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Entrevista

ROSALY LOPES

A brasileira que venceu na nasa

A brasileira que venceu na nasa

Recém-premiada por explorações no espaço, a cientista já descobriu 71 vulcões fora da Terra

Luiza Villaméa
Edição 27/05/2009 - nº 2063

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Como muitas garotas de sua geração, a carioca Rosaly Lopes se apaixonou pela conquista do espaço quando era pequena. Seu fascínio pelo universo não diminuiu nem quando a Nasa, a agência espacial americana, encerrou o programa Apolo, no final de 1972. Três anos depois, aos 18 anos, Rosaly deixou o bairro de Ipanema, onde vivia, para estudar astronomia na Universidade de Londres, na Inglaterra. Hoje, aos 52 anos, é uma das mais conceituadas cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, na Califórnia. À frente da equipe de geociências planetárias, ela atualmente pesquisa Titã, a maior lua de Saturno. "É um lugar interessante para se procurar algum tipo de vida", afirma a cientista.

Antes de Titã, uma lua chamada Io, que gira em torno de Júpiter, concentrou sua atenção por cinco anos. Lá, Rosaly descobriu 71 vulcões ativos, feito que colocou seu nome no "Guinness" americano. A cientista também gosta de explorar vulcões ativos na Terra. Tanto que um de seus quatro livros, "Turismo de Aventura em Vulcões", traça roteiro para expedições a essas estruturas geológicas que costumam surpreender com suas erupções. Quando um vulcão explode, diz Rosaly, é fundamental observar a trajetória dos pedaços de lava expelidos e, na sequência, desviar-se deles. "O negócio é não entrar em pânico", orienta a cientista. Pelo conjunto de sua obra, Rosaly acaba de ser premiada pela organização americana Wings WorldQuest, que contempla mulheres cientistas. A seguir, os principais trechos de sua entrevista à ISTOÉ:

ISTOÉ – O que a sra. vai fazer com o prêmio da Wings WorldQuest?
ROSALY

Estou analisando as oportunidades. É uma bolsa de US$ 10 mil, para trabalho de campo. Em geral, todo o meu trabalho é financiado pela Nasa. Então, quero usar o prêmio em uma área na qual eu não sou especialista, ou seja, a comparação de vulcões da Terra com os de outros planetas.

ISTOÉ – Foi o tema de sua tese de doutorado, não?
ROSALY

Isso. Já trabalhei com vulcões de vários planetas e luas diferentes. Mas também gostaria de explorar vulcões submarinos. Se surgir uma oportunidade, posso fazer isso.

ISTOÉ – Como é que se descobre um vulcão numa lua de Júpiter?
ROSALY

Durante a missão Galileo, a Nasa mandou uma nave não tripulada a Júpiter. No Laboratório de Propulsão a Jato, liderei uma pesquisa na lua Io. Com um instrumento infravermelho, eu media o calor de um vulcão e comparava com outros ao seu redor. Descobri 71 vulcões ativos pelo calor que eles emitiam.

ISTOÉ – A sra. estava na Califórnia. Como se conectava com Io?
ROSALY

Eu planejava as observações. O instrumento fazia as observações e mandava os dados para a Terra.

ISTOÉ – Esse processo de transmissão de dados era demorado?
ROSALY

Às vezes demorava alguns dias para chegar. Os dados ficavam armazenados em um computador da nave. Depois, tinha o que chamamos de passagem do deep space network, que são essas antenas que recebem sinais de uma nave.

ISTOÉ – Hoje a sra. trabalha com a sonda espacial Cassini. O que a sra. faz exatamente?
ROSALY

Trabalho na geologia de Titã, a maior lua de Saturno. Titã é muito interessante. É a única lua do Sistema Solar com uma atmosfera substancial. Tem geologia similar à da Terra, com nuvens, lagos, dunas, rios e chuva.

ISTOÉ – Então tem água?
ROSALY

Em vez de água, tem metano líquido. Algumas coisas são muito parecidas com as da Terra, mas a composição é diferente. Titã tem vulcões também. Em pelo menos dois lugares há indicações de fluxos de lava.

ISTOÉ – Existe a possibilidade de a sra. descobrir novos vulcões?
ROSALY

Estamos coletando mais dados para confirmar isso. Talvez nestes dois lugares que parecem ter fluxos de lava. Só que lava na Terra é rocha derretida, magma. Lava em Titã é uma mistura de gelo, talvez com amônia. Titã tem uma crosta de gelo, com um oceano líquido embaixo. Existem fraturas na crosta e essa água misturada com outras coisas, talvez com amônia, com metano, vem à superfície. Chamamos isso de vulcanismo, o mesmo tipo de processo que traz material do interior do planeta até a superfície.

ISTOÉ – E essa água do oceano embaixo da crosta é água, água?
ROSALY

É água, água, mas com outras coisas misturadas, como uma pequena quantidade de amônia, de metano.

ISTOÉ – Como existe água, existe possibilidade de vida?
ROSALY

Não sabemos. Mas é um lugar interessante para se procurar algum tipo de vida. Porque tem muitas moléculas orgânicas, como carbono. Só que a temperatura da superfície é muito fria, mais ou menos 200 graus centígrados abaixo de zero. Se existir algum tipo de vida, o mais provável é que seja neste oceano.

ISTOÉ – Há outros lugares no espaço com indicações de vida?
ROSALY

Há lugares com maior probabilidade que outros. São Marte e uma lua de Júpiter chamada Europa, que também tem uma crosta de gelo e um oceano de água líquida embaixo. Calor e água são dois dos elementos necessários para a vida. Mas ainda não temos nenhuma indicação de que vida exista nestes lugares. Para descobrir alguma coisa, vamos precisar de muitas outras missões.

ISTOÉ – É verdade que seu lugar favorito é perto da cratera de um vulcão ativo?
ROSALY

É. Mas depende do vulcão ativo. Há vulcões ativos, como o Etna, o Kilauea, no Havaí, o Yasur, na ilha de Vanuatu, que não são muito perigosos. Neles, dá para ver onde as bombas vulcânicas estão caindo. Há outros vulcões, como o Santa Helena, nos Estados Unidos, que são muito perigosos, muito explosivos. É preciso saber o que é perigoso fazer em um vulcão ativo.

ISTOÉ – O que não é perigoso fazer num vulcão ativo?
ROSALY

Ver fluxos de lava em geral não é perigoso. Se o fluxo não estiver andando muito depressa, dá até para caminhar em cima dele.

ISTOÉ – Não é quente?
ROSALY

A lava forma uma crosta fria rapidamente. E explosões pequenas, que chamamos estrombolianas, podem ser observadas sem perigo. Ver um vulcão ativo é uma maravilha.

ISTOÉ – Qual o vulcão ativo mais próximo do Brasil?
ROSALY

Tem muitos vulcões nos Andes, que entram em erupção de vez em quando, como o Vila Rica, no Chile. E há vulcões muito interessantes e menos perigosos nas Ilhas Galápagos.

ISTOÉ – No Brasil, há como estudar vulcões?
ROSALY

Ativos não. Tem áreas vulcânicas, como os Basaltos do Paraná, que são muito antigas. Tem também Fernando de Noronha, um arquipélago formado a partir de erupções vulcânicas muito antigas. Mas eu nunca estudei Fernando de Noronha

ISTOÉ – Qual a expedição mais marcante que a sra. já fez?
ROSALY

Foi em 1979, quando vi pela primeira vez um vulcão ativo, durante o meu doutorado. Quando cheguei ao Monte Etna, na Itália, não estava acontecendo nada. Mas, durante as três semanas que meu grupo ficou lá, o vulcão entrou em erupção. Foi uma beleza.

ISTOÉ – Quais as dicas da sra. para quem planeja visitar um vulcão?
ROSALY

Antes de mais nada, procurar informações sobre o tipo de atividade do vulcão, para saber se é explosivo. Vulcões são muito diferentes uns dos outros. Em alguns, dá para chegar muito perto da erupção. Em outros, a pessoa precisa ficar muito longe.

Depois, se for em um lugar muito isolado, não ir sozinho. E usar roupas apropriadas. Quem estiver perto de uma cratera explodindo precisa usar um capacete para proteger-se das bombas menores. O capacete não protege das bombas maiores, mas garante contra as menores.

ISTOÉ – Que tipo de bombas são essas?
ROSALY

São os pedaços de lava que o vulcão cospe. Chamamos de bombas, mas não explodem. Outra dica importante é não correr se estiver perto de uma cratera e, de repente, ela explodir. A pessoa tem de observar para onde estão indo essas bombas. E sair do caminho delas. Em geral, elas não têm densidade muito grande. Podem ser evitadas. Mas, se a pessoa correr, não vê a trajetória delas.

ISTOÉ – Como uma pessoa criada em Ipanema vira vulcanóloga?
ROSALY

Desde pequena, eu era fascinada pela conquista do espaço. Com 18 anos, fui estudar astronomia em Londres. No último ano, fiz um curso de geologia dos planetas. Adorei.

 

ISTOÉ – Não é um curso muito difundido no Brasil.
ROSALY

Não, e meus pais me ajudaram. Eu devo muito a eles, porque naquela época não era comum os pais deixarem uma filha de 18 anos ir para Londres sozinha, estudar.

ISTOÉ – O que a sra. tem a dizer a alguém que deseja se dedicar às ciências?
ROSALY

É uma carreira que dá muita felicidade. Mas é preciso ter muita dedicação. É preciso estudar sempre. Não é para quem quer trabalhar oito horas por dia.

ISTOÉ – A sra. mantém contato com o Brasil?
ROSALY

Eu procuro visitar minha família a cada dois anos. E procuro dar apoio a professores de Pernambuco que montaram uma base de lançamento de foguetes experimentais para alunos de universidades, de escolas secundárias. Eles deram meu nome à base.

ISTOÉ – O que falta ao Brasil para que cientistas como a sra. trabalhem no País?
ROSALY

Precisa de mais apoio financeiro. No Brasil, cientista ganha pouco. E tem poucas verbas para fazer o seu trabalho. Isso é o que eu ouço, falando com colegas. Eu nunca trabalhei no Brasil.

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