Artes Visuais

Muralismo Paulistano

Exposições confirmam vocação do grafite e da arte urbana para os espaços monumentais e os grandes públicos

Muralismo Paulistano

De dentro para fora/ De fora para dentro/ Museu de Arte de São Paulo (Masp), SP/de 20/11 a 5/2/10
Vertigem/ Museu de Arte Brasileira (MAB-Faap), SP/ até 13/12
PAINEL DE RUI AMARAL/ “Buraco da Paulista”, SP/ tempo ilimitado

Seis grandes murais nascem no Masp com tempo limitado de vida.
Pintados por seis proeminentes artistas da “arte urbana” paulistana, os painéis serão apagados dentro de dois meses e meio, no final da exposição “De Dentro para Fora/ de Fora para Dentro”.

Paradoxalmente, no “Buraco da Paulista” (complexo viário que liga as avenidas Paulista e Dr. Arnaldo), o mural do artista Rui Amaral vem sendo restaurado há 18 anos, desde que foi ali pintado em 1991.

O último restauro acaba de ser concluído e teve patrocínio da Prefeitura de São Paulo e de uma empresa de tintas. Uma curiosa inversão se opera aqui: o que deveria ser efêmero, pois nasce condicionado às intempéries da cidade, ganha estatuto de arte oficial. Enquanto a arte de rua, convidada a entrar no museu, já nasce programada para se autodestruir.

Esse tipo de inversão acontece desde que o trabalho plástico de grafiteiros vem sendo assimilado pelo restrito circuito de instituições de arte pelo mundo afora, o que invariavelmente levanta o debate sobre a “domesticação” da arte de rua.

“Grafite para mim só é verdadeiro quando não é permitido; quando autorizado, é um mural, o que é muito válido e necessário”, declarou Rui Amaral durante o restauro da Paulista.

De fato, com a progressiva legitimação, grafite confunde-se cada vez mais com muralismo. Mas Baixo Ribeiro, galerista da Choque Cultural e curador da mostra no Masp, prefere a ideia de uma nova escola de pintura. “Brinco que esta é a Escola Paulistana de Pintura. Uns são mais formais, outros mais expressivos, outros psicodélicos. Escolhemos a pintura porque ela é a expressão predominante da arte de rua brasileira”, diz o curador. Habituados aos grandes espaços urbanos, Zezão, Titi Freak, Carlos Dias, Daniel Melim, Ramon Martins e Stephan Doitschinoff foram convidados a “dominar” a área de 1.500 metros quadrados do Hall Cívico e do Mezanino do Masp.

“Apesar de alguns artistas já trabalharem com tela e nos trazerem obras neste suporte mais tradicional, nós optamos por fazer uma instalação que permitisse expor o grafite num ambiente mais semelhante ao seu próprio ambiente, que é a rua”, diz Teixeira Coelho, curador do Masp.

Os curadores de “De Dentro para Fora…” mostram um bom domínio da área quando se restringem a ocupar o espaço com seis artistas. Isso garante que o público conheça diversos aspectos do trabalho de cada participante e evita que a exposição se transforme em um “salão” de grafite. Além de um mural sobre relevo, Zezão, por exemplo, expõe fotografias e uma videoinstalação com registros de suas intervenções subterrâneas.

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INSPIRAÇÃO Zezão reproduz no museu a pintura urbana

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SUCESSO Instalaçãode OsGêmeos na Faap

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Arte Mural Obra de Rui Amaral completa 18 anos na rua

“O grafite foi o início de tudo. Hoje é importante desmistificar a ideia de grafiteiro. Meu trabalho é mais amplo e está inserido em importantes coleções de arte contemporânea”, diz o artista, que começou grafitando espaços subterrâneos da cidade de São Paulo e, em setembro, pintou as catacumbas de Paris, quando esteve na capital francesa para participar da mostra “São Paulo, Mon Amour”, no espaço Maison des Métallos.

A arte de rua já provou que domina grandes áreas e grandes públicos. No MAB-Faap, a exposição “Vertigem”, da dupla OsGêmeos celebridade do grafite mundial, que já expôs na Tate Modern, em Londres – tem fila na porta e média de 2.015 visitantes por dia. No Masp, “De Dentro para Fora” divulga “a ambiciosa meta de alcançar 150 mil visitantes”. Ainda assim, o curador Teixeira Coelho garante que trazer arte urbana para o museu não é questão de público. “Um museu precisa de espaço para a arte viva e não apenas para o que já é consagrado.”

Mas como reservar a potência da figuração urbana dentro do ambiente protegido do museu? Esta é a pergunta que Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP e professor da faculdade de artes plásticas da Faap, faz no folder de “Vertigem”.

Questão que sempre vale a pena ser refeita.

Colaborou Fernanda Assef
 

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