Cultura

Homens e mulheres de dona Flor

Bela e desimpedida, Sônia Braga distribui beijos polêmicos e numa entrevista exclusiva fala da boa vida em Nova York, do 11 de setembro e da eterna Gabriela

Em tempos de guerra, os americanos batizaram a portuguesa Carmen Miranda como a brazilian bombshell, a bomba brasileira. Os dias ainda são belicosos, mas a legítima bomba brasileira atende pelo nome de Sônia Braga. Aos 53 anos, ela ainda faz estragos na terra do Tio Sam. No momento, os brasileiros podem vê-la em ação no badalado – e premiado – seriado Sex and the City, exibido pelo canal pago Multishow. Sua participação fulminante encerra-se na segunda-feira 25 e deve ser degustada com atenção patriótica. Sônia é Maria, uma artista plástica brasileira que ensina à ninfomaníaca Samantha (a loira Kim Cattral) algumas palavras em português, entre elas, a sonora “boceta”. “Quando um casal estrangeiro se conhece, a primeira coisa que faz é trocar palavras novas”, diz Sônia. A oferenda semântica é a senha para o início de um fugaz e caliente romance entre duas mulheres experientes e desinibidas. “Nada do que fiz até hoje considero ousado”, diz. Para ela, o seriado “tem uma ótima carpintaria de texto”, mas ressalva: “Sou mais romântica. Minha Nova York é mais do Woody Allen do que do Sex in the City. Mas a verdade é que a série mudou o visual das mulheres da cidade. A figurinista Patrícia Field acabou com aquela história anos 80 de só usar terninho.” A própria Sônia calçava na segunda-feira 25, na sessão de fotos para IstoÉ, um Manolo Blahnik, sapato ícone do seriado. Num quarto de hotel em São Paulo vestia ainda um tubinho negro colante que revelava curvas intactas. O tempo passou, mas Gabriela ainda se materializava por inteiro. A mesma Gabriela que fizera o sangue do País ferver durante a novela global em que ela se exibia em cenas de transbordante sensualidade. “Gabriela foi uma personagem libertária. Ensinou a me voltar para a natureza, a ser um animal mesmo.” O ano da novela era 1975 e o imberbe Junior, o irmão da Sandy, nem sequer tinha nascido.

O mesmo Junior, que na terça-feira 26, durante a entrega do Vídeo Music Brasil, da MTV, no Anhembi, ganhou de Sônia um beijo na boca, que poderia ter sido, diga-se, desfrutado com mais entusiasmo. Sônia é mesmo beijoqueira, e já havia, no mesmo Sex and the City, eternizado um beijo lésbico na loira Kim Cattral. O vulcão continua em erupção pelo menos à frente dos holofotes. Na vida cotidiana, Sônia está sozinha e despreocupada. “Quando quero ver homem bonito, vou a boates gay, porque tenho muitos amigos gays”, desdenha. Com a sobrinha brasileira aprendeu a conjugar o flexível verbo ficar. “Não tenho regra para nada, não estou preocupada, não estou procurando alguém desesperadamente, se acontecer, aconteceu. Mas gosto de acordar junto, ler o jornal junto, escolher o cinema…” A solidão não incomoda. Em Nova York, onde mora – também tem uma casa em Niterói –, é capaz de sair de casa a pé “e sem rumo”, por volta das 11 horas e só voltar às 19 horas. “Em Los Angeles, não dá para fazer isso. É sempre aquela história, pegar o carrinho e ir encontrar a turminha.” Para acompanhá-la em suas caminhadas, apenas uma inseparável mochila, espécie de kit sobrevivência. “Em Nova York faz muito frio e muito calor. Então carrego um cobertorzinho, um xale, luvas, meias, sapatos, lanterna, uma jaqueta de astronauta prateada, porque adoro tecidos high-tech.”

As caminhadas a esmo têm sido poucas. Sônia tem trabalhado muito. Atualmente protagoniza a série American family na tevê pública americana. “O programa mostra uma família de latinos normal, não há escândalos, nem drogados, nem prostituta. Não existia antes nada que tratasse os latinos, a maior minoria americana, de maneira tão digna.” Sônia já é americana. Desde julho possui a dupla cidadania, o que lhe dá o direito, depois de morar 13 anos no país, de votar. No momento, tenta mobilizar amigos democratas a votarem contra o conservador Bush. “Acho que no fundo os democratas estão com uma culpa muito grande de não terem ido votar e o Bush ter sido eleito. Falam em fraudes, mas o fato é que ele é o presidente. Não adianta reclamar, e sim votar.” Segundo Sônia, qualquer avaliação do governo Bush depois de 11 de setembro é perigosa. “Olhe o exemplo do Rudolf Giuliani (ex-prefeito de Nova York). Ninguém gostava muito dele, mas depois do atentado passaram a adorar aquele homem, por causa do seu plano de emergência.” Até hoje, Sônia sente-se desconfortável para falar do atentado, que ocorreu próximo de sua casa, no bairro de TriBeCa. “É a primeira vez que tento falar no assunto. Nunca vou esquecer aquela imagem do pânico, aquele espaço vazio, as crianças do colégio perto de casa… Mas talvez o homem seja mesmo o animal com maior capacidade de sobrevivência.” Pelo menos a capacidade de adaptação de Sônia anda em dia. Antes das férias brasileiras, ela esteve no México, filmando The bride of the sea, do jovem diretor mexicano Pepe Bejorquez. Para evitar os transtornos de uma viagem de quatro horas, resolveu permanecer no lugar das locações, a cidade litorânea Roca Partida. “O calor era insuportável, sufocante. Dormi num quarto onde havia uma tarântula enorme. Era a tarântula e a mulher-aranha”, ri lembrando de um de seus maiores sucessos no cinema, O beijo da mulher-aranha, de Hector Babenco. Seu papel no filme rodado em Roca Partida é de Nurka, uma feiticeira. Recentemente, também fez Tostesterone na Argentina, com o cineasta americano David Moreton, conhecido pelas produções de temática gay. Em setembro, vai prestigiar o lançamento do filme no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá. “Tenho este lado glamouroso. Gosto de descer da limusine, de andar naquele tapete vermelho, dos flashes, de falar o que eu estou vestindo. Para isso fico cinco horas na maquiagem, peço um vestido para o Ocimar Versolato (seu estilista preferido). Só não se pode levar esses momentos a sério, senão fica chato.” Modestamente, Sônia diz que são oportunidades para conhecer seus ídolos, como o cineasta Martin Scorsese, a quem foi apresentada na pré-estréia de Gangues de Nova York. Scorsese é um de seus diretores preferidos, mas sonha mesmo em trabalhar com Woody Allen, Pedro Almodóvar e os brasileiros Guel Arraes e Fernando Meirelles, com quem diz que faria até um filme publicitário. “Um dia eles vão precisar de mim. Gostaria de fazer mais cinema nacional”. Sua mais recente participação foi em Memórias póstumas, de André Klotzel. “Fiz até uma figuração no filme vestida de freira, mas acho que ninguém percebeu.”

Rejuvenescida – Como atriz, Sônia vive a espera de convites e pode até voltar as novelas. “Por enquanto, novelas para mim são como álbum de família, assisto um capítulo e revejo todos os meus amigos. Não sinto a melancolia da saudade, mas sinto muita falta deles” Como atriz, optou por manter ainda acesa a imagem de sensualidade que sempre carregou. “Não podia ficar gorda e só fazer papel de mulher velha. Em 2000 fiz uma plástica no rosto com o Pitanguy. Nunca tinha entendido essa necessidade, mas tirei uma expressão cansada do rosto, fiquei mais jovem. Também perdi peso e moldei meu corpo”. Ela consegue conciliar a atual boa forma, com uma alegria irradiante. “É por isso que eu gosto de gente jovem, eles tem mais senso de humor, estão sempre esperando uma piada. Quando fiz uma participação em Força de um desejo (novela de Gilberto Braga), fiquei assustada com a quantidade de jovens que eu não conhecia”. Sônia gosta de rir. Se divertia com as confidências mundanas do maquiador, distribuía autógrafos debochando dos próprios garranchos mais próprios a receitas médicas. “É para tomar três vezes ao dia”. Riu muito quando um funcionário da manutenção do hotel onde foi feita a entrevista pediu uma foto para engrossar seu álbum de celebridades. Ela quis antes para ver o álbum e não se conteve. “Meu filho, quem é esse cara?” O tal álbum se resumia a quatro fotos do funcionário ao lado do jogador de futebol Roberto Carlos. ônia não se furta ao corpo a corpo com os fãs. “Até hoje ainda me chamam de Dona Flor. Acho que eles me amam. Sou simples por natureza, minha família veio da roça.. Quando morava em São Paulo, no mítico edifício Copan, no centro da cidade, só comprava roupas em brechós da Estação da Luz”. Hoje, ela sabe equilibrar a eterna brejeirice, com ares de estrela internacional. Ninguém até hoje foi tão longe.

Maquiagem e cabelo: Alê de Souza