Comportamento

Turismo de inclusão

Agências investem em viagens para deficientes físicos que incluem rafting e rapel e até guias preparados para carregá-los no colo

Turismo de inclusão

Assista à entrevista com Ricardo Shimosakai :

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DESBRAVADORES
Shimosakai em canoa em Itacaré (BA), e Adriana, carregada de liteira, na Chapada Diamantina (BA)

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Ricardo Shimosakai sempre foi do tipo que adorava fazer as malas e se aventurar pelo mundo. Mas, aos 24 anos, sofreu um sequestro-relâmpago, levou um tiro e ficou paraplégico. Preso numa cadeira de rodas, encontrou forças para superar as suas limitações físicas exatamente no prazer de viajar. Hoje, quase 20 anos depois da tragédia, é o nome brasileiro à frente de um movimento internacional para a inclusão de deficientes físicos no turismo. Cada vez mais, governos, organizações não governamentais e órgãos do setor se preocupam em tornar hotéis, restaurantes, meios de transporte, guias locais e cidades inteiras mais bem preparados para receber esse público.

Shimosakai é o diretor da Turismo Adaptado, uma empresa que monta e vende pacotes de viagem para deficientes, que vão desde passeios convencionais até experiências de ecoturismo e esportes de aventura, além de oferecer consultoria e treinamento para profissionais da área. “Ao montar as minhas viagens, depois de ser recusado numa agência convencional por causa da minha deficiência, notei um interesse de pessoas nessa situação, e percebi que isso poderia ser uma oportunidade de trabalho”, diz o empresário, que desde o acidente já visitou dez países e se aventurou em atividades como salto de paraquedas, rafting e rapel.

Parte dos deficientes não quer apenas conhecer destinos convencionais com hospedagem, transporte e atrações preparados para recebê-los. Desejam também alcançar lugares de difícil acesso e pouca infraestrutura, até mesmo para quem possui plenos movimentos corporais. Isso quer dizer que, além de visitar cidades como Paris, Londres e Nova York – as mais adaptadas do mundo –, a ideia é que este viajante possa conhecer lugares mais selvagens, como Fernando de Noronha, no Brasil, ou sítios arqueológicos, como Machu Picchu, no Peru. Entusiastas do movimento do turismo adaptado explicam que não sonham com rampas de acesso em trilhas selvagens ou patrimônios da humanidade, mas desejam melhores condições para alcançar esses locais. “Não podemos descaracterizar a região, ainda mais quando é um destino ecoturístico”, diz Adriana Braun, 34 anos, cadeirante desde os 15, autora do guia virtual para deficientes físicos “O Viajante Especial”, que agora começa a organizar viagens para o público.

Quando trabalhava numa agência de ecoturismo, Adriana treinou guias para lidar com os cadeirantes. “Muitas vezes, o deficiente precisa ser carregado porque não há como a cadeira de rodas passar”, diz ela, que já foi levada no colo, de cavalinho e de liteira. “É importante que guias locais estejam treinados para transferi-lo de sua cadeira para barcos ou canoas, ou para transportá-lo num terreno cheio de obstáculos.” Shimosakai e Adriana chegaram a locais como Machu Picchu e Chapada Diamantina (BA), respectivamente, com ajuda humana, por exemplo. “Pode-se dizer que, no ecoturismo, o homem tem de se adaptar ao meio, inclusive a pessoa com deficiência”, diz o empresário. A adaptação também é necessária na prática de esportes radicais. Ao saltar de paraquedas, por exemplo, Shimosakai precisou que suas pernas fossem amarradas para evitar distensões musculares. São pequenos ajustes que tornam sonhos realidade.

 
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