Edição nº2505 15.12 Ver edições anteriores

Yin Yang

Numa noite fria de inverno carioca, uma dupla improvável se formou

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A dupla pouco provável da foto tem mais contrastes do que pode parecer. O branco careca nasceu na Flórida numa família de classe média com muitos problemas. Se virou e encontrou no mar o caminho que o levou a ser reconhecido como um dos maiores atletas de todos os tempos no planeta. Kelly Slater, além de dez vezes campeão mundial de surfe e uma das figuras mais carismáticas da cena esportiva mundial, arranha um violão, um ukelele e, na noite em que essa foto foi feita, acabara de ganhar seu primeiro cavaquinho, justamente do negro cabeludo que aparece ao seu lado. Para quem foi abduzido e passou os últimos anos em outro planeta, o cara se chama Seu Jorge e é certamente um dos maiores talentos que a música brasileira produziu nas últimas décadas. Com uma infância bem complicada, que inclui passagens seríssimas de violência na família, Seu Jorge chegou a viver nas ruas do Rio, até encontrar na arte a sua via. Teatro, música e, mais recentemente, cinema. Em comum entre os dois fotografados, aliás, além do encantamento pela música, participações em alguns filmes de longa metragem. Importante dizer que, em termos de talento como ator, Seu Jorge vence o duelo com facilidade e deixa Slater se afundando. É justo mencionar que Slater nunca alimentou pretensões maiores nas artes dramáticas. Participou em geral, de filmes de surfe, documentários sobre a própria vida ou dando consultoria e dublando um dos principais personagens na animação “Tá Dando Onda”. Na música, também é Seu Jorge quem leva dianteira total e absoluta. Na sinuca e na arte de fazer pizzas, parece que Slater vai melhor. No surfe, covardia mencionar. Ainda que Seu Jorge largasse tudo e se matriculasse na escolinha de surfe do Rico, seriam necessárias mais duas ou três encarnações para que ele conseguisse perder com alguma dignidade.

No golfe também não tem para o americano. Na simpatia, o páreo é duro. Foi o que disseram os poucos presentes a essa jam session que rolou até as três da manhã. Entre eles, o anfitrião, dono da casa e apresentador Luciano Huck, sua mulher, Angélica, Maria Gadu, que cantou e tocou com a dupla, o surfista australiano Jesse Faen, autor de uma das únicas imagens do encontro, que você vê aqui na coluna com exclusividade, o ator Cauã Reymond e o fotógrafo carioca Vavá Ribeiro, amigo íntimo de Slater que organizou a bagunça.

Há quem diga que, por conta das baladas e dos dias à vontade que curtiu no Rio, Slater teria perdido o foco e a bateria (não, não o instrumento de percussão… “bateria” é como são chamados os rounds de uma competição de surfe), dando chance à vitória histórica e ao inédito primeiro lugar brasileiro no ranking mundial, conquistados por Adriano “Mineirinho” de Souza na etapa carioca do campeonato mundial de surfe. Pouco provável se tivermos em conta que levar a vida de forma leve, sem deixar de curtir e se relacionando com as pessoas de igual para igual, sempre foi arma importante no arsenal que levou Kelly Slater ao lugar nobilíssimo que ocupa hoje no esporte e no imaginário coletivo mundial. Algo que, com certeza, soou como música para o novo parceiro Seu Jorge.

A coluna de Paulo Lima, fundador da editora Trip, é publicada quinzenalmente


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