É mais ou menos como no poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, em que fulano amava sicrano, que amava beltrano, etc. Só que, na versão tucana, o amor virou ódio. O presidente Fernando Henrique Cardoso está à beira de um ataque de nervos com o governador do Ceará, Tasso Jereissati, que resolveu abrir guerra contra o candidato de seu partido à Presidência, o ministro da Saúde, José Serra, que, por sua vez, atribui à cúpula do PSDB a responsabilidade pela encrenca em que se meteu. Resultado: o ninho dos tucanos transformou-se num ninho de cobras. O auge da guerra aconteceu no dia 19 de dezembro, em um bate-boca durante jantar no Palácio da Alvorada, que quase acabou em pancadaria. A brigalhada só foi revelada esta semana e resultou numa nova crise.

O presidente queria acertar com os caciques do PSDB o nome de Serra como candidato. Convidou Tasso e o governador do Pará, Almir Gabriel, para jantarem com os ministros Pimenta da Veiga (Comunicações) e Aloysio Nunes Ferreira (Justiça). Antes de sentarem à mesa, Tasso começou a reclamar do tratamento que recebera dos aliados de Serra. Foi quando o ministro da Justiça tentou acalmá-lo. Tasso atacou:

– Você, Aloysio, não venha posar de estadista francês! Você não! Isso é safadeza, molecagem. Você diz que não toma partido na disputa com o Serra, mas vive plantando notinhas nas colunas de jornal a favor dele e contra mim.

– Você me respeite! Tenho história – devolveu Aloysio.

– Sei bem qual é a sua história! Enquanto eu fazia das tripas coração para eleger esse aqui em 1994 (indicando o dedo para FHC), você rodava o Brasil de braços dados com Quércia – arrematou Tasso.

O diálogo foi revelado pelo jornal Correio Braziliense, na terça-feira 8. Caiu feito uma bomba no Planalto. Como saiu apenas com os trechos que interessavam a Tasso, FHC atribuiu o vazamento ao governador do Ceará. Uma testemunha da baixaria revelou a ISTOÉ que o ministro Aloysio não esteve tão passivo quanto na versão inicial:

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– Onde você quer chegar? Você acha que eu tenho medo de você. Safado é você, seu safenado filho da puta! Não tenho medo de você. Te dou uma porrada e você morre.

Os dois levantaram-se para brigar e foram contidos por Almir Gabriel. O vazamento do bate-boca precipitou o anúncio da candidatura Serra. A direção do PSDB, orientada por FHC, marcou o lançamento da candidatura para esta semana. Uma missão vai tentar pacificar o partido. Na segunda-feira 14, o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), desembarca em Fortaleza para tentar evitar a dissidência formal de Tasso. Informalmente, todos já dão Tasso como engajado na candidatura de Roseana Sarney (PFL). Os tucanos querem adulá-lo para constrangê-lo a apoiar publicamente a pefelista.

A cúpula do PSDB ficou irritadíssima com o prefeito de Vitória, Luiz Paulo Velloso Lucas, cotado para coordenar a campanha de Serra, que anunciou Roseana como a principal inimiga do PSDB. FHC deu seu recado a líderes tucanos: “Não podemos considerar Tasso um adversário nem Roseana nosso alvo.” Apesar de Serra ser sua opção número um, FHC não descarta a hipótese de mudar de rota, caso o ministro não se viabilize eleitoralmente até maio. Este é o prazo dado a Serra. Para evitar o pior, os presidentes do PMDB, Michel Temer, do PSDB, José Aníbal, e do PFL, Jorge Bornhausen, fizeram um pacto de não-agressão durante encontro em São Paulo na quinta-feira 10.

Para pressionar Serra, FHC determinou que os 14 ministros políticos entreguem os cargos até 20 de fevereiro. O recado foi dado ao ministro Raul Jungmann, da Reforma Agrária, após ele anunciar sua candidatura às prévias do PMDB. FHC escalou Jungmann para evitar no PMDB uma debandada pró-Roseana. Mas o ministro não combinou com a cúpula do partido que o desautorizou: “Quem inventou que desinvente”, disse o líder do partido no Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), referindo-se à participação de FHC. Jungmann, que só falou com dirigentes do partido horas antes do anúncio, tentou disfarçar: “Quem pensa que eu sou laranja está muito enganado.” FHC ligou rápido para os chefões do PMDB: “Não tenho nada com isso”, garantiu ao líder Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), que fingiu acreditar. “É uma armação contra a direção do partido”, protestou o presidente do Senado, Ramez Tebet (MS). Mas Jungmann ignorou as críticas e manteve a candidatura.

 


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