Comportamento

Um Pan de ouro

Impulsionada pelos recursos da Lei Agnelo-Piva, delegação brasileira bate recorde de medalhas

Quem compete, ganha medalha, sobe no pódio e merece a maior parte dos louros é sempre o atleta. Mas, diante das estatísticas sobre a participação do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, na República Dominicana, é tarefa simples perceber que o trabalho do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e a injeção no esporte brasileiro de mais de R$ 50 milhões por ano, retirados das loterias pela Lei Agnelo-Piva, foram decisivos para transformar essa na mais bem-sucedida participação de uma delegação brasileira em competições internacionais. Os números não deixam espaço para dúvidas. Sem contar mudanças de resultado que poderão ser provocadas por casos de doping em julgamento, o País garantiu 122 medalhas – 21 a mais do que em Winnipeg, no Canadá, em 1999 – e terminou em quarto lugar, atrás dos Estados Unidos, de Cuba e do próprio Canadá. A colocação geral é a mesma do último Pan, mas as semelhanças ficam por aqui. O número de medalhas de ouro aumentou 12% (de 25 para 28), as de prata cresceram 25% (de 32 para 40) e as de bronze, 23% (de 44 para 54).

Entre os primeiros colocados, o Brasil foi o único a aumentar o número de pódios. Seis em cada dez atletas, ou 295 do total de 485, voltaram com pelo menos uma medalha no peito. Nas provas que envolvem no mínimo dois atletas, foram 43 medalhas, seis a mais do que as ganhas por Cuba. Em quatro modalidades – luta, pentatlo moderno, saltos ornamentais e futebol –, os brasileiros chegaram ao pódio pela primeira vez. Se for considerado que o número de medalhas em disputa em Santo Domingo foi menor do que em Winnipeg por causa da exclusão de algumas provas não olímpicas, o feito assume dimensões ainda maiores. “Esperávamos uma boa participação, mas todo esse sucesso, de certa forma, foi até surpreendente”, admite o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman.

“A Lei Agnelo-Piva foi fundamental porque deu tranquilidade ao comitê e às confederações para a realização de um planejamento de competição, coisa que jamais havia acontecido”, completa o dirigente. Sancionada em 16 de julho de 2001, a Lei nº 10.264, batizada de Agnelo-Piva por causa de seus autores, o então deputado e atual ministro do Esporte Agnelo Queiroz e o senador Pedro Piva (PSDB-SP), estabelece o repasse de 2% da arrecadação bruta de todas as loterias ao COB, que fica com 85% dos recursos, e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro (15%). O COB é obrigado a aplicar 5% do dinheiro no esporte universitário e 10% no esporte escolar. No ano passado, dos R$ 50,792 milhões que caíram na conta do Comitê, R$ 19 milhões foram divididos entre as confederações esportivas e R$ 10,5 milhões financiaram os Jogos Sul-Americanos, disputado em quatro cidades brasileiras. A torcida é grande para que esses recursos continuem a se transformar em pódios.

 

 

“Foi melhor do que esperávamos”

O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, é um dos mais animados com o atual momento vivido pelo esporte brasileiro. “O resultado no
Pan foi até melhor do que esperávamos.” Na quinta-feira 21, concedeu a ISTOÉ
esta entrevista.

ISTOÉ – Será possível notar nos Jogos de Atenas os efeitos positivos da lei Agnelo-Piva?
Carlos Arthur Nuzman –
Se pensarmos em medalhas, sejamos sinceros: o resultado não será tão intenso e explícito como ocorreu neste Pan. Eles começam a aparecer pelo menos oito anos depois do início de um ciclo de virtudes como esse. Mas a contribuição para viabilizar o trabalho do COB, das confederações e dos atletas será decisiva. Nosso esporte olímpico precisaria de pelo menos R$ 103 milhões por ano. Sei, logicamente, que o País tem outras grandes carências. Por isso, a lei Agnelo-Piva, que traz cerca de 40% desse total, é magnífica, um marco para a administração do nosso esporte. Somos extremamente gratos aos autores da lei, entre eles o ministro (dos Esportes) Agnelo Queiroz.

ISTOÉ – Como o dinheiro é distribuído?
Nuzman –
Recebemos R$ 50,792 milhões em 2002. Fizemos
os repasses obrigatórios, organizamos os Jogos Sul-Americanos, gastamos R$ 11 milhões em despesas e projetos e dedicamos
R$ 2,46 milhões a um fundo de reservas. Por fim, repartimos
R$ 19 milhões entre as confederações. Pelo critério, as maiores,
como as de atletismo, basquete, vôlei e natação, levam 4%. As
outras recebem 3%, 2% ou 1,5%.