Brasil

Ação contra o crime

Para conter a explosão da violência no País, especialistas afirmam serem necessários planejamento e coordenação entre as polícias

Não são poucos os abacaxis
que Fernando Henrique Cardoso
deixa para Luiz Inácio Lula da Silva descascar. A alta taxa
de desemprego, o rombo da Previdência e a crise do setor elétrico são alguns problemas
que o governo que termina
não conseguiu resolver. Mas talvez a pior herança dos
anos FHC seja o crescimento explosivo da criminalidade, que
já toma ares de tragédia. “A segurança é o principal desafio do governo Lula”, reconheceu
o próprio Fernando Henrique.
O IBGE mostra que o número de homicídios cresceu 37% de 1992
a 1999, traficantes de drogas multiplicaram seu arsenal de fuzis
e granadas, as penitenciárias se transformaram em verdadeiros QGs
das quadrilhas e a ousadia dos bandidos chegou ao cúmulo de tirar
o direito de ir e vir de muitos cidadãos. “O balanço desses oito anos
é muito negativo. Simplesmente não houve uma política federal de segurança pública”, critica o sociólogo Luiz Eduardo Soares, um
dos coordenadores do plano de segurança do PT, que vai atuar
no novo governo planejando o combate à criminalidade. O sociólogo acredita que é possível tratar do problema de forma mais eficaz.
“É preciso integrar os vários órgãos federais que cuidam da
segurança, fazer planejamento de médio e longo prazos.”

Pela Constituição, a responsabilidade pela segurança pública pesa
mais sobre os governos estaduais. Mas há importantes atribuições do governo federal que foram praticamente negligenciadas. “É preciso
criar uma coordenação nacional entre a Polícia Federal e as polícias estaduais, que atualmente não existe”, reconhece o delegado Getúlio Bezerra, chefe da Divisão de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal. “O comércio de drogas é globalizado e a atuação da polícia tem que ser uniforme.” Bezerra ficou cinco meses à frente da força-tarefa contra o tráfico e sua equipe conseguiu prender um dos principais traficantes brasileiros, o goiano Leonardo Dias Mendonça, procurado pelas polícias americana e holandesa. Junto com ele, foram presas 24 pessoas e descobertas as possíveis ligações criminosas de políticos, juízes e até mesmo do ministro Vicente Leal, do Superior Tribunal de Justiça. “Esse foi apenas um esboço de ação integrada, feito em poucos meses. Temos que avançar muito.” O sociólogo Soares discorda do discurso recorrente de FHC, que transferia para os governos estaduais
a tarefa de combate ao crime. “Era um álibi para a própria inoperância.
A responsabilidade política sobre um problema tão grave é federal.”

A organização que falta às autoridades sobra aos marginais. As investigações sobre o traficante Fernandinho Beira-Mar e sua turma confirmaram que facções rivais como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando estão articuladas nacionalmente e até internacionalmente.
O tráfico de drogas e armas se intensificou. “Um fato recente é que
até mesmo em pequenos assaltos os bandidos passaram a usar fuzis
e granadas”, constata o chefe da Polícia Civil fluminense, delegado Zaqueu Teixeira. Esse poder de fogo foi demonstrado em atentados contra as sedes da Prefeitura do Rio de Janeiro e do governo estadual
e nas ações criminosas quase diárias em que bandidos armados formam comboios de carros para praticar assaltos – os “bondes”. Crimes assim fazem com que vias de tráfego importantes do Rio, como a Linha
Amarela e a Linha Vermelha, fiquem praticamente desertas à noite.
O delegado Teixeira repete um antigo bordão de seus antecessores
para destacar a responsabilidade do governo federal. “No Rio não
se planta maconha nem se fabricam armamentos.”

O PCC – Em São Paulo, a era FHC viu nascer a primeira grife criminosa de projeção nacional, o Primeiro Comando da Capital. O chamado PCC promoveu vários motins e banhos de sangue nas cadeias.
A criminalidade invadiu áreas nobres, e nos bairros da periferia, onde os moradores pobres convivem há décadas com a violência, a bandidagem ocupou espaços de forma inédita. Nanci Reale, 52
anos, mora desde 1986 no bairro Recanto Campo Belo, localizado no distrito de Parelheiros, um dos mais violentos da capital paulista. “Há
oito anos, a gente colocava cadeiras nas calçadas para conversar durante a noite, dormia de janela aberta. Hoje, ninguém mais bota a
cara na rua quando escurece, com medo”, lamenta ela, que é presidente da associação comunitária local. “Agora, tiroteio é coisa comum, tem muito sequestro relâmpago em troca de R$ 10 e até crianças de 12
anos andam com armas pesadas.” Para proteger sua casa, Nanci
foi obrigada a instalar uma câmera de vídeo na porta.

A criminalidade também cresceu em várias cidades do Nordeste. Na região, um dos problemas mais graves são os assaltos nas estradas, em que bandos armados de fuzis AR-15 roubam e matam motoristas e passageiros de ônibus, carros e caminhões. As áreas mais críticas são as rodovias de Pernambuco, Bahia, Ceará e Sergipe. Um levantamento do Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC) mostra que a média mensal de assaltos a caminhões nesses locais não passava de dez há oito anos e atualmente chega a 40. “Em 1994 eram 26 as empresas que faziam seguro para transporte de cargas. O risco aumentou tanto que hoje apenas quatro seguradoras fazem esse serviço”, afirma Nélio Botelho, presidente do MUBC. Outro Estado conflagrado é o Espírito Santo, onde o crime organizado se infiltrou no Executivo e no Legislativo, a ponto de um grupo de trabalho liderado pelo então ministro da Justiça Miguel Reale Júnior sugerir uma intervenção federal. FHC foi aconselhado pelo procurador-geral, Geraldo Brindeiro, a desistir da intervenção – o que levou Reale Júnior a entregar o cargo. “O crime organizado deve estar soltando fogos de artifício”, comentou, ao deixar o Ministério.

Para o sociólogo Gláucio Soares, do Instituto Universitário de
Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro, o principal nó do combate
ao crime é a baixa qualidade do pessoal que trabalha nesse setor.
Mas com programas específicos ele acredita que se pode obter uma redução das mortes violentas da ordem de um quarto a um terço.
“Como temos 130 mil mortes violentas por ano, isso significaria
entre 30 mil e 40 mil vidas salvas”, contabiliza. “Dói saber que esse
tipo de ação foi feito em outros países e poderia ser feito aqui,
mas não é. São brasileiros morrendo inutilmente, por incompetência
e falta de vontade política dos governantes.”