Comportamento

109 dias de tortura

Biografia do militante Eduardo Leite, o Bacuri, revela a agonia do prisioneiro que permaneceu mais tempo sob violência ininterrupta da ditadura militar antes de ser morto

109 dias de tortura

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VÍTIMA
Bacuri sequer conheceu a filha, Eduarda, fruto de
sua relação com Denise Crispim (abaixo)

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Em agosto de 1970, depois de um mês de prisão no Departamento de Ordem Política e Social, o temido Dops, Denise Peres Crispim foi retirada às pressas da cela para dar uma volta. Ela tinha motivos para acreditar que, mesmo grávida de sete meses, aqueles poderiam ser seus últimos momentos de vida. “Todas as vezes que eu saía, achava que podia não voltar”, disse Denise à ISTOÉ, em sua primeira entrevista para um veículo de comunicação após mais de 40 anos de silêncio. Cercada por quatro policiais, de olhos vendados, foi empurrada para dentro de um automóvel. Poucos minutos depois, o carro parou. Puxada com força para fora, Denise ouviu um portão abrindo, entrou na casa, passou por uma porta e subiu a escada. Em seguida, os algozes giraram seu corpo várias vezes e só depois retiraram a venda. “Você sabe quem sou?”, perguntou o homem postado diante dela. Denise respondeu que não. “Sou o famoso Fleury”, respondeu o delegado Sérgio Paranhos Fleury, torturador obstinado e com um histórico de morte de prisioneiros sob seus ombros. Ele então apontou uma porta e deu uma ordem: “Seu marido está naquela sala”, disse. “Entra lá porque ele se recusa a comer e falar antes de te ver. Você tem um minuto.” Denise viu o marido, o militante de esquerda Eduardo Leite, conhecido como Bacuri, sentado atrás de uma escrivaninha e com as mãos algemadas em cima da mesa. As lágrimas vieram de imediato. Bacuri tinha hematomas e queimaduras por toda a pele. Tocaram-se as mãos e, quando Denise se levantou para que ele sentisse o bebê na barriga, Fleury entrou: “O minuto acabou”, disse o delegado. Arrancada da sala, Denise pressentiu que aquela seria a última vez que veria o marido, prisioneiro que permaneceu mais tempo sob tortura ininterrupta da ditadura militar – foram intermináveis 109 dias de sofrimento antes de sua execução.

A história descrita acima jamais havia se tornado pública e poderá ser conhecida em detalhes com a leitura da biografia “Eduardo Leite Bacuri”, de autoria da jornalista Vanessa Gonçalves, que será lançada oficialmente no sábado 18 pela Plena Editorial. O livro, antecipado com exclusividade à ISTOÉ, joga luz sobre a intensa vida do mineiro de Campo Belo, de origem simples e que desapareceu nos porões do regime militar aos 25 anos de idade. Além de Denise, a autora entrevistou 40 ex-militantes que a ajudaram a construir a trajetória de um dos personagens mais instigantes dos anos de chumbo. Bacuri participou dos sequestros do cônsul japonês Nobuo Okushi e do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben, que imediatamente o colocaram no topo da lista dos inimigos da repressão.

Embora cubra toda a curta vida de Bacuri, a biografia destaca o período crucial de sua existência – os 109 dias de prisão e torturas. A via-crúcis começou no dia 21 de agosto de 1970, na cidade do Rio de Janeiro. Desesperado para libertar sua mulher, que estava presa há um mês na Operação Bandeirante (conhecida como Oban), ele viajou à capital carioca para organizar o sequestro de um diplomata. De acordo com o livro, Bacuri foi traído por Artur Paulo de Souza e Jorge Zuchowski, colaboradores dos militares infiltrados na Frente de Libertação Nacional que passaram informações sobre o seu paradeiro. Foi Fleury em pessoa que o algemou em uma rua do bairro da Gávea. Dali foi imediatamente levado para a primeira sessão de pancadaria em um centro clandestino de São Conrado. Depois, encaminhado à delegacia de Vila Rica, em São Paulo, para que Fleury pudesse continuar o serviço sujo. O militante ainda retornou ao Rio de Janeiro, passando pelo presídio da Ilha das Cobras. Mais tarde, foi transferido para São Paulo, dessa vez para a Oban, que se transformaria no famigerado DOI-Codi.

No Dops, Bacuri passou por uma experiência incomum – e macabra – mesmo para os padrões da ditadura. Ali, depois de massacrado fisicamente, ele leu sua sentença de morte. No sábado 26 de outubro, os jornais noticiaram a morte de Joaquim Câmara Ferreira, militante da Ação Libertadora Nacional, e afirmaram que Bacuri havia sido levado da prisão para fazer o reconhecimento do corpo. Nessa operação, segundo as publicações da época, Bacuri tinha conseguido fugir e desapareceu. Ao ver a notícia impressa nos jornais, ele teve a certeza de que jamais sairia vivo da prisão – era o álibi que os militares precisavam para assegurar que Bacuri não estava sob jugo da ditadura e, sim, foragido. A triste ironia da história é que ele sequer andava. Graças à violência dos policiais, apenas quatro dias depois de ser preso o militante perderia para sempre o movimento das pernas. Sua morte foi lenta. Segundo relato de um soldado, Bacuri foi executado no dia 8 de dezembro de 1970 (leia quadro à pág. 74), no forte dos Andradas, no Guarujá, em São Paulo.

Não é difícil entender por que a prisão de Bacuri era como um troféu para os militares. Ele começou sua militância política na Polop, depois esteve entre os fundadores da Vanguarda Popular Revolucionária e, mais tarde, fundou a Rede Democrática (Rede), todos grupos que não poupavam meios para enfrentar a ditadura. Em seu currículo constam ações de extrema ousadia. Ao saber que a mulher grávida tinha sido presa, ameaçou sequestrar e matar o comandante do Segundo Exército de São Paulo. Em uma ligação para o DOI-Codi, diante da desconfiança da voz do outro lado da linha, mandou que um parceiro fizesse uma provocação: “Pergunte ao comandante se ele sabe de um fusquinha vermelho no qual ele vai visitar a amante.”

Bacuri não conheceu a filha, Eduarda, que tinha um mês e meio quando ele morreu. Assim que deu à luz, Denise ganhou liberdade condicional. Em 1972, diante das seguidas ameaças, ela fugiu com a criança para o Chile e depois se mudou para a Itália, onde as duas permaneceram por mais de 30 anos. Hoje, aos 40 anos, Eduarda vive na Holanda e é restauradora de obras de arte. Denise Crispim retornou no início do ano para o Brasil, desta vez em definitivo. Mas o medo persiste – ela não revela em que cidade vai morar. “Eu fiquei marcada para o resto da minha vida”, diz. 

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