Brasil

Presidente sangue bom

Os brasileiros vão conviver com o estilo Lula: muita conversa, bom humor e persistência... mas ele só faz o que quer

Olhos nos olhos, como cantou seu amigo Chico Buarque, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva analisa o interlocutor. Através do olhar, fala, opina. Pega no braço, aperta a mão com energia, abraça, beija. Reduz distâncias. Com sua voz rouca, conta piadas, deixa todos à vontade. Ri, fecha os olhos e inclina a cabeça para trás. Comenta o resultado do último jogo de futebol, especialmente se for do seu Corinthians. Sempre tem alguma história curiosa para rechear a conversa. É um quebra-gelo. Fala muito, mas ouve mais ainda. E, quando empresta sua atenção ao outro, recosta na cadeira e passa os dedos pelo bigode e pela barba. Costuma falar o que pensa. Se precisar, discorda. Pode ser duro, mas sem agredir. Assim, procura atrair aliados. No meio do povão, ele fica à vontade, para desespero de sua segurança. Para Lula, a política é coisa de pele, mais do que de lábia. O petista vai substituir outro sedutor. As armas de Fernando Henrique Cardoso são a diplomacia e a sofisticação intelectual. Cada um com seu estilo.

O Lulinha Paz e Amor carregou durante muito tempo a pecha de mal-humorado. A imagem era fruto de seu próprio comportamento no passado. Com cenho franzido, muitas vezes parecia dar broncas no povo quando discursava. Em um dos momentos mais hilariantes da campanha eleitoral, Lula fez uma autocrítica durante palestra a estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. “Uma vez no Rio de Janeiro estava discursando, falando que ia fazer reforma agrária na marra. Eu falava com tanta força que até escorria baba”, contou, sob gargalhadas gerais. Duda Mendonça já havia dito diversas vezes que ele teria de ser em público o que de fato é: um homem brincalhão e muito emocional. O conselho do publicitário foi seguido. Lula chorou várias vezes durante a campanha e mais ainda depois da eleição. Para ele, os protocolos estão aí para ser quebrados. Criticado por não ter formação universitária, Lula chorou ao receber do TSE o diploma de presidente da República, no sábado 14. “Pobre do político que não tem a capacidade de chorar e se emocionar em público”, justificou-se.

Testemunhas de seu passado como líder sindical afirmam que Lula sempre foi um homem conciliador e pacífico. Teve muitos adversários, mas não inimigos, daqueles que não pode ver pela frente. “Ele era atrevido, tinha um jeito direto de falar o que pensava, era parecido comigo”, recorda Luís Eulálio Bueno Vidigal, 63 anos, que presidiu a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) durante o período em que Lula liderava o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Atrevido Lula era mesmo. Certo dia, ao saber que o presidente da Fiesp havia se reunido com o comandante do II Exército, Dilermando Gomes Monteiro, ligou para o general. Queria relatar sua versão dos fatos, já que o representante dos empresários havia feito o mesmo. Foram três horas de conversa. O líder operário contou depois que foi tratado muito bem pelo militar.

 

 

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Desafio – Em 1978, Luís Eulálio aceitou um desafio que o metalúrgico havia lançado pelos jornais: o de que um empresário fosse à sede do sindicato negociar. “Quando li o jornal, liguei para ele. No dia seguinte estava em São Bernardo. Conversamos durante oito horas. Lula fez muitas críticas à indústria automobilística. Ele conhecia
o assunto nos seus detalhes”, lembra o empresário, apelidado de “Lula dos ricos” pelo general Golbery do Couto e Silva, ministro-chefe da Casa Civil do governo de Ernesto Geisel. Na saída, o presidente da Fiesp admitiu: “Vocês estão muito mais preparados do que nós para negociar.” Luiz Inácio e Luís Eulálio começaram ali uma longa relação pontuada por um extremo respeito, embora estivessem em campos opostos. “O nosso relacionamento era franco e honesto. Ele nunca foi agressivo. Era duro, um ótimo negociador. Ele não fez inimigos”, conta. Luís Eulálio lembra que Lula sempre foi contra métodos violentos. “Ele dizia para os operários não depredarem o patrimônio das empresas”, recorda. Hoje, presidente da Hewitt Equipamentos, uma empresa de material ferroviário, o empresário revela que votou em Lula nos dois turnos desta eleição. “Foi o voto mais consciente da minha vida porque foi uma mudança”, diz. Para ele, Lula será um presidente paciente, decidido, sem ser dogmático. “Ele tem um autocontrole incrível. Não vai culpar o Legislativo e o Judiciário pelas mazelas do País. Lula é incapaz de fazer uma grosseria, uma indelicadeza. É muito hábil.”

Pizza e guaraná – Mário Garnero, 65 anos, presidente do Grupo Brasilinvest, foi outro que encarou Lula na mesa de negociação. “Ele conhecia profundamente o assunto que debatia. Cumpria os acordos. É pão-pão, queijo-queijo. Tem uma personalidade forte e é um excelente negociador”, conta ele, que na época era presidente da Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea). Garnero recorda que as negociações, alimentadas a pizza e guaraná, chegavam a durar 13 horas. As opiniões de Garnero sobre Lula têm um peso especial: o empresário é amigo do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

“Os dois têm muito em comum: a informalidade, a franqueza e o calor humano”, opina. Durante reunião do Conselho Econômico e Social, com a presença de mais de 100 empresários, sindicalistas e representantes de ONGs, logo depois da eleição, o presidente eleito fez questão de agradecer a presença
de Garnero. Ele conta que, durante o movimento grevista de 1979, negociou com o governo militar a suspensão
da intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos. “Lula exigia que o governo  se comprometesse por escrito. Eu disse
que isso o governo não faria, mas assumi o papel de fiador do acordo. Se o governo não cumprisse a promessa
de suspender a intervenção no sindicato em 30 dias, depois do fim  da greve, eu pediria demissão da presidência da Anfavea”, relatou.

 

 

 

Outra testemunha da época, Maurício Soares, que foi advogado do sindicato, atesta que Lula era um negociador realista: “Ele não rasga dinheiro. Era difícil mudar sua opinião, mas, se o único jeito era recuar, ele recuava.” Hoje prefeito de São Bernardo do Campo, eleito pelo PSDB, Maurício Soares conta que Lula delegava poderes, mas com limites.
“Confia nas pessoas, mas é centralizador. A palavra final é dele”, diz. A persistência e determinação são características que ele puxou da mãe, segundo Frei Betto, um dos amigos mais próximos do presidente eleito. “Sua mãe, dona Lindu, foi muito persistente. Segurou a maior barra para criar oito filhos, sendo analfabeta. Como ela, Lula também tem uma capacidade de fazer amigos que é impressionante”, descreve o frade dominicano. Irmão mais velho
de Lula, o metalúrgico aposentado José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, 60 anos, lembra que ainda garoto, Lula já demonstrava jeito para o diálogo. “Não me lembro de uma briga de Lula com outros moleques. No futebol, ele sempre apartava as discussões, já demonstrava ter liderança, mesmo sendo o mais novo”, conta.

 

 

 

Picadão do Maluf – Mesmo nos 31 dias de prisão, durante a greve de 1980, Lula continuava influenciando a “peãozada” em greve. “A gente precisava fazer algo para fortalecer a disposição de luta e então decidimos decretar greve de fome. Foram quatro dias só bebendo água. Da prisão, Lula mandava bilhetinhos com orientações para os trabalhadores”, lembrou o ex-líder sindical Djalma Bom, hoje com 63 anos, que dividiu a cela com Lula. Foram dias muito duros para Lula, que soube, na cadeia, da morte de sua mãe. “A comida, que a gente chamava de picadão do Maluf (Paulo Maluf era governador de São Paulo), era horrível: arroz, feijão e carne picada. Quando a gente passava o dedo na borda do prato, era só sebo. Eles jogavam sabão dentro do café também”, recorda.

Nessa época, não eram poucos os que achavam que Lula era um perigoso comunista. Luís Eulálio Bueno Vidigal lembra que cansou de tentar convencer seus companheiros de terno e gravata e integrantes do governo de que isso não era verdade. “Lula nunca colocou ideologia na mesa de negociações. Ele era até mais de centro do que de esquerda”, afirma. Djalma Bom confirma isso. “Ele tinha um comportamento que eu chamava de castidade ideológica”, diz. Certa vez, Lula estava no carro com Djalma e pegou no porta-luva o livro Sobre os sindicatos, do líder bolchevique russo Vladimir Lênin. Lula olhou, folheou o livro, guardou-o e disse: “Você tiraria mais proveito lendo o livro Lula, entrevistas e discursos.” Ninguém melhor do que Frei Chico sabe que Lula, no início, tinha aversão à política. “Ele nem queria entrar para o sindicato. Quando abria o jornal, era para ler só esportes. Lula já foi muito cabeça-dura. Hoje não. Amadureceu, né?”, diz o irmão, que chegou a ser preso e torturado por causa de sua militância no PCB. “Me torturaram um dia inteirinho para saber se Lula tinha ido levar uma carta para Luís Carlos Prestes (líder comunista) em Moscou, na sua primeira viagem internacional, em 1975. Mas ele tinha ido apenas a Tóquio participar de um congresso de trabalhadores da Toyota”, relata. “Ele nunca gostou da clandestinidade. Política, com ele, sempre foi às claras. Ainda bem que ele não entrou no PCB. Senão, eles tinham pegado o Lula e ele hoje não estaria aqui”, acredita Frei Chico.

 

 

 

Como Fidel – O presidente eleito cansou de avisar que vai ouvir todos os segmentos da sociedade até a exaustão. A disposição para o diálogo não é uma novidade. Ele sempre foi assim. “Quando ia ao sindicato, demorava horas para chegar à sua sala. Parava para falar com todos e ouvia todo mundo”, conta Djalma Bom. Mas também adora falar, principalmente nos comícios. Não chega a seguir o padrão Fidel Castro de discurso, que às vezes dura sete horas, mas não dispensa um microfone. Certo dia, na campanha, Lula tinha a agenda lotada. Estavam previstos uma visita ao bispo e um comício. Os assessores queriam que ele ficasse cinco minutos na casa do religioso e fizesse um discurso relâmpago. Lula revoltou-se. “Por que vocês colocaram isso na agenda? Se foi marcado, vou fazer direito”, avisou. Ficou o tempo que achou necessário com o bispo. No comício, Lula falou sem parar até que seus assessores, exasperados, fizeram sinais para ele encerrar o discurso porque tinham que pegar o avião. A bronca foi pública. “Meus assessores estão querendo que eu pare de falar, mas eu não vou parar, não. Não adianta insistir”, brigou, olhando feio para seus companheiros. Brincadeiras e broncas pontuam sua relação com os mais próximos. Um dia, veio a revanche. Quando Lula entrou no jatinho, depois de um compromisso de campanha, levou um susto: todos os seus assessores estavam com adesivos do tucano José Serra colados no peito.

Timidez – A emotividade que Lula demonstra também é uma característica antiga. O amigo Djalma Bom lembra que num dia em que Lula estava de baixo-astral convidou-o para ir ao cinema espairecer. Foram ver O campeão,
filme sobre um lutador de boxe aposentado que havia decidido lutar
uma última vez para agradar ao filho.
E perdeu. “Era um filme triste. Quando
as luzes do cinema se acenderam, Lula chorava como uma criança.” Pode não parecer, mas Lula já foi muito tímido. “Com sete anos, ele ia vender amendoim e tapioca junto comigo e não tinha coragem de gritar. Eu brigava com
ele porque assim ele não conseguia vender nada”, lembra o irmão. Os amigos de Lula garantem: ele sempre gostou do contato direto com o povo e não aceita protocolos rígidos. Adora pegar nas pessoas, ficar mergulhado no meio do povo. Dá autógrafos até a tinta da caneta acabar. “O ruim é se um dia não tiver mais isso”, comentou durante
a campanha, quando estava cercado por um grupo de médicos que participavam de um seminário no Hotel Glória, no Rio. A mania dos autógrafos lhe rendeu o apelido de “cantor de rock”, dado por seus assessores, e também alimentou as piadas feitas no programa Casseta
& Planeta
, da Rede Globo. Um dos maiores pavores de Lula é a solidão.
“O contato com o povo é seu oxigênio”, resume Frei Betto.

Sem pompa – O amigo avisa que o próximo presidente tem aversão à pompa. “Durante quatro anos, o País não vai ver recepções a rigor. Ele não gosta de gravata-borboleta nem de smoking”, atesta Frei Betto. Os que vão trabalhar com ele que se preparem para madrugar: Lula costuma acordar entre 5h30 e 6h, mesmo que tenha ido dormir muito tarde. Seus assessores contam que às vezes, nas viagens, Lula era o primeiro a levantar e saía pelo corredor do hotel batendo nas portas de seus quartos. O presidente eleito também não economiza nas broncas quando alguém
não cumpre sua tarefa. Mas as explosões são tão intensas quanto passageiras. Minutos depois, está tudo normal. Lula despeja a emoção, não fica ruminando a raiva. Jacinto Ribeiro dos Santos, o Lambari, 56 anos, amigo de juventude de Lula, diz que por mais bravo que ele esteja não é do tipo de pessoa que desconta no primeiro que passa pela sua frente. “Ás vezes ele está cheio de problemas, com raiva de alguém, mas não deixa de cumprimentar os outros, não briga com quem não tem culpa”, testemunha Lambari, irmão da primeira mulher de Lula, Maria de Lourdes, que morreu de hepatite, grávida de oito
meses. E agora, que vai ocupar o posto mais importante do País, Lula vai mudar? “Se fosse para perder a simplicidade, isso teria acontecido desde que ele começou a ficar famoso, na época das greves. E ele nunca mudou conosco”, responde Lambari, metalúrgico aposentado, que trabalhou como motorista no comitê de Lula nesta campanha. No dia da eleição, nos bastidores da festa que tomou a avenida Paulista, Lula pegou o amigo pelo braço: “Lambari, o que você vai fazer amanhã?” Ele respondeu: “Nada.” Lula brincou: “Pois eu vou encontrar o Bush.”

 

 

 

Barbeiro de Lula há sete anos, Fernando Luís da Silva, dono de um pequeno
salão na rua onde funciona a ONG Instituto Cidadania, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, conhece bem
o jeitão simples do presidente eleito. “Quando tem gente na frente dele
para cortar o cabelo, ele espera, sem problemas. Quando vem aqui, não fala de política, só de futebol, das coisas simples da vida”, conta Fernando, que cobra R$ 13 cortar o cabelo e R$ 7
para aparar a barba e o bigode. Lula, quem diria, já manifestou o sonho de tirar a barba, sua marca registrada. “Um dia vou te dar trabalho”, disse a Fernando. “Mas isso faz uns anos. Nunca mais ele falou em raspar a barba”, diz. Isso sim é que seria mudança radical.

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