Brasil

Missão secreta no Peru

Avião da Força Aérea Brasileira sobrevoa território vizinho, age com rapidez e permite o resgate de 70 reféns do Sendero Luminoso

Exatamente às 20h40 da segunda-feira 9 de junho, oito militares da Aeronáutica embarcaram no jato Embraer 145-FAB R-99B, na Base Aérea de Anápolis (GO), com destino a Porto Velho (RO). Era uma missão secreta. Eles não sabiam para onde iriam nem por que estavam voando. Às 23h40, o avião pousou, reabasteceu e só voltou a decolar às 6h10 da terça-feira 10. Três horas e 40 minutos depois, o jato aterrissou na área de uso militar do Aeroporto Internacional de Lima, no Peru. Os militares brasileiros foram recebidos por oficiais da Força Aérea Peruana e só então souberam qual era o objetivo da missão. Os peruanos explicaram que, desde a manhã do dia 9 de junho, 71 funcionários da Techint, uma empresa argentina que está construindo um gasoduto na região de Ayacucho, eram mantidos como reféns, em plena floresta amazônica, de militantes do Sendero Luminoso – grupo terrorista de orientação maoísta. Entre os reféns estavam três suboficiais da Polícia Nacional do Peru e o governo conduzia as negociações. Os terroristas exigiam dinamite, armas e um resgate de
US$ 200 mil para a libertação do grupo. A missão dos militares brasileiros era rastrear toda a região de floresta, procurando interceptar transmissões de rádio e celulares via satélite feitas pelos terroristas
para tentar localizar exatamente onde estavam os reféns.

Às 15h27 o jato da FAB decolou de Lima rumo à região de Ayacucho. A bordo, além dos oito brasileiros, estava um oficial da Força Aérea Peruana. O Embraer 145-FAB R-99B faz parte da seleta frota do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) adquirida há pouco mais de um ano pela Força Aérea. O avião, usado para missões que por razões geográficas não podem ser atendidas por satélites de observação, está equipado para sensoriamento remoto e dispõe de tecnologia de última geração, que permite a sua utilização sob quaisquer condições meteorológicas. Para fazer rastreamentos de ondas de transmissão e captar imagens, o avião conta com Radar de Abertura Sintética (SAR), Scanner Hiperespectral (HSS), Scanner Multiespectral (MSS) e Sensor Ótico e Infravermelho (OIS). São sistemas que operam em faixas de microondas,: infravermelho e visual e permitem o monitoramento de extensas áreas, o que possibilita o controle sobre a região amazônica, não só de seu espaço aéreo mas também sobre o que ocorre em solo, como desmatamentos e queimadas, garimpagem ilegal, assentamento de povos indígenas e movimentação de narcotraficantes, contrabandistas e, é claro, terroristas. “A missão foi secreta, mas serve de exemplo para ilustrar como o Sivam pode funcionar para toda a região e não apenas para o Brasil”, disse um oficial da Aeronáutica no Rio de Janeiro que pediu para não ser identificado. “É importante que o Brasil comece a trabalhar em conjunto com os países vizinhos”, completa o militar.

O resgate – Sobrevoando a zona de Ayacucho, os brasileiros conseguiram interceptar diversos sinais de transmissão de rádio na faixa de VHF. A cada transmissão registrada, era mapeada uma posição. Depois de quase uma hora de sobrevôo na floresta, foi possível identificar com precisão o ponto de onde as transmissões estavam vindo: um acampamento num lugarejo chamado Toccate. Imediatamente, as coordenadas geográficas do lugar foram transmitidas do avião brasileiro para o ministro da Defesa do Peru, Aurelio Loret de Mola Bohmeas, que em terra comandava a ação de militares e policiais peruanos. Com o mapa da mina nas mãos, helicópteros e aviões peruanos passaram a sobrevoar o acampamento. Percebendo que tinham sido descobertos e localizados, os sequestradores usaram a estratégia de libertar um a um os reféns, para evitar um possível ataque. Os integrantes do Sendero Luminoso informavam, via rádio, o nome de cada refém libertado. “Com certeza
eles perceberam que foram descobertos através das ondas de rádio
e usaram isso para se garantir contra uma investida policial”, explicou
o ministro Loret de Mola à imprensa peruana. Os nomes dos libertados eram captados no avião brasileiro. Depois de liberado o último refém,
os sequestradores se dividiram em grupos e fugiram pela mata fechada. “As tropas terrestres priorizaram o resgate dos trabalhadores”,
explicou o ministro peruano.

Às 20h33 o Embraer 145-FAB R-99B pousou novamente no aeroporto de Lima. Ainda no interior do avião, os tripulantes participaram de uma breve reunião com militares peruanos para uma avaliação da missão e receberam numerosos elogios, principalmente pela rapidez com que a ação foi concretizada. Também receberam, via rádio, aplausos do comandante da Força Aérea Brasileira, brigadeiro Luiz Carlos Bueno. Os planos do governo do Peru previam que as negociações com os sequestradores deveriam ser postergadas por mais de 48 horas. Isso porque, a princípio, ninguém imaginava que a missão do Embraer 145-FAB R-99B pudesse ter resultado tão rápido. “As negociações com os terroristas se desenvolveram sob o comando do ministro da Defesa e a proposta inicial era a de ganhar tempo e garantir a libertação de todos com segurança”, contou o presidente executivo da Techint, Daniel Sanmartino, logo depois de os reféns terem sido levados novamente ao acampamento da empresa. Nas primeiras horas do sequestro, Sanmartino ordenou que um helicóptero da Techint levasse alimentos e um telefone de comunicação via satélite a um local determinado pelo Sendero Luminoso. Foi esse telefone que permitiu o rastreamento. Na quarta-feira 11 de junho, o ministro Loret de Mola fez questão de se dirigir ao aeroporto de Lima para conhecer o interior do avião da FAB, antes que os militares brasileiros retornassem à Base Aérea de Anápolis.

Enquanto permaneceram em poder dos terroristas do Sendero, os reféns passaram por inúmeros momentos de tensão. Um dos sequestrados revelou ao Ministério Público do Peru que a primeira abordagem feita pelos sequestradores ocorreu às 5h30. Segundo ele, todos foram conduzidos por cerca de 15 terroristas ao pátio central do acampamento da empresa. “Eram homens e mulheres. Usavam uniformes verdes, bonés e botas pretas e todos estavam armados com pistolas browning e fuzis Fal”, relatou o ex-refém. Ele disse ainda que andaram vários quilômetros por picadas abertas na floresta e que Elza era uma das terroristas mais exaltadas. “A mulher passava o tempo todo gritando. Dizia que não iria nos matar porque éramos trabalhadores e que deveríamos estar na mesma luta, junto com o Partido Comunista do Peru”, lembra. O refém afirmou não ter percebido nenhuma movimentação de policiais ou militares e disse ter ficado surpreso quando os terroristas permitiram que eles voltassem ao acampamento da empresa, sem nenhum tipo de vigilância.

Segredo – A participação da Força Aérea Brasileira na missão de resgatar os reféns do Sendero Luminoso ainda hoje é mantida sob sigilo tanto no Brasil quanto no Peru. Em junho, a versão apresentada pelo ministro Loret de Mola e pelo presidente do Peru, Alejandro Toledo Manrique, ignorou completamente a participação dos brasileiros. “Não se pagou nada, se negociou com os delinquentes terroristas apenas para se ganhar tempo”, disse Alejandro Toledo ao jornal peruano La Republica logo depois da libertação dos reféns. “Só temos elogios para os militares e para a força policial do Peru. Todos foram libertados sem que fosse disparado um único tiro”, afirmou o ministro Loret Mola, posando para fotografias ao lado de alguns dos reféns. Na última semana, por intermédio de sua assessoria, o ministro da Defesa do Brasil, José Viegas, informou que não iria se manifestar sobre a missão da FAB no Peru.

Embora permaneça secreta, a operação da Força Aérea Brasileira não feriu nenhum tratado internacional ou código de ética diplomática. O governo brasileiro foi chamado pelos vizinhos para ajudar na operação de resgate dos reféns e toda a missão em território peruano foi conduzida de comum acordo entre os militares dos dois países, inclusive com um oficial peruano a bordo do avião brasileiro. “Não maculamos a soberania do Peru sobre seu território e comprovamos que a melhor política para a América do Sul é a colaboração em todos os sentidos, não só no econômico”, avalia um oficial da Aeronáutica. Decerto, o sucesso na libertação dos reféns do Sendero Luminoso contribuiu para o bom resultado de um encontro ocorrido pouco mais de dois meses depois. Em 25 de agosto, o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), graças ao empenho do presidente Lula, assinou um tratado econômico com o Peru. A proposta é de se criar na América do Sul uma zona de livre comércio. Mas o acordo foi além das premissas comerciais. Fez parte do pacote a inclusão do Peru no Sivam, o sistema de segurança da Amazônia por satélite. Ou seja, desde agosto, não
são mais necessárias missões secretas para que o Brasil repasse ao vizinho os dados captados pelos aviões e radares do Sivam. Certamente, são feitos que interessam também a outros vizinhos e que vêem ao encontro do que o governo tem preconizado como um dos pilares
de sustentação de sua política externa.

 

Sendero tenebroso

Que o Sendero Luminoso – nome de guerra do Partido Comunista do Peru – era a mais insólita das organizações guerrilheiras da América Latina, já se sabia. Quando começou a agir, há 23 anos, o grupo se caracterizava por um messianismo extremista, que perseguia líderes esquerdistas que não rezavam o seu catecismo com mais fúria do que a dedicada aos agentes do Estado. Afinal, o modelo do Sendero era Mao Tsé-tung e sua Revolução Cultural (1966-1976), que pretendia extirpar a ferro e fogo todos os vícios e costumes da “sociedade capitalista” ainda presentes na China comunista. Mas a sandice senderista conseguiu até inverter uma macabra equação latino-americana: segundo o relatório da Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR) do Peru, divulgado este mês, o conflito armado entre grupos insurrecionais e o Estado, entre 1980 e 2000, provocou 69 mil mortes. Mais da metade, 59%, pereceu nas mãos do Sendero; apenas a minoria restante foi vítima das forças de segurança. Mais de 70% dos mortos eram indígenas e mestiços, a imensa maioria da população peruana excluída, que os senderistas pretendiam redimir. Por essas e por outras o grupo era conhecido como o “Khmer latino”, referência ao regime genocida do Khmer Vermelho, cujo projeto milenarista de transformar o Camboja numa sociedade camponesa e igualitária foi responsável pela morte de um terço da população, entre 1975 e 1979.

Aliás, não por acaso a campanha terrorista do Sendero teve início
em plena redemocratização do Peru, em maio de 1980, depois de
12 anos de regime militar, com ataques a postos de votação em vilarejos. Os senderistas também enforcavam cachorros em postes para advertir os “cães contra-revolucionários”. Em sua ação no
meio rural, o Sendero promovia julgamentos sumários de policiais
e fazendeiros. Mas os guardiães puritanos do novo homem também julgavam “maus cidadãos, maus maridos, más esposas, parasitas sociais, degenerados, putas, bichas, (…) detritos putrefatos que
o regime capitalista feudal (…) fomentava para adormecer o espírito combativo das massas” (Mario Vargas Llosa, Lituma nos Andes).
As vítimas eram executadas de maneira violenta, e seus restos ficavam expostos para servir de “exemplo”.

A organização foi praticamente desmantelada em 1992 com a prisão de seu Estado-Maior, entre eles o líder máximo, Abimael Guzmán, conhecido como “Camarada Gonzalo”, um ex-professor de filosofia da Universidade de Huamanga, em Ayacucho. O homem que se intitulava a “Quarta Espada da Revolução” (depois de Marx, Lênin e Mao) hoje lidera, da prisão, a facção que busca uma saída política negociada,
em troca de anistia. A outra facção, Prosseguir a Guerra Popular, com 300 militantes, quer continuar a luta, mas é mais pragmática, evita
a violência contra os camponeses e foi a responsável pelo sequestro dos 70 funcionários da Techint.

Cláudio Camargo

 

Boa vizinhança

O Brasil está mesmo disposto a sediar a reunião entre dirigentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e representantes da ONU. O assunto foi tratado entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Álvaro Uribe, da Colômbia, durante a rápida visita de Lula àquele país na terça-feira 16. Uribe, que se elegeu prometendo rigor contra guerrilheiros que combatem o governo central há 40 anos, não tem obtido sucesso e começa a enfrentar críticas. Segundo o ministro da Defesa, José Viegas, o Brasil está pronto para sediar o encontro, garantindo a segurança de seus participantes, assim que for oficialmente solicitado. “Não seremos mediadores. Daremos as condições para a realização do encontro”, afirmou. Sobre ligações de setores das Farc com o narcotráfico, o ministro afirmou que não cabe ao Brasil emitir opinião, mas, sabe-se, existe no governo brasileiro a disposição de ajudar os vizinhos no combate ao narcotráfico. Viegas confirmou que o pelotão do Exército em São Gabriel da Cachoeira, perto da fronteira com a Colômbia, será triplicado, transformando-se numa brigada com 2,5 mil soldados. A brigada contará com um ou mais esquadrões de helicópteros. “Não dá para atuar na região sem o uso de
helicópteros”, afirmou o ministro.

Eduardo Hollanda