Brasil

A Classe operária vai ao paraíso

Presidente do Conselho do Sesi, Jair Meneguelli roda a Europa com uma comitiva digna de comissão diplomática

A Classe operária vai ao paraíso

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MILHAS
Depois de Lisboa e Madri, Meneguelli agora vai para Paris e Roma

Jair Meneguelli e Luiz Inácio Lula da Silva foram companheiros de militância sindical no ABC paulista no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Estiveram na porta de fábricas, lideraram greves históricas e ajudaram a derrubar a ditadura militar. Meneguelli seria eleito presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em 1983, enquanto Lula enveredava pela vida política que o levou à Presidência da República. Nomeado pelo poderoso amigo, Meneguelli mantém-se na presidência do Conselho Nacional do Sesi (Serviço Social da Indústria) há oito anos. Com direito a carro e gabinete de luxo em Brasília e salário batendo no teto constitucional. Desde o ano passado, no entanto, decidiu rodar o mundo para divulgar seu trabalho. No fim de novembro do ano passado, esteve com uma comitiva de dez pessoas em Lisboa e Madri por dez dias, em seminário de combate à prostituição infantil. Este ano, Meneguelli promoverá novos eventos em Paris e Roma. O tema é o mesmo, assim como o tamanho da entourage.

A justificativa para as viagens pelas capitais europeias é a promoção do projeto ViraVida, de estratégias de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. O que não se explica é por que o presidente do Sesi precisa estar acompanhado de dez pessoas para fazer uma simples apresentação de um projeto em um seminário internacional, algo corriqueiro para qualquer executivo ou pesquisador. Até agora, foram realizados seminários internacionais, entre os dias 29 e 30 de novembro de 2010, no Palácio de Congresos y Exposiciones de Madrid, na Espanha, e nos dias 2 e 3 de dezembro do mesmo ano, no Centro de Informação Urbana de Lisboa. Parte dos custos da viagem foi paga pelo Banco Santander e pela companhia aérea portuguesa TAP. Para este ano, estão programados novos eventos internacionais, um em Paris e outro em Roma. Meneguelli já está recrutando a volumosa equipe que vai acompanhá-lo na viagem a dois dos maiores centros turísticos mundiais.

Depois da passagem pelo movimento sindical, Meneguelli teve uma carreira discretíssima como deputado federal, de fevereiro de 1995 a janeiro de 2003. Tentou um voo mais alto, disputando a eleição para prefeito de São Caetano do Sul em 2000, mas foi derrotado já no primeiro turno. Nas eleições de 2002, não conseguiu a reeleição, ficando como suplente de deputado. Mas não ficou no sereno, como se diz no jargão político. Lula chegou à Presidência da República e nomeou o amigo para a presidência do Conselho Nacional do Sesi. Com as atitividades inerentes ao cargo vieram as tradicionais mordomias. Meneguelli tem direito a carro de luxo em Brasília, mora num luxuoso flat. Seu gabinete ocupa uma sala no prédio da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o mais moderno do Setor Bancário Norte.
Ele sucedeu Leonor Franco, mulher do ex-senador Albano Franco, também ex-presidente da Confederação Nacional de Indústria (CNI). O cargo era decorativo, mas Meneguelli deu uma boa turbinada na entidade. Sua desenvoltura surpreende o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR). Os dois foram deputados no mandato de 1999 a 2003. “É evidente que tudo aquilo que eles discursavam enquanto sindicalistas contra o Sistema S – que isso tirava dinheiro do trabalhador, encarecia a folha, que era um esquema de luxo – mudou. A prática, agora, é de tirar proveito, ou seja, de buscar mordomias inerentes ao sistema que eles condenavam”, ataca Bueno. Sobre os eventos internacionais, ele comenta: “Esses seminários podem ser apenas um esquema de fachada para justificar viagens.” Excelentes e agradáveis viagens, por sinal. 

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