com marcas como essas, em especial para uma criança. “Elas ficam segregadas porque as pessoas acham que o problema é contagioso, quando não é”, conta o dermatologista Samuel Mandelbaum, coordenador do projeto.

Estima – Durante cinco dias, os pequenos recebem informações sobre as enfermidades, brincam, praticam esporte, se divertem. Ao mesmo tempo, são incentivados a cultivar a auto-estima, entendendo, por exemplo, que o mundo é feito de diversidade. No final, o tempo passado com médicos, monitores e psicólogos – todos voluntários – revela-se precioso. “Elas conseguem se relacionar melhor com outras crianças, são capazes de explicar aos outros a sua doença e aceitam o problema com mais tranqüilidade”, explica Mandelbaum. O programa deu tão certo que está sendo expandido. Em julho, ocorreu o primeiro acampamento para adolescentes. A estudante Winny Dias, 17 anos, que já havia freqüentado os eventos para crianças, participou do encontro. Ela sofre de uma doença que provoca a descamação da pele e já passou por muitas situações desagradáveis. “Tem gente que acha que é contagioso. Comecei a explicar o que tenho e ganhei segurança. Antes, tinha poucos amigos. Hoje, são muitos”, conta. Agora, os organizadores procuram ajuda para aumentar o número de participantes.

Os resultados dos acampamentos para diabéticos também são animadores. Em São Paulo, eles são organizados pela Associação de Diabete Juvenil e acontecem nos finais de semana. Na pauta, muita informação e diversão. Isso tem ajudado os adolescentes, que tendem a se enxergar como diferentes e a se isolar. Com o apoio de médicos, nutricionistas e psicólogos, eles entendem, por exemplo, que podem levar uma vida normal, tomando cuidado com os excessos. “Eles constatam que a diabete não impede a diversão”, afirma a nutricionista Fernanda Castelo Branco. Foi o que aconteceu com o estudante Vagner de Lima, 23 anos. Ele descobriu que era diabético dez anos atrás. A primeira reação foi de revolta. “Não conseguia assimilar”, lembra. Dois anos depois, conheceu o trabalho da associação. “Mudei minha forma de ver a doença. Hoje, meço as taxas de açúcar e de insulina no sangue sem constrangimento e levo minha vida normalmente”, diz.

O recurso do acampamento também tem sido útil no tratamento do transtorno de hiperatividade e déficit de atenção (TDHA). Por enquanto, trata-se de uma estratégia usada nos Estados Unidos ainda não aplicada por aqui. Os benefícios, segundo os idealizadores, são muitos. “As crianças desenvolvem habilidades no esporte, são estimuladas a fazer mais amigos, a resolver seus problemas do dia-a-dia e a organizar melhor a rotina”, informa Bart Hodgens, professor de Pediatria na Universidade do Alabama (EUA), uma das instituições promotoras de encontros do gênero. Outro ganho importante é o fato de muitos desses eventos contarem com a presença dos pais. É uma oportunidade para que eles entendam a dinâmica de uma criança com o distúrbio e estabeleçam, junto com o filho, um cotidiano mais tranqüilo. É claro, no entanto, que os acampamentos não são a solução definitiva e tampouco a única. “Eles diminuem o sentimento de rejeição, de fracasso, mas jamais podem ser vistos como o componente fundamental de um tratamento. São uma ajuda acessória”, ressalva o psiquiatra Marcos Romano, coordenador do Ambulatório de TDAH da Universidade Federal de São Paulo.