Mundo

Energia e paixão

Com a mesma intensidade que trabalhava, o diplomata reconstruía a vida afetiva

A morte de Sérgio Vieira de Mello deixou em estado de choque parentes e amigos. No Brasil, onde moram sua mãe, sua irmã, primos e sobrinhos. Na Europa, onde vivem seus filhos e sua ex-mulher. Mas uma imagem transmitida pela tevê, no dia do atentado, resume os sentimentos que assolaram os corações ligados ao diplomata. Logo após a explosão, uma jovem funcionária da ONU precisou ser contida por soldados para não entrar no prédio em escombros, do qual saíra ilesa. Seu desespero era tanto que atraiu as câmeras. Era a argentina Carolina Larriera, 29 anos, a namorada de Vieira de Mello.

Nos últimos tempos, o diplomata não tinha apenas os projetos humanitários da ONU a motivar sua vida. Ele conheceu Carolina durante sua missão no Timor Leste, entre 1999 e 2002. A moça trabalha há oito anos na ONU. Sua mãe, Norma, disse ao jornal argentino La Nación que a filha está extremamente abalada. Em Bagdá, a informação da ONU era de que ela viajara para a Jordânia, com outros funcionários da organização.
Em sua última visita ao Brasil, em dezembro, Vieira de Mello trouxe Carolina para conhecer a família brasileira. Ao empresário carioca Antônio Carlos Machado, seu amigo de infância, fez confidências sobre o relacionamento. “Ele dizia que havia se apaixonado e que não tinha idéia de quanta energia isso poderia lhe drenar, mas que se sentia diferente, com muita garra e vontade de aproveitar a vida”, conta Machado. Juntos, os dois amigos batizaram e crismaram o sobrinho André Simões, filho de Sônia, a única irmã de Vieira de Mello.

O afilhado André foi quem cuidou de amenizar o impacto que a dramática notícia poderia provocar em Gilda, 83 anos, mãe de Vieira de Mello. “Desligamos a televisão e fizemos tudo para evitar que ela soubesse pela imprensa”, contou ele. A confirmação da morte veio de uma ligação do chanceler Celso Amorim, na tarde da terça-feira 19. Gilda foi sedada para receber a notícia. Ela conversou com o filho, pelo telefone, no sábado 16. Vieira de Mello reclamou do calor no Iraque, mas reafirmou seu otimismo com o trabalho. O tom bem-humorado, porém, não tranquilizou a mãe. Gilda não se conformava com a missão no Iraque. Apesar de lúcida e esclarecida, estava até tomando antidepressivos. Religiosa, em maio escreveu o nome do filho num papel e pôs dentro de uma Bíblia. “Ela vinha tendo premonições”, lembra uma amiga de Gilda. O maior medo dela era que os iraquianos confundissem o filho com os americanos.

Não foi fácil para a família brasileira de Vieira de Mello aceitar a decisão de seus filhos, Laurent, 25 anos, e Adrien, 23, de enterrá-lo na França, país de origem deles e da mãe, Annie. Mas concordaram que o corpo seria velado no Rio de Janeiro, no sábado 23, e voltaria para a França no dia seguinte. “Os filhos dele alegaram que, como o pai sempre esteve ausente, pelo menos agora queriam estar junto dele. É compreensível”, disse com a voz embargada André Simões.


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